#AT26 – Painel I – Sem Feminismo não há Agroecologia

Panel I – Sin Feminismo no hay Agroecología

Dia 13 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Emma Siliprandi (GT Mujeres, Agroecologia y Economia Solidária de CLACSO – Espanha); Sylvia Vidal (AMA-AWA); Sarah Luiza da Marcha Mundial das Mulheres; Larissa Henrique Nunes (REGA); Maria José Morais Costa  (Secretaria de Mulheres da Contag); Maria do Socorro Santana (representante das quebradeiras de coco – MA- PI- PA); Rosangela Piovizani (MMC-DF); Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE); Elisabeth Cardoso (CTA-ZM e GT de Mulheres da ANA) . Coordenadora: Laetícia Jalil (ABA)

Relato

Mística de abertura:

Apresentação da peça “Bendita dica” Companhia Burlesca;


Laetícia Medeiros Jalil - GT de gênero da ABA

Comunicou o ato que houve pela manhã, no Auditório Babaçu, a #AT27 Painel II – Memória da Agroecologia, em que mulheres se mobilizaram para fazer uma intervenção na atividade em que só havia homens brancos falando sobre a memória da agroecologia, sem representatividade de mulheres, da juventude, de grupos indígenas e quilombolas. As mulheres se dispuseram a fazer moção de repúdio à mesa branca, racista e machista, patriarcal e heterossexual, pela manhã.

Emma Siliprandi (GT - Mulheres agroecologia y economia solidaria de CLACSO - Espanha)

A palestrante começa sua fala pontuando a presença das mulheres em todas as áreas vinculadas à agroecologia: produção agrícola, comercialização, transmissão de conhecimentos, criação de animais, agroextrativismo, pesquisadoras, pecuária etc. Contudo, devido às atribuições de gênero na sociedade, as mulheres são invisibilizadas e têm que fazer um maior esforço para serem vistas, ouvidas, contempladas. Mesmo nessa condição, a maneira diferenciada pela estrutura de gênero com que as mulheres olham a terra, cuidam da terra, está em consonância com a diversidade, que é um princípio fundamental da agroecologia. Por que sem feminismo não há agroecologia? Porque o feminismo é nossa ferramenta teórica, que ajuda a entender como aceitamos determinadas inferioridades, e a entender a forma diferenciada com que a opressão generalizada se manifesta em diversas culturas. Um movimento agroecológico que não tem a visão feminista é incompleto.

Sylvia Papuccio de Vidal da AMA-AWA

Sylvia inicia sua fala pontuando o feminismo como uma corrente teórica e plural dos movimentos sociais, destacando o ecofeminismo como um projeto macro. Sempre que se fala em determinadas “atividades das mulheres” dentro da agroecologia, como buscar água, lenha, produção de alimentos, se está falando em feminismo. Em sua fala, sintetiza que existe uma semelhança entre projetos de dominação do capitalismo e das mulheres: a violência globalizada, a produção extrativista, o trabalho grátis e a degradação ambiental se convertem em questões feministas que nos ajudam a compreender os vínculos que existem entre a dominação delas e da natureza, pois o capitalismo precisa dessa estrutura para se manter. O feminismo não é visto como problemas entre os homens, e sim como problemas entre os homens e as mulheres. Enquanto a masculinidade é colocada como força, ação e determinação, os homens estão expostos a situações constantes de impotência, falta de emprego, precariedade, desarranjos comunitários, familiares, escassez de recursos, e não tem acesso a diversas formas de vida. Por isso, devemos combater a pedagogia da crueldade e substituí-la pela pedagogia do cuidado. Nesse ponto, afirmou Silvia, as mulheres têm muito para contribuir com a humanidade, a natureza, e uma vivência sustentável. É necessária uma discriminação positiva; incluir as mulheres nas práticas produtivas, comerciais. Já se sabe que são muitas, que fazem, estão em todas as áreas. As políticas agroecológicas devem incluir as demandas dos feminismos. O feminismo que reclama a agroecologia latino-americana não é um feminismo radicalizado, mas um feminismo que reconhece a violência entre mulheres e a natureza.

Sarah Luiza - Marcha Mundial das Mulheres

A palestrante inicia sua fala pontuando que a pactuação entre as lutas do feminismo e da agroecologia partem das experiências das mulheres nos seus lugares e territórios, mas também estão conectadas com análises anticapitalistas, antirracistas e antilesbofóbicas. Segue falando sobre como o capitalismo – crise e reestruturação, e novos mecanismos de controle sobre nossos corpos e territórios tem sido utilizados com o aumento de diferentes formas de violência e controle. Disse ainda que um deles foi um Golpe de estado que vários países estão vivendo, inclusive no Brasil – um grito de “FORA TEMER” surge na plateia. Diz ainda que as mulheres precisam ser ouvidas, ser reconhecida a contribuição para a história e a memória da agroecologia, para um mundo melhor, mais justo e mais igualitário. Luiza afirmou que não podemos admitir violência contra mulheres em lugar nenhum, é necessário haver um enfoque sistêmico de verdade, precisa-se considerar as dimensões ecológica, politica, ética, e não se pode acreditar nas estruturas estruturadas em bases desiguais de poder. A agroecologia não pode ameaçar a produção das mulheres quando elas saem para participar da política, estas não podem ser ameaçadas quando saem de casa para estudar, pensar, refletir, atuar, “não podem dar menos importância para o que falamos, pensamos”, não se pode aceitar que elas comam menos porque é esperado que elas cuidem dos outros e pensem menos nelas que nas famílias, a agroecologia precisa ver e ouvir todas as pessoas, ver e ouvir todas as mulheres; Por isso que SEM FEMINISMO, NÃO HÁ AGROECOLOGIA!

Finaliza convocando o público a cantar uma música:

“No batuque do tambor, a revolta social,

nós somos as mulheres da marcha mundial,

contra a pobreza e opressão do patriarcalismo patriarcal,

nós vamos provocar uma revolução mundial

Ê mulheres, mulheres, mulheres libertárias, ê mulheres feministas, revolucionárias”

Larissa Henrique Nunes da Rede do Grupos de Agroecologia (REGA - Rede dos Grupos de Agroecologia do Brasil):

Larissa começa relatando o espaço da REGA como um espaço de princípios da luta agroecológica (autogestão, autosoberania, anticapitalista) e, rememora o encontro que foi realizado ontem pelas mulheres do grupo. Tem a visão de que, se não houvesse feminismo dentro da agroecologia, esta seria um espaço ficcional, pontuando que a agroecologia é indissociável entre agroecologia, feminismo e a luta anticapitalista. Disse que se sem feminismo não há agroecologia, que é necessário entender as mulheres que compõem a agroecologia: estudantes, trabalhadoras, mulheres jovens e experientes, de todas as regiões do Brasil, a diversidade étnica, de classe. Larissa pergunta: Para fazer essa visão justa a todas as mulheres, pensamos o que a juventude e todas as mulheres precisam, tanto na esfera pessoal quanto na esfera coletiva? Pontua ainda a contribuição de mulheres negras na roda de conversa, para a fala e para não se construir a agroecologia como uma pauta universitária e branca. Para sair do ambiente ficcional de autogestão e autosoberania, diz ser necessário pensar a formação dos homens e das mulheres, a relação entre mulheres brancas, mulheres negras e mulheres indígenas, e toda essa estrutura é ignorada quando a gente fala em legitimar a fala das mulheres em um mesmo espaço. E a partir dessa real autogestão e autosoberania, levar essa prática para fora, para os ambientes institucionais.

Maria José Morais Costa da Secretaria de Mulheres da Contag:

A palestrante começa sua fala a partir da sua trajetória pessoal como testemunho da história da agroecologia: desde muito cedo começou a trabalhar como agricultora familiar, no interior do estado do Piauí, demorou para entender o papel da mulher como agricultora familiar e na agroecologia; não eram reconhecidas (mães, irmãs) e nem valorizadas. Quando muito, eram vistas como ajuda; a participação era na produção; na comercialização pouco participavam, mesmo sendo responsáveis pelas atividades dos produtos que geravam a renda. Nos sindicatos e associações não eram proibidas, mas também não eram incentivadas a trabalhar nessas instâncias. Maria José diz que sua experiência enquanto mulher mostra que são as mulheres que contribuem para os avanços da tecnologia, são as mulheres que são as defensoras e guardiãs da biodiversidade e as responsáveis pelas ervas medicinais. Acredita que a fala em feminismo e agroecologia passa sem dúvida por fortalecer a organização entre mulheres e visibilizar as contribuições individuais e coletivas. Há necessidade de manter as políticas públicas que as mulheres conquistaram e que estão sendo arrancadas, como pelo ministério do MDA, a própria SPM, reforma da previdência etc. Nessa hora, o público aplaude calorosamente o comentário de Mazé. Ela continua: “nessa escalada da retirada de direitos, não podemos recuar, temos que continuar firmes na luta, qual projeto de Brasil queremos? Todos esses golpes que têm acontecido, têm afetado diretamente a classe trabalhadora, sobretudo, nós mulheres trabalhadoras rurais, indígenas, quilombolas, que estão sofrendo tudo, esse desmonte que tem sido arrancado de nós; nem por isso estamos recuando, mas temos cada vez mais afirmado qual é o Brasil que queremos com agroecologia, com feminismo”

Maria do Socorro Santana – representante das quebradeiras de coco - MA- PI- PA

Inicia a fala com: “Nós somos as protagonistas da agroecologia de verdade! Somos nós que plantamos, conservamos e aguamos para ter o bem-viver, nós que somos as donas dessas atividades comprovadas”, e fala que as mulheres são discriminadas justamente por isso. “Porque eu quero pé de caju e meu marido quer plantar capim”. Diz que o gênero feminino é o mais forte que existe! Enfrentam grandes dificuldade com a presença do capitalismo que devora tudo que as mulheres plantam, “nós precisamos do feminismo para manter a agroecologia, e a vida porque somos nós mulheres que somos a metade da população, mas também somos a mãe do restante da outra metade, não tem nenhum fazendeiro, parlamentar, nem um toma tudo, ninguém que nasceu de outro homem, então, nós somos orgulhosas, companheiras! ”. “Vamos conquistar nossos direitos de volta! De plantar, produzir e colher, queira, ou não queiram os governantes, a agroecologia sempre existiu e sempre vai existir no campo, nas florestas, nas águas, por mulheres fortes que somos nós.”

Rosângela Piovizani – Movimento de Mulheres Camponesas (MCC)

A palestrante começa sua fala com uma saudação às mulheres, que mesmo em uma conjuntura e contexto de retrocessos, têm a capacidade de se unir, reunir e fazer luta. Acredita que é inconcebível um projeto de agroecologia que dialogue com agronegócio, chacina, violência doméstica, trabalho escravo ou qualquer forma de violência. Rosângela diz que foram as mulheres camponesas que introduziram a agricultura, que plantam as ervas medicinais, que sabem cuidar das sementes, que fizeram as primeiras modificações nelas, e que tem uma relação muito íntima com a terra, a água e a natureza. Convoca as mulheres para a luta, fala dos alcances da luta feminista, mas diz que a agroecologia deve sair das experiências locais para avançar como um projeto macro por territórios que se construam com respeito. E diz que embora tenham havido avanços, os direitos foram tirados do povo e retrocessos sofridos com o Golpe, a luta tem que continuar. “A gente precisa avançar no diálogo com as companheiras, a sociedade, trabalhadoras e trabalhadores, porque no campo estamos sofrendo com os avanços dos venenos e dos agrotóxicos...”. Convida ao grito de ordem: “Quando uma mulher avança, o machismo retrocede! ”. O público, empolgado, adere ao grito.

Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE)

Inicia sua fala fazendo uma análise do espaço das mulheres na política. Pontua que no governo Lula e Dilma houve um espaço de construção das políticas públicas, trazendo muita unidade das mulheres e, que hoje em dia os espaços construídos são os espaços de luta por novos espaços, que estão sendo construídos no Brasil, principalmente no Nordeste. Pontua a necessidade de entender a dimensão do espaço da vida rural, no campo, e pergunta: “Como essa vida se dá?”. É uma vida que não se separa do meio-ambiente, a comunidade que não se separa do ambiente, que a cerca; é um espaço onde as mulheres estão relacionadas ao cuidado de tudo que as cerca; à vida como um todo. Portanto, afirmou Verônica, falar de agroecologia é falar de recuperar todos esses saberes trazidos pela ancestralidade, e que a indústria alimentícia vem roubando. Outra pauta é a ameaça à terra que se constitui como uma ameaça direta à vida das mulheres; são todas discussões que não se dão de forma separada. Falta entender a agroecologia como um projeto de sociedade, de vida, onde se deve reconhecer o protagonismo político das mulheres que participam de todas as etapas dos processos de produção do trabalho e que devem tomar os espaços políticos e de tomadas de decisões. A construção das políticas de agroecologia e produção de orgânicos de 2012 deve entender o 1º desafio – pensar o crédito para as mulheres dentro do rural; cotas para as mulheres para ter de fato as políticas para as mulheres. Finaliza a fala fazendo um convite para o 4º Encontro Nacional de Agroecologia em Belo Horizonte em julho de 2018.

Elisabeth Cardoso (CTA - ZM e GT de mulheres da ANA) - Síntese:

Elisabeth fechou a mesa com uma síntese da fala das mulheres; pontuou a representatividade Representantes dos movimentos sociais e associações que trabalham com agroecologia e registrou um fato importante dizendo o Congresso Brasileiro de Agroecologia trouxe pela primeira vez a faixa “Sem feminismo não há agroecologia”, que fizeram um documento com o que queriam dizer e que até o ano de 2017 não mudou muita coisa (ela faz referência ao ato que houve pela manhã na mesa sobre a memória da agroecologia). Elizabeth entende que o feminismo é uma teoria crítica, um olhar de marco interpretativo que pode dar visibilidade às marcas do relacionamento opressivo entre homens e mulheres. A crítica feminista denuncia uma série de fatos que acontecem no campo e desmistifica a agroecologia. As pessoas tendem a pensar que a agroecologia é amor, que é uma coisa perfeita. Em alusão à expressão da Luísa (representante da REGA), diz que o feminismo ensina a agroecologia a não ser uma “Agroecologia de confetes”. A agroecologia acontece dentro da sociedade – ela não visibiliza, ela não ouve, não dá espaço, desqualifica as mulheres e não é só na agroecologia que existe machismo. “Aonde está o trabalho invisível das mulheres? Onde as mulheres estão sendo excluídas da assistência técnica? Das políticas públicas? Se a agroecologia quer ser coerente em desenhar um agrossistema, ela tem que ser feminista sim! Sem a gente romper com as estruturas, com nossos companheiros machistas, a agroecologia não acontece. ”. Finaliza a fala dizendo que se o feminismo não adentra a agroecologia, a agroecologia não se torna profunda, não rompe com as estruturas de poder que busca lutar contra. “É o mesmo que pesquisar indígenas sem ir à aldeia”.

Foto da atividade:

Facilitação Gráfica:

Mais informações

Feminismo, Agroecologia e a luta das mulheres norteiam os debates do 2º dia o X Congresso de Agroecologia

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

CompartilheShare on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Publicado por

Juliana Caceres

Olá, Meu nome é Juliana, toco em uma orquestra de maracatu. No momento, estou trabalhando como autônoma e estou no processo de construção de um sonho coletivo que a Ecovila Conviver. Recentemente, me iniciei no plantio de ervas medicinais e na ginecologia autônoma. Muito feliz de poder fazer parte da equipe de voluntários. Axé!

2 comentários sobre “#AT26 – Painel I – Sem Feminismo não há Agroecologia”

  1. Mesa muito qualificada com mulheres de luta. A companheira Maria José, da Contag, bem destacou: a agroecologia e o feminismo apontam o rumo do Brasil que nós queremos! Sem violência contra a mulher, com alimentos saudáveis, com proteção dos saberes, com igualdade de gênero, reforma agrária, distribuição de renda!! Sem feminismo, não há agroecologia!

Deixe uma resposta