#AT13 – Fortalecimento da agenda agroecológica: cooperação intra-regional e Small Grants Programme (GEF/PNUD)

Fortalecimiento de la agenda agroecológica: cooperación intrarregional y Small Grants Programme (GEF / PNUD)

Dia 12 | 14h00 – 18h00 | LOBO GUARÁ  | #Agroecologia2017

Responsável(is): Dulclair Sternadt (FAO/Chile); Fabio Fajardo (Programa de Pequenas Donaciones de Cuba); Rubén Salas (Programa de Pequenas Donaciones de Bolívia); Clara Nicholls (SOCLA); Juan René Guzmán Arbaiza (Programa de Pequenas Donaciones – El Salvador); Ginercina de Oliveira Silva (Amera), Juvenal Neves (COOAF – Bico); Rosemary Diegues (PNUD); Coordenadora: Isabel Figueiredo (ISPN – Programa de Pequenos Projetos do Brasil).

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Para saber mais sobre o Small Grants Programme – GEF

Apresentação Ginercina de Oliveira Silva

Relato:

A coordenadora da mesa, Silvana Bastos, começou atividade fazendo uma  saudação de boas vindas a todos os participantes da mesa e aos convidados. Para a instalação da atividade foi solicitada a apresentação de todos os presentes.

O funcionamento da atividade foi organizado em três blocos de apresentações. Ao final de cada bloco foi realizado um momento de esclarecimento de dúvidas. Por fim, foi formada uma mesa para debate.

Primeiro bloco:

Isabel Figueiredo - ISPN 

A experiência do Brasil na execução do Programa de Pequenos Projetos

Isabel iniciou as apresentações relatando que os representantes de Cuba e El Salvador não puderam comparecer ao evento de vido à passagem do furacão Irma.

O Programa de Pequenos Projetos (PPP) é um programa das Nações Unidas, do Fundo para o Meio Ambiente Global - GEF, instituído em mais de 120 países. No Brasil o programa existe desde 1995 tendo o Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) como Coordenação Técnica Administrativa. O programa apoia organizações comunitárias e conta com o protagonismo das comunidades na elaboração das propostas.

Para o ISPN, a agroecologia abarca temas amplos, incluindo: paisagens produtivas sustentáveis, conservação por meio do uso sustentável da biodiversidade (agroextrativismo), manejo do solo e da água (boas práticas de cobertura solo, curvas de nível, entre outros), resgate e conservação de variedades crioulas, valorização dos sistemas agrícolas tradicionais.

Para trabalhar esses temas são utilizadas diversas estratégias, como o estímulo à diversificação da produção, a aliança do conhecimento tradicional ao científico, o beneficiamento da produção, entre outros.

De acordo com Isabel, os pequenos projetos tem a grande vantagem de serem flexíveis, adaptáveis, acompanhando a dinâmica de mudanças que as comunidades enfrentam.

O PPP investe fortemente também nas estratégias de promoção da comercialização dos produtos dos grupos. O programa já apoiou projetos que visavam inserir os produtos nos mercados institucionais. Com a retração dessas políticas, aumentou o apoio às feiras livres. Outras estratégias de mercado apoiadas são os CSA (comunidades que sustentam a agricultura) e os sistemas de certificação participativa (SPG).

Isabel destaca que outro aspecto importante é a capacidade das comunidades que acessam pequenos projetos de influir em políticas públicas. Segundo a palestrante, o PPP tem apresentado bons resultados, dentre os quais se destaca: influência nos municípios, onde as associações passaram a pautar as chamadas públicas da Política Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), a estruturação de conselhos municipais de meio ambiente, a obtenção de espaços para feiras livres, entre outros.

O programa investe também na disseminação de tecnologias sociais de manejo da água e do solo e na recuperação de áreas degradadas, permitindo que as pessoas possam testar e adaptar tecnologias sociais. Outro investimento do programa é  na ampliação da governança local, apoiando projetos que promovam acordos comunitários para uso dos recursos naturais e do território.

Isabel  afirma que, nesses 20 anos de história, o ISPN contribuiu para disseminar os produtos e povos do Cerrado e da Caatinga, servindo como agente de fomento a importantes redes, como a Cooperativa Central do Cerrado, que está no evento servindo refeições. O resultado do programa de pequenos projetos é muito mais do que a soma dos resultados de cada projeto, pois a rede de pequenas organizações promove resultados maiores, como a influência e oferta de subsídios para políticas públicas.

Isabel conclui que: "os desafios para dar escala a esse tipo de estratégia de apoio a projetos comunitários são:  falta de ATER (assistência técnica e extensão rural) às comunidades, êxodo rural da juventude, a continuidade do programa e a valorização de ecossistemas não florestais. O Cerrado é um exemplo disso, já que se trata de um bioma com diversas paisagens não florestais, muitas vezes não valorizadas. Precisamos valorizar os ecossistemas abertos, os campos e outras paisagens”.

Rubén Salas - O programa de pequenos projetos da  Bolívia

É um programa do GEF, que na Bolívia é executado pelo PNUD. Esse programa foi criado depois da Cúpula Mundial da Terra. Desde 93 o programa está funcionando em mais de 120 países do mundo. A Bolívia tem uma grande extensão territorial com três grandes zonas ecológicas (andina, altiplano e terras baixas).  O PPP da Bolívia acontece desde 2012, em cinco áreas protegidas do país e envolve 170 comunidades e 15 municípios. A principal problemática ambiental que eles enfrentam é a mudança no uso do solo.

O critério básico do PPP Bolívia para incorporar o enfoque agroecológico é  apoiar sistemas e práticas produtivas alternativas e sustentáveis.

Dentre as ações no período recente, está o estabelecimento de produção integrada, melhoria nos sistemas silvipastoris (manejo e melhorias de pastagens) e estabelecimento de sistemas agropastoris. Rubén afirma que isso gerou  mudança do sistema extensivo para um sistema semi-intensivo, o que contribui para melhorar a qualidade genética do rebanho.

Nos chacos a principal demanda é a água. Estão apoiando sistemas de microaspersão para irrigação, assim como outras técnicas de uso econômico da água. Apoiam também formas renováveis de energia, como a energia fotovoltaica para bombeamento de água.

As principais práticas agroecológicas apoiadas são a rotação de culturas, a diversificação produtiva, o uso de adubos orgânicos, as práticas de conservação do solo, as curvas de nível ou terraços e a recuperação de sementes locais. As perspectivas futuras do programa são voltadas à resiliência das paisagens produtivas. Com isso, estão adotando um enfoque de manejo da paisagem e trabalham com 20 indicadores junto aos agricultores para promover sistemas de produção socioecológicas resilientes. Os 20 indicadores são utilizados para construir uma linha de base. São chamadas as mulheres, homens e jovens para as oficinas locais e seminários, onde são aplicados os indicadores. A ideia é poder construir uma agenda de mais longo prazo. A partir dos resultados serão construídas cinco carteiras de projetos.

Segundo Bloco

Ginercina de Oliveira Silva, agricultora assentada da Associação de Mulheres Empreendedoras Rurais e Artesanais dos Municípios de Barro Alto e Santa Rita do Novo Destino - AMERA apresentou a experiência que sua organização desenvolveu a partir do apoio do PPP Ecos em parceria com a Articulação Pacari.

Inicialmente foi feito o resgate da história das comunidades envolvidas. Ela ressaltou que começaram com a luta pela terra, e que antes se plantava de forma convencional. Havia uma única associação para todo o assentamento, representando homens e mulheres, o que levou a uma experiência não muito boa.

Ela ainda relatou que a partir daí resolveram fazer uma associação só de mulheres. Começaram a plantar espécies fitoterápicas do Cerrado para fabricação de chás, xaropes e cosméticos. As mulheres perceberam que poderiam gerar renda a partir dessas atividades e também mudar a alimentação da família.

Neste contexto, as mulheres passaram a construir uma estratégia de diversificação das atividades produtivas e começaram a recuperar a vegetação que protege as nascentes dos assentamentos. Ela relatou que agora se percebe a questão da seca no Goiás. Não imaginavam que poderia acontecer de forma tão intensa como vem ocorrendo. Então, todos passaram a valorizar esse trabalho.

Há quatro anos iniciaram o plantio de áreas de agrofloresta, que recentemente passou a ser afetada  de forma muito severa pela seca, num quadro que está dramático no estado de Goiás, segundo ela.

Em seguida  Ginercina fez a apresentação de várias fotos exemplificando e ilustrando as áreas manejadas e os plantios realizados nos assentamentos, tanto os de frutas, de agrofloresta e de gergelim para a produção de óleo. Apresentou o trabalho da "farmacinha" junto com a Articulação Pacari. E disse que, em relação aos problemas com a água, estão pensando em outras atividades, como a recuperação de mais nascentes. Apresentou também o entreposto implantado na zona urbana do município para a comercialização de produtos produzidos pelas mulheres da associação, em parceria com a Articulação Pacari. Disse ainda que estão produzindo óleo de gergelim e de coco de gueroba. O óleo é produzido com uma prensa a frio adquirida com o apoio da Articulação Pacari e a Fundação do Banco do Brasil.

Além da estratégia de comercialização por meio do entreposto, ela também comentou sobre o sistema de venda de cestas de verduras e frutas através do whatsapp.  Afirmou que estavam sem capital de giro para viabilizar a comercialização e colocaram uma lista de produtos disponíveis para as pessoas escolherem. "Este sistema está funcionando há dois anos e vem dando resultados muito importante", diz Ginercina.

Por fim, Ginercina comentou que a associação vem se fortalecendo com o apoio da Articulação Pacari e do PPP Ecos.

Juvenal Neves, diretor da COOAF-BICO - Cooperativa de Produção e Comercialização dos Agricultores Familiares Agroextrativistas e Pescadores Artesanais de Esperantina Ltda. do Bico do Papagaio, estado do Tocantins.

Juvenal inicia a apresentação descrevendo a região do Bico do Papagaio, em que a Cooperativa atua que fica na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado, com predominância de babaçuais. Diz ainda que atua em uma organização contemplada com recursos do PPP Ecos, mas que sua apresentação irá apresentar todos os projetos e ações que o programa apoiou na Região do Bico do Papagaio, que contemplou um conjunto significativo de organizações, contribuindo assim com a disseminação das práticas agroecológicas por toda a região. Abaixo serão listadas as organizações já apoiados pelo programa no Bico do Papagaio:

1.ASMUBIP: Associação Regional das Mulheres Trabalhadoras Rurais do Bico do Papagaio. Criada em 1992 com o objetivo de organizar as mulheres trabalhadoras rurais, em núcleos, para garantir e lutar pelos direitos:  das mulheres; da sua afirmação na sociedade e da produção econômica dos produtos agroextrativistas, com destaque para o babaçu.  A associação apoia aproveitamento racional do coco babaçu e o desenvolvimento comunitário. O coco babaçu foi a matéria prima mais importante principalmente nos momentos de crise. Homens não quebravam coco e as mulheres passavam a ter um importante papel na economia familiar, na medida em que os homens não tinham trabalho. Outros projetos com a ASMUBIP: equipamento da associação para avançar em estratégias de processamento do Babaçu; implantação dos quintais medicinais implantados nas propriedades e lotes das mulheres, visando a melhoria da saúde das famílias;  babaçu sustentável, focado no manejo e na conservação/proteção dos babaçuais 2013 a 2016; integração produtiva dos núcleos de produção do babaçu nas comunidades 2016 a 2017.



2.Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais - STTRda região, fortalecendo suas estratégias políticas, produtivas e de comercialização.

-O STTR de Araguatins -  PAC, projeto de apoio a meliponicultura e produção de mel a partir do trabalho com APIS. Primeiro projeto em que viram os resultados da agroecologia na renda das famílias. De 2001 a 2003, com apoio indireto do PPP Ecos;

-Projeto Frutificar Cerrados;

-Projeto para a comunidade das Sete Barracas no município e com o STTR de São Miguel, reativação da micro-usina de processamento de babaçu da comunidade. De 2002 a 2003, apoio direto do PPP Ecos;

-STTR Regional de Buriti, São Sebastião e Esperantina - projeto de fortalecimento do agroextrativismo nos municípios de Esperantina e de Buriti.

3.Associações de assessoria, como  a APA-TO, braço técnico do movimento, criado pelo próprio movimento, com o apoio da CPT e das organizações do Movimento Sindical. Objetivo: fortalecer a rede de comercialização do Bico do Papagaio na perspectiva de articulação das organizações da região.

4.Associações de base:

-Associação de Pequenos Produtores do PA Ouro Verde - Plantando árvores e colhendo água

-Associação do Assentamento Canaã de fortalecimento do Agroextrativismo

-Apoio à Cooperativa dos Produtores Agroextrativistas do Bico do Papagaio

-Escola Família Agrícola com atuação com jovens e mulheres agroextrativistas

Por fim, Juvenal se despede da mesa afirmando que o "PPP Ecos tem contribuído com a questão da produção, mas também com a questão da organização e formação, contribuindo com as estratégias de sucessão rural, com o apoio à Escola Família Agrícola através do projeto com os jovens agroextrativistas".

Debate

Primeira pergunta da plenária: Existe ATER especializada em agroecologia para os assentados?

Juvenal comenta que "não há ATER especializada, ao contrário, a ATER oficial só conhece e estimula a produção convencional. O conhecimento agroecológico produzido na região é produzido pelos movimentos sociais".

Ginercina comenta que "também não tem assessoria nos cinco assentamentos envolvidos nas ações que o grupo de mulheres desenvolve, muito menos especializada em agroecologia. Inclusive quiseram empurrar monocultura em nossas atividades, propuseram o plantio de eucalipto".

Juvenal ainda complementa a sua fala dizendo que “há uma chamada de ATER agroecológica, mas apesar de haver chamada de ATER para a região, os técnicos efetivamente não assessoram as comunidades. As reuniões consomem todos os recursos e a assessoria não traz resultados”.



Terceiro Bloco

Dulclair Sternadt, FAO Chile

A apresentação será feita em três partes, primeiramente alguns números gerais, depois a agenda regional e as possibilidades de colaboração.

Para contextualizar, relembrou que a FAO foi criada em 1972. Nasceu da preocupação da alimentação no mundo no pós-guerra. A FAO recebeu muitas críticas dos movimentos, pois incentivou a produção de alimentos promovendo a revolução verde. Depois do período de forte incentivo à revolução verde, a FAO passou por um processo de reflexão interna, pois houve aumento da produção de alimentos, mas a fome não acabou.

Números gerais

Comércio: hoje na América Latina, dos 33 países, 18 são importadores de alimentos.

Proteção social: 50% da população não tem proteção social nas áreas rurais da AL.

Perdas e desperdícios: 1/3 dos alimentos são perdidos ou desperdiçados.

Biodiversidade: 60% da alimentação são originários de quatro plantas cultivadas.

Muitas políticas são equivocadas e precisamos mudar a forma de trabalhar. O FMI até pouco tempo atrás incentivava o Estado mínimo e todo o pacote do neoliberalismo. Vivemos outra época, onde precisamos buscar soluções alternativas para os problemas.

A FAO vem pensando em sistemas alimentares mais sustentáveis, eficientes e inclusivos. Os sistemas agroecológicos, apoiados pela pesquisa e pelas políticas, podem contribuir para melhorar a sustentabilidade.

Em 2014, a FAO realizou o primeiro Seminário Internacional de Agroecologia e isso foi bastante revolucionário, pois se instalou uma agenda de agroecologia na organização.

A FAO reconhece a importância da agroecologia para a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN). A agroecologia apoia sistemas de produção mais sustentáveis, conserva e melhora a biodiversidade, garante a segurança alimentar nos territórios e valoriza os conhecimentos tradicionais.

Em 2018 realizarão o segundo Simpósio Internacional de Agroecologia.

Em 2015 realizaram um seminário regional de agroecologia na América Latina. Do evento saíram diversas recomendações para os países para a criação de políticas que incentivem a agroecologia.

A comunidade dos Estados Latino Americanos colocou a agroecologia em seu plano de ação, um compromisso para colocar a agroecologia na agenda regional.

As quatro linhas de ação da agenda regional contemplam: governança para construção e implementação de políticas públicas, promoção de mercados que favoreçam o mercado agroecológico, geração de informação, resgate e valorização de sistemas agroalimentares com identidade territorial.

A FAO trabalha muito com os governos na perspectiva e implementação de políticas públicas. Os países pedem muitas evidências sobre os resultados da agroecologia. A FAO vem trabalhando para buscar indicadores de convencimento para poder expandir para outros países.

Todos os países da AL estão trabalhando com os ODS. A agenda de agroecologia da FAO caminha junto com a sociedade civil e os governos.

Vem trabalhando em diversas iniciativas, já registraram 52 boas práticas em agroecologia e buscam fomentar a cooperação sul-sul.

Diálogos, cooperação e alianças:

Aliança pela Soberania Alimentar na América Latina e Caribe, formada por diversos movimentos sociais, consumidores, frente Parlamentar contra a fome. Estão em diálogo com vários atores, buscando sinergias. O Brasil hoje é uma referência em agroecologia.

Clara Nicholls, SOCLA

O sistema alimentar agroindustrial produz somente 30% dos alimentos da população e utiliza 70% da terra agricultável.

Existe um grande desafio, que é ter alimentos saudáveis e acessíveis para todos. Temos que pensar numa agricultura em um cenário hostil, com mudanças climáticas, degradação do solo e crises sociais.

O modelo camponês, com seus sistemas agroecológicos diversificados são uma resposta a esses desafios. Os sistemas agroecológicos estão arraigados na realidade ecológica e cultural. Os problemas agrícolas não podem ser resolvidos simplesmente com respostas técnicas.

Os sistemas tradicionais, como os sistemas de produção indígenas são um bom ponto de partida para compreender a importância da agroecologia. São sistemas que sobreviveram até os dias atuais, mesmo com todos os enfrentamentos, como as diversas políticas anti-campesinas. Um camponês pode ter em apenas um hectare de terra até 300 espécies de plantas. Isso gera resiliência às mudanças climáticas.

Estamos em busca de sistemas eficientes, com baixa inserção de insumos externos, com alta produtividade.

Na rede camponesa de produtores de alimentos da AL, 50 a 70% são produzidos com apenas 25% da terra. Isso mostra a importância da reforma agrária para alavancar a agroecologia.

É preciso buscar indicadores e números que demonstrem a eficiência dos sistemas agroecológicos e para isso precisamos da academia e das pesquisas.

O conhecimento campesino sobre a biodiversidade é muito importante. A diversidade genética está ligada à diversidade cultural. O domínio das sementes tradicionais ainda está com os campesinos, que são os grandes guardiões dessa diversidade, tão importantes num contexto de mudanças climáticas.

Clara citou ainda a diversificação e policultivos como práticas muito comuns no campesinato, além da eficiência da produção e do maior valor nutricional que os alimentos campesinos carregam. As policulturas têm menos pragas que as monoculturas e estas são mais resilientes.

Cuba é outro país da AL muito atuante na temática da agroecologia. Tinham como lema a agricultura sem combustíveis.

Comparando sistemas convencionais e os agroecológicos, os sistemas convencionais precisam de grande input de energia, para um retorno não tão alto em termos energéticos. Os sistemas agroecológicos são mais eficientes

Por fim, vale destacar que os benefícios da agroecologia não são apenas ecológicos, mas envolve também o empoderamento e o aumento da autoestima.

Debate Final

Pergunta da plenária para Duclair da FAO: Aqui há um Ministério dos Transgênicos e um Ministério da Agricultura Familiar e da Agroecologia e existe uma divergência de discursos. Em eventos recentes representantes da FAO se posicionam a favor de empresas como a da cadeia do fumo e de agroquímicos, atores ligados ao Agronegócio. Como se explica essa divergência ou dubiedade de discursos?

 Duclair respondeu que acredita que vivemos em um momento diferente de 30 anos atrás, em que os países desenvolvidos acreditavam que tinham todas as respostas para os problemas dos países em desenvolvimento. Hoje há uma percepção de que cada país deve construir suas próprias soluções, para os problemas que acharem mais importantes e que a cooperação internacional está muito mais horizontal, diferente de alguns anos atrás. Disse ainda que a FAO, por suas características institucionais tem que trabalhar com governos e empresas e que a valorização das boas práticas das empresas pode ser um bom instrumento para diferenciar empresas mais alinhadas com as necessidades e valores da sociedade, das empresas descomprometidas com os objetivos de desenvolvimento do milênio. Deu o exemplo das empresas de tabaco,  que devem promover nos próximos anos uma mudança significativa da composição dos cigarros, o que vai levar a uma redução drástica do plantio do fumo, e que procuraram a FAO para colaborar com uma estratégia de transição produtiva nas regiões, onde residem pequenos produtores de fumo.

Juvenal pergunta também para Duclair: Sabemos que a FAO trabalha para países, e que há países que tem maior poder que outros. Como trabalhamos quando países funcionam como representantes das empresas que contribuíram para a ampliação da oferta, não de alimentos, mas de mercadorias?

Clara Nichols responde dizendo que o novo coordenador da FAO, Graziano, abre as portas da entidade para falar sobre agroecologia. No entanto a questão é como a FAO interpreta a agroecologia. Este território da FAO deve ser conquistado. Há 30 anos ninguém queria falar de agroecologia na FAO, éramos chamados de loucos. Essa dualidade é institucional. A questão mais importante são as falsas soluções, como a questão do sequestro de carbono, quando se diz que se necessita sequestrar carbono de qualquer forma. Precisamos levar esse debate para dentro da FAO, de forma respeitosa, mas também dura e contundente.

Pergunta da Plenária: A questão da fome não é só produção, mas também a distribuição. Quando falamos de distribuição, também falamos de distribuição de apoio e financiamento. A FAO poderia influenciar mais os governos em termos de políticas públicas que apoiem a agroecologia?

Plenária: O semiárido vive um contexto de grandes investimentos, o que leva a expulsão de muitas pessoas de suas terras, sem nenhum tipo de compensação. Agora com a abertura da possibilidade de compra de terras por estrangeiros, podemos entrar em um contexto de acirramento das expulsões dos mais pobres de suas posses. A lei, apesar de se dizer por aí que é para todos, aqui nos parece que a lei é só para punir os pobres, e para proteger  os ricos.

Plenária: Gostaria de fazer uma pergunta para Clara sobre resiliência que é uma questão muito importante para quem trabalha diretamente com os agricultores. Nós, do Movimento da Soberania Popular na Mineração temos que trabalhar com uma noção ampla de resiliência territorial, nestas regiões afetadas pela mineração e vemos uma situação de quase barbárie.

Plenária: Quero seguir a linha de Clara sobre qual estratégia precisamos seguir é que as organizações governamentais são muito instáveis. Num congresso de restauração de ecossistemas, em Foz do Iguaçu -   vejo uma convergência dessas agendas -vejo ausência do enfoque agroecológico nas estratégias de restauração dos ecossistemas nos debates. Devemos avançar no diálogo e na reflexão entre estas duas agendas. Precisamos buscar a articulação destes campos do conhecimento.

Plenária: É muito interessante a questão da biodiversidade, como  a Clara apresentou. Nós também, quando chegamos num assentamento novo, a primeira coisa que fazemos é a plantio de árvores para melhorar a questão do conforto das famílias. Precisamos avançar na questão da agroecologia como prática produtiva e melhorar o diálogo entre a academia e os agricultores.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ginercina: Fez as suas considerações gerais dizendo que “não é fácil, mas que estamos firmes no processo de transição”.

Duclair: Agradeceu o convite em nome da FAO. O debate foi muito enriquecedor. Estamos entrando numa fase em que há uma análise crítica dos movimentos sociais sobre os valores da sociedade, tanto no campo quanto na cidade. Comentou que precisamos avaliar o que estamos plantando para colher mais na frente. Vejo que as conexões estão contribuindo para as mudanças que são necessárias.

Clara: Agradeceu o convite para participação de uma mesa tão linda. Acrescentou que esses programas de pequenos projetos são uma semente muito importante para se disseminar a agroecologia. Diz que é necessário incluir outras ciências no debate e que precisamos politizar outras ciências, pois muitos restauradores ecológicos querem preservar os passarinhos, mas não querem preservar os agricultores.

Isabel: Comentou ainda, que o novo código florestal brasileiro permite a restauração em propriedades familiares com sistemas agroflorestais que produzem também serviços ecossistêmicos e alimentos. Agradeceu a todos os participantes, comentou a importância da mesa que permitiu a análise de casos locais e as estratégias de articulação de programas em nível continentais.

Juvenal: Agradece também aos participantes e comenta a importância deste tipo de atividade para que saibamos que estamos juntos e estamos em um número significativo para a produção de mudanças. Diz que precisamos formar novos técnicos e os próprios agricultores estão virando técnicos, pois estão apresentando novas experiências.

Rubem Salas: Agradeceu o convite, disse que a mesa e o evento como um todo está sendo muito enriquecedor. Agradeceu a oportunidade de participar e praticar o compartilhamento de conhecimentos com os agricultores presentes.

Silvana: Por fim, encerra a mesa e agradece a todos os participantes.

 

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Publicado por

junapolitano

Engenheira agrônoma, assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza no apoio a projetos ecossociais.

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