#AT20 – Encontro internacional de guardiões e guardiãs de sementes crioulas

Encuentro internacional de guardianes de semillas criollas

Dia 12 | 14h00 – 18h00 | PACARI  | #Agroecologia2017

Responsável(is): Javier Carrera (Equador); Flávia Londres (ANA); Gilberto Afonso Schneider (MPA); Irajá Ferreira Antunes (Embrapa Clima Temperado); Coordenadoras: Terezinha Dias (Embrapa) e Tadzia Maya (REGA).

Relato:

(Relatora: Luisa Corrêa)

A atividade se debruçou sobre a importância dos guardiões e guardiãs de sementes crioulas no contexto de preservação da agrobiodiversidade. O foco foi delinear ideias, experiências e estratégias para o fortalecimento dos guardiões e guardiãs de sementes. A fala dos seis participantes foi seguida de uma atividade chamada "Aquário", para que todos os participantes pudessem integrar a discussão delineada pela pergunta: Como podemos fortalecer nossa comunidade de guardiões e guardiãs de sementes? As estratégias e propostas foram discutidas e transformadas em produtos visuais ilustrados pelas imagens abaixo.

Javier Carrera: 

Javier Carrera, fundador da rede de Guardiões de Sementes do Equador e permacultor, iniciou sua fala indagando os participantes acerca da importância de se criar uma rede de guardiões de sementes crioulas. Sua ideia, inicialmente voltada a intenção de guardar sementes, se transformou em uma rede que abarca mais de 100 famílias guardiãs em todo o Equador e que trabalham a nível local através de associações e cooperativas voltadas à produção e preservação de sementes crioulas.

Javier também levantou um debate acerca da interação entre os camponeses guardiões de semente e a sociedade, trazendo como exemplo a iniciativa de comercializar variedades de arroz não convencionais ao invés de produzi-lo apenas para autoconsumo dos camponeses. O crescimento da demanda pelas variedades de arroz crioulo levantou novos problemas aos produtores e guardiões, como a criação de um mercado e especialmente como lidar com as tecnologias não adequadas à diversidade dos produtos. Resultado disso é que a diversidade crioula acaba por endossar experimentos e novas técnicas criadas coletivamente pelos guardiões e camponeses e a fortalecer alternativas práticas e reais que gerem autonomia para os camponeses.

Javier também destacou a luta dos guardiões contra o processo de certificação e de exclusividade de registro das sementes pelo Estado, que tendem a excluir os camponeses e a comprometer sua "autonomia autêntica" enquanto produtores e conhecedores das sementes crioulas. Frisou, ainda, que por mais que haja interesse de amplos segmentos em preservar as sementes simultaneamente às pesquisas acadêmicas, a preocupação de cuidar das sementes crioulas é central para os camponeses e guardiões, que devem ser valorizados nesse processo, muito embora a rede funcione a mais de 15 anos sem apoio ou financiamento algum.

Javier finalizou sua fala caracterizando os guardiões de sementes e as pessoas que se envolvem com a preservação das sementes crioulas como "pessoas que querem mudar o mundo" e que cuidar das sementes é desenhar nosso próprio destino.
Javier Carrera – Rede de Guardiões de Sementes do Equador
Red de Guardianes de Semillas
Gilberto Afonso Schneider:
 
Gilberto Afonso Schneider, integrante do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), expôs a experiência de resgate de sementes crioulas pelo movimento no Oeste Catarinense desde a década de 1990. O trabalho de resgate e cuidado com as sementes crioulas na região se originou de uma preocupação inicial acerca do desaparecimento das sementes após a Revolução Verde, em especial relacionada à vulnerabilidade dos agricultores que se endividaram comprando sementes industriais. Schneider apontou para a importância dos guardiões de sementes que resistiram a esse processo e frisou a importância das sementes crioulas não apenas como seres vivos, mas , como material histórico, como patrimônio que tem ancestralidade. Mais do que isso: salientou a agroecologia demanda necessariamente o controle das sementes e que os sistemas camponeses são inviáveis sem as sementes crioulas, fundamentais para a manutenção da agrobiodiversidade em um cenário em que a utilização das sementes modificadas vem acompanhada por pacotes químicos diversos que ameaçam a autonomia dos agricultores.

Isto posto, Schneider fez uma reflexão acerca da importância do resgate de conhecimentos tradicionais e aliá-los aos conhecimentos científicos e de questionar os instrumentos jurídicos que protegem as grandes indústrias e passam por cima das organizações de guardiões de sementes. Quais seriam, então, possíveis estratégias para a valorização e resgate dos guardiões e das sementes crioulas? Para isso, a ação do MPA no Oeste catarinense, segundo Schneider, se estrutura em três níveis: na unidade produtiva, incentivando todas as famílias camponesas a produzir e cuidar de suas sementes e encontros, feiras e trocas como forma de dificultar o desaparecimento de sementes na comunidade camponesa - segundo Schneider, é com os agricultores perderem variedades que podem resgatar nos encontros, bancos e trocas. A ação ainda se volta para a determinação de um guardião de sementes em cada unidade produtiva, "um agricultor diferenciado"  que assume o compromisso de manter e cuidar de pelo menos uma semente crioula, uma espécie de "adoção de um filho". O "certificado de adoção" de uma semente pela unidade produtiva visa, igualmente, valorizar aquela família enquanto guardiã daquela semente.

Outro nível de ação se volta para criação de formas diversas que possibilitem a disponibilidade das sementes tanto entre os agricultores como entre grupos diferenciados que se interessam em dispor das sementes crioulas, como um público urbano que planta em pequenos espaços e não tem conhecimento e tempo para produzir as sementes em casa. A criação de bancos e casas de sementes viram espaços, portanto, também de abastecimento de grupos diversos, além de se transformarem em casas de informação onde se dispõe de planilhas e apoio técnico. O terceiro nível  de atuação do MPA se originou das festas de sementes e pela luta pelos programas de comercialização, com vistas a atuar em nível macro e a comercializar sementes em largas escalas com o intuito de distribui-las em locais onde não há presença de sementes crioulas. Schneider frisou a importância desse tipo de ação para a agroecologia e para a autonomia dos camponeses, colocando as sementes como ponto fundamental de atuação.


Terezinha Dias:

Terezinha Dias trabalha há cerca de 40 anos com pesquisa voltada ao cuidado de sementes crioulas e na articulação entre a Embrapa e comunidades indígenas. Iniciou sua fala apontando como ideia central a "ampliação do conceito de guardião e guardiã de sementes", como forma de incluir nesse grupo todos aqueles que se preocupam e trabalham com a preservação das sementes, como pesquisadores e técnicos. Terezinha frisou a importância da criação e da  manutenção de um germoplasma que seja público. Segundo ela, a aproximação desse sistema de coletas e bancos dos cuidadores de sementes é uma ação fundamental de preservação e reintrodução de sementes perdidas em diversos locais. Um exemplo disso foi à articulação entre a Embrapa e a FUNAI com o objetivo de entregar sementes crioulas perdidas em comunidades indígenas, aproximando o sistema de conservação público das comunidades tradicionais. Para isso a pesquisadora apontou que deve haver uma articulação entre a conservação local com uma rede de troca e preservação maior, o que chamou de "integração de estratégias on farm com bancos de sementes". Apontou ainda para a importância da organização frequente de feiras da agrobiodiversidade e troca de sementes, além de ações que  reconheçam os guardiões e a criação de protocolos comunitários de uso da biodiversidade. Muitas dessas ações foram ilustradas por exemplos reais de atuação da Embrapa, de forma a evidenciar a importância dos pesquisadores de sistemas públicos de conservação de sementes. Como apontou Terezinha, o material crioulo conservado em locais públicos, em muitos casos, foi reintroduzido em comunidades sem contaminação por transgênicos. Muitas vezes materiais perdidos pela comunidade puderam ser resgatados em articulação com os sistemas de preservação público.

Irajá Ferreira Antunes:

"O que é ser um melhorista de plantas?", questionou-se Irajá Ferreira Antunes, pesquisador da Embrapa. No contexto da década de 1960, Irajá apontou que o melhoramento de sementes visava, em especial, produzir em larga escala para "encher barriga de pobre" e servir aos princípios produtivistas da Revolução Verde, em que a questão da qualidade se sobrepujou a questão da quantidade. Trazendo esse questionamento para os dias atuais e para o contexto de discussão acerca da importância das sementes crioulas, o pesquisador frisou que "todo ser vivo tem um princípio de sobreviver porque ele é parte de uma espécie de que ter estratégias de sobrevivência", e que buscar a sobrevivência das plantas é buscar a sobrevivência do próprio Homem. Apontou, ainda, que cada ser tem uma habilidade específica para uma determinada atividade, e que um guardião tem a vocação de cuidar das sementes, sendo assim uma figura central para frear o processo de erosão genética.

Irajá destacou a ampla variedade como uma característica central das sementes crioulas. Considera que a variedade genética é fundamental para o processo evolutivo, ao contrário da uniformização, que gera permanente vulnerabilidade para a sobrevivência. De acordo com ele,  as sementes crioulas e seus guardiões representam, portanto, a própria variedade genética. Irajá afirma que "deve-se te um olhar cuidado em torno dos guardiões, que em muitos casos se encontram frágeis e vulneráveis, de forma a protegê-los e fortalecê-los através não apenas da coletividade e criação de associações de guardiões, mas incentivando também a formação de "guardiões mirins" e criando certificados para os guardiões de sementes de forma a serem valorizados pela comunidade e pela sociedade". Por fim, Irajá frisou que a semente crioula, diferentemente da semente de germoplasma, tem uma história e cultura, e que a manutenção da biodiversidade não pode ocorrer apenas com a preservação em bancos de sementes, mas sim distribuindo as sementes para os agricultores, de forma a diminuir a vulnerabilidade genética, alimentar e de renda.

Tadzia Maya:

Tadzia Maya, integrante do REGA (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil) mostrou inicialmente em sua fala uma preocupação específica com a formação de uma rede horizontal e descentralizada focada na figura dos guardiões e guardiãs de sementes de forma a a garantir seus locais enquanto sujeitos. Frisou que a criação de uma rede de guardiões é uma rede de pessoas e não de instituições e que, portanto, se baseia em ações práticas e cotidianas dos guardiões. Tadzia, assim, enfatizou a importância dos espaços de debates e dos encontros, como o Congresso Latino Americano de Agroecologia, para se refletir coletivamente sobre a construção do futuro dos guardiões e guardiãs de sementes crioulas.

Chamou atenção, ainda, para a questão da terra: "em quais terras esses guardiões trabalham e vivem?" e como os conflitos fundiários e outras diversas dificuldades afetam suas vidas, trazendo uma reflexão em torno de uma questão ligada a impossibilidade de garantia da terra dos guardiões. A conservação do território, para Tadzia, é um elemento fundamental para a continuidade do trabalho dos guardiões, o que envolve discutir estratégias legais que se voltem para a permanência de sua existência e seu trabalho. Da mesma forma, frisou a importância de garantia à comercialização de sementes como instrumento gerador de renda para os agricultores e agricultoras e de pulverização e circulação das sementes crioulas simultaneamente a um reconhecimento dos guardiões e guardiãs com pesquisadores e investigadores enquanto estratégias  de fortalecimento e valorização de guardiões.
Tadzia Maya – REGA
Ao final Tadzia , compartilhou sua fala com dois integrantes do coletivo Ciclovida (Ceará), que expuseram rapidamente suas experiências de busca e resgate de sementes no sertão do Ceará e a integração de sua ação à luta pela água como elemento central de preservação das sementes crioulas,  que se concretizou pela criação de uma estrutura de cisternas que permitiu que o grupo preservasse sementes crioulas na região e que foram expostas fisicamente ao longo de sua fala.
Guardiã e Guardião de Sementes – Ciclovida (Ceará)
Flávia Londres:

Flávia Londres começou o encontro questionando: “Por que as sementes crioulas resistem, mesmo após o cenário longo de erosão genética fomentada pela Revolução Verde?”.

Essa foi a pergunta inicial de Flávia Londres no encontro. A lei de sementes da década de 1960 não apenas considerou ilegais as sementes crioulas como induziu seu desaparecimento ao considerar sementes apenas aquelas que sofreram melhoramento genético pela ciência agronômica. A assistência técnica, os programas de distribuição de sementes, a propaganda e as políticas de crédito desvalorizaram amplamente as sementes crioulas nas últimas décadas. Mas, por que elas resistem? Questionou.

E frisou como elemento central a forte relação das sementes crioulas com a cultura e identidade dos povos e comunidades, sua ampla adaptabilidade e resistência frente às condições biológicas, sua relação direta com a condição de autonomia dos agricultores e, em especial, a articulação e trabalho em rede voltado à preservação de sementes. Disse ainda que o avanço das políticas públicas e a movimentação social em torno da defesa das sementes crioulas nos governos passados gerou pressão para que as sementes crioulas voltassem a ser valorizadas no atual contexto. A Lei de sementes de 2003, que reconhece as sementes crioulas como sementes, não exige seu registro, e permite sua livre circulação e troca entre agricultores - em redes, associações e cooperativas - evidencia essa conquista em torno da valorização das sementes crioulas, conclui.

De acordo com Flávia, a consequência positiva desse cenário foi: a criação do PAA sementes, que fortaleceu trabalhos locais e regionais voltados à produção e preservação de sementes crioulas; os programas de distribuição de sementes varietais pelo governo anterior; a inclusão, na Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, de ações voltadas para a preservação de sementes; a criação de uma subcomissão temática e a criação do Programa Sementes do Semiárido, voltada para a criação e estruturação de bancos de sementes.

Ao final, considerou que, apesar dos avanços para a garantia da resistência de articulações e redes voltadas à preservação das sementes crioulas, esse conjunto de ações encontra sua continuidade ameaçada no atual governo. “O atual cenário político de retrocessos demanda uma postura de resistência e uma maior articulação das redes no sentido de manter minimamente as conquistas dos últimos anos”.
Flávia Londres (ANA)
Atividade

Paulo Passos, biólogo, e Valéria Porto, engenheira agrônoma e mestranda da UNB, da equipe de mobilização do Congresso, organizaram uma dinâmica de discussão conhecida como “Aquário”, onde uma pergunta problematizadora é lançada para o público, organizado em uma roda. Seis cadeiras são colocadas no centro do grupo e quem se disponibilizar a contribuir para o debate pode ocupá-las temporariamente e falar ao microfone. Enquanto isso, quem permanece no círculo externo pode participar escrevendo propostas de ações em tarjetas, que serão expostas posteriormente.

A pergunta discutida foi: Como podemos fortalecer nossa comunidade de guardiões e guardiãs de sementes?

Depois de uma conversa produtiva sobre a questão, três propostas foram apresentadas: 

    - um encontro nacional de guardiões de sementes; 

    - uma forma de identificação;

    - certificado para guardiões e guardiãs e

    - a construção de bancos de sementes. 

As ideias foram debatidas por três grupos distintos de pessoas e transformadas em produtos expressos em tarjetas e colados em um mural. As proposições têm, necessariamente, um grupo de pessoas que deve executá-las, em um prazo definido.

As imagens abaixo ilustram os produtos do debate e as estratégias delineadas pelos grupos.

Relatores: Luisa Corrêa e Bernardo Oliveira

Fotos da atividade:

Facilitação Gráfica:

Notíciashttps://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/27030096/evento-reune-guardioes-de-sementes-crioulas-do-brasil-e-america-latina

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Publicado por

Luisa_correa

Sou Luisa, economista e mestra pelo Programa de Pós Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (FUP - UnB Planaltina), onde trabalhei com Segurança Alimentar e abastecimento.

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