#AT27 – Painel II – Memória da Agroecologia

Panel II – Memoria de la Agroecología

Dia 13 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Manuel González de Molina (Universidad Pablo de Olavide – Espanha); Víctor Manuel Toledo (Universidad Nacional Autónoma de México); Jean Marc von der Weid (ASPTA); Coordenador: Miguel Altieri (SOCLA – Chile)

Arquivos:

Apresentação Manoel Gonzalez de Molina – Memorias de la Agroecología

Artigo Jean Marc von der Weid

Relato:

Miguel Altieri, coordenador da mesa, abriu o painel saudando a todos os presentes e justificando a ausência de Fernando Funes Aguilar, da Estacion Indio Hatuey, de Cuba, ausente devido às consequências do furacão Irma, e do professor Victor Manuel Toledo, da Universidad Nacional Autônoma de México, por problemas de saúde.

A dinâmica do painel consistiu na apresentação de cada palestrante, seguido por um debate com a plenária. As apresentações seguiram a orientação de apresentação do contexto, origem da agroecologia, desafios, conquistas e caminhos a seguir.

Para iniciar o painel, Miguel Altieri fez um resgate do processo de construção da agroecologia na América Latina desde a década de 70, quando ainda se utilizava o termo agricultura alternativa. Nesse período as reflexões giravam em torno da necessidade de se estudar práticas de produção agrícola que fossem um contraponto ao modelo agroindustrial preconizado pela Revolução Verde que levasse em consideração, não apenas os aspectos produtivos, mas também os sociais, culturais e ecológicos que envolviam os campesinos da América Latina.

Essa perspectiva mais abrangente não encontrava respaldo político e científico, já que no contexto da ditadura militar, presente em diversos países da América Latina, as políticas governamentais tinham como foco a busca por propostas técnicas e pacotes tecnológicos que pudessem aumentar a produção no campo. Nas universidades, a agroecologia também não existia enquanto ciência. A agroecologia entrou nas universidades por meio dos estudantes e alguns professores, que foram buscar junto às organizações da sociedade civil e às ONGs, experiências práticas que vinham sendo desenvolvidas nesse campo. As pontes criadas entre os movimentos campesinos, as ONGs e a universidade ao longo dos anos até os dias atuais foi o que permitiu que a agroecologia entrasse na agenda política e na academia.

A agroecologia está hoje presente em cursos de mestrado e doutorado das universidades, onde se procura dialogar e valorizar o conhecimento campesino. A agroecologia é hoje reconhecida como um caminho fundamental nos debates sobre segurança e soberania alimentar, assim como na pauta atual das mudanças climáticas. O reconhecimento e a conquista de espaços são hoje os grandes resultados desse processo.

Intervenção da plenária - Sem Feminismo não há agroecologia! Mulheres da plenária organizaram a intervenção para protestar pela ausência de mulheres na mesa. Falar das memórias da agroecologia sem falar de mulheres, é falar de apenas metade da história.

Após o término da fala de Altieri, Manuel González de Molina Navarro (Universidad Pablo de Olavide, Espanha), apresentou um relato do histórico da agroecologia na Espanha, mais especificamente na região da Andaluzia.

Na década de 80, num contexto de destruição do emprego causada pela industrialização da agricultura, concentração de terras e baixa qualidade de vida da população, emerge na região de Andalucía uma confluência de correntes de pensamento e ação, que envolvia o movimento campesino, o movimento ecologista pacifista e grupos universitários unidos em torno do Andalucismo Politico e da luta pela soberania. Esse movimento gerou resultados, influenciando uma lei sobre reforma agrária e uma politica de combate ao desemprego.

Com a entrada da Espanha na OTAN, a esquerda espanhola e o movimento pacifista utilizam a oportunidade para mobilizar a opinião pública sobre a importância do meio ambiente e da paz. Paralelamente, um grupo de pesquisadores, de composição interdisciplinar - sociólogos, economistas, historiadores, entre outros - se articulam em torno da reflexão sobre o futuro do meio rural de Andalucía, elaborando propostas, de natureza política e ecológica, para a superação do subdesenvolvimento do meio rural andaluz. Nesse cenário, em que mais informações e experiências sobre agricultura orgânica e ecológica eram necessárias, se estreitaram os laços de cooperação com a América Latina.

Em 1996, apareceu a primeira edição do mestrado em Agroecologia na Universidade de Andaluzia, que se tornou ponto de encontro de formação da primeira geração de agroecólogos da Espanha. Hoje um desafio posto à agroecologia é o alcance de uma escala mais ampla de produção e consumo. Outro desafio é a necessidade de incorporar a agroecologia na agenda política, criando assim mecanismos para esse ganho de escala.

Jaime Morales Hernandes - Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, México.

O México é um país de uma grande diversidade ecológica e cultural, centro de origem de diversas plantas cultivadas. Por outro lado, é um país de muito conflito rural, tendo sido um dos primeiros países afetados pela revolução verde e por uma série de medidas neoliberais.

Nesse contexto, a discussão sobre a agroecologia emerge dentre alguns pesquisadores da área de ciências agrarias, que buscavam alternativas ao modelo agroindustrial e que achavam importante que fossem considerados os aspectos culturais, sociais e políticos da agricultura praticada pelos povos indígenas e populações campesinas.

Os movimentos campesinos no México foram o ponto e partida de onde nascem as experiências práticas em agroecologia. A partir daí começam as articulações entre as universidades e os movimentos sociais em torno da agroecologia. O processo de incorporação da agroecologia enquanto ciência nas universidades foi longo e exigiu esforço de superação, já que todo o paradigma agronômico estava pautado nas premissas da revolução verde.

Como resultados desse processo hoje as universidades vem formando uma série de agricultores, professores e consumidores. Além disso, a associação do movimento agroecológico aos movimentos sociais urbanos vem trazendo grande visibilidade à pauta agroecológica, sensibilizando consumidores sobre o papel político do consumo e da produção de alimentos saudáveis. Como caminhos futuros, o palestrante apontou a necessidade de se ampliar o dialogo científico interdisciplinar, a articulação entre os movimentos sociais, o fortalecimento da agricultura urbana e peri-urbana, assim como desenvolvimento de estudos técnicos que permitam uma melhor manejo dos agroecossistemas.

Eric Holt Gimenez – Food First

O movimento campesino é mais antigo que o movimento agroecológico e está presente em diversos países. Na Guatemala, assim como em diversos outros países, a história do campesinato é marcada pela opressão social, cultural e racial. Nas regiões das ladeiras guatemaltecas, os campesinos encontravam-se relegados a terras marginais, pequenas e com alta declividade, as ladeiras. Nesse contexto opressor, os campesinos trabalhavam para as fazendas produtoras de banana, e suas pequenas propriedades estavam entrando num ciclo de degradação, com perda de vegetação e de solo.

Nessas condições, um perito agrônomo e mestiço, comprou uma parcela degradada e começou a trabalhar, quando se deu conta de que os fatores limitantes da produção eram solo e agua. Foi a partir daí que se iniciou o dialogo com os campesinos da região, buscando resgatar sementes e práticas da agricultura indígena local. Com esse aprendizado, começou a desenhar tecnologias e a produzir cada vez melhor, sem o uso dos pacotes tecnológicos, tão utilizados por fazendeiros da região. Os conhecimentos gerados eram então compartilhados com seus vizinhos indígenas, que começaram a experimentar essas tecnologias. Esse foi o inicio da metodologia campesino-campesino, que posteriormente foi ampliada e difundida. Nessa metodologia de intercâmbio, o foco não é a troca de informações, mas sim o compartilhamento da cultura, da sabedoria de cada um, que gera como resultado uma nova informação, um novo conhecimento.

No processo de construção do conhecimento, a participação das mulheres foi fundamental, haja vista que elas eram as donas do quintal e detinham todo o conhecimento do manejo das espécies alimentares e medicinais. Eram nesses espaços que elas faziam suas experimentações e onde estava a inovação campesina.

Com o fortalecimento da produção, os homens deixaram de trabalhar fora e, junto com as mulheres, passaram a produzir seu próprio alimento.  Foi quando criaram uma cooperativa de produção, que a cada ano crescia. O espaço da cooperativa se converteu num centro de encontro social, seus sócios chegavam a caminhar 3 horas por dia para participar das reuniões, estimulados pelo processo social que acontecia. Diversificando a produção, passaram a produzir um café de alta qualidade, rivalizando com os cafeicultores locais. O sucesso da cooperativa gerou disputas locais, o que levou a destruição da mesma por grupos opositores. Esse ataque mobilizou o grupo, que passou a se articular a nível regional, com campesinos de outros países da América Latina.

Esse é o relato da experiência da metodologia campesino-campesino, que nasce dessa fronteira da opressão. Foi nessa articulação com outros países que tiveram contato com o termo agroecologia, e então descobriram que estavam praticando era a agroecologia.

Jean Marc Van Der Weid (ASPTA) iniciou sua trajetória na agroecologia entre os anos de 81 e 82, quando elaborou, juntamente com a Pastoral da Terra, o Projeto de Tecnologias Alternativas – PTA. A ideia era escrever um projeto ambicioso, que atendesse a todo o campesinato do país e não apenas à uma comunidade. Hoje, após 35 anos de trajetória profissional, ele identifica o forte crescimento da pauta agroecólogica, sendo esse congresso um exemplo disso, ao mobilizar cerca de 5000 pessoas.

Na sua análise identifica que o resultado mais significativo é a inserção da agroecologia no centro da agenda política dos movimentos sociais, como instrumento para viabilizar o projeto de reforma agrária e de protagonismo dos agricultores na construção de alternativas à produção. A agroecologia é um campo do conhecimento e uma prática que serve de alternativa ao sistema capitalista do agronegócio, no entanto só poderá se consolidar como alternativa se tiver as condições políticas adequadas. Outro resultado relevante foi a articulação com outros setores da sociedade, como os consumidores, nutricionistas, ambientalistas, profissionais de ciências agrárias, sociólogos e economistas.

A agroecologia entrou no vocabulário político dos agricultores e consumidores não apenas por meio do discurso, mas principalmente pela prática. O desafio era dar escala a essas práticas e facilitar a transição agroecologica dos agricultores familiares, já que muitas dessas experiências aconteciam de forma lenta e pouco eficiente, demandando um número grande de técnicos para atender poucas famílias. Foi daí que eles começaram a desenvolver e a testar metodologias participativas e puderam dar escala a esse tipo de ação. A experiência da AS-PTA na Paraíba foi onde conseguiram os maiores avanços com o uso de metodologias participativas e  efetivamente aprenderam a aprender com os agricultores e com seus próprios erros.

Para dar escala ao trabalho, outra estratégia adotada pela AS-PTA foi o diálogo com o Estado para a construção de políticas públicas. Esse trabalho, que foi iniciado ainda no governo Fernando Henrique, se ganhou força no governo Lula, com a criação do CONDRAF. A experiência de participar dessa instância de construção de políticas politicas foi ao mesmo tempo rica e frustrante, pois conseguiram muitos avanços na construção da política de ATER, mas não conseguiram muito resultados na adequação da política e crédito para a agricultura familiar, o PRONAF.

Na construção da política de ATER conseguiram pautar melhorias nas chamadas públicas, mas a forma de contratação e execução dos projetos engessa as organizações e não favorece uma dinâmica social e a participação dos agricultores.

Hoje o contexto político está complicado e os poucos avanços que foram feitos podem ser liquidados, haja vista a própria extinção do Ministério de Desenvolvimento Agráfio - MDA. Para reverter ou frear isso é necessário um esforço de mobilização forte para retomar as pautas no âmbito politico.

Por fim, ele finalizou sua palestra informando que se desvinculou da AS-PTA em julho do corrente ano, uma vez que a organização passa por uma crise financeira e que ele, enquanto profissional que atua na área de influência de politicas públicas, fica sem espaço de atuação nesse contexto político desfavorável. Irá se dedicar agora a escrever sobre sua trajetória na construção de metodologias participativas e influência em políticas públicas.

Abertura de diálogo com a plenária 

Bloco de perguntas e manifestações:

1 - Pergunta - Como se dá a valorização e o lugar da mulher dentro desse processo de construção da agroecologia?

2 - Manifestação - Os movimentos devem definir a educação do campo como um dos caminhos mais relevantes para a defesa e a preservação da memória da agroecologia. Fizeram uma carta de defesa à manutenção do PRONERA;

3 - Manifestação - a AS-PTA foi referência para toda uma geração que vem hoje trabalhando com a agroecologia. A crise da AS-PTA nesse contexto político desfavorável é preocupante. Hoje após o golpe, ela se pergunta por que não conseguimos alavancar a metodologia campesino-campesino no governo Lula, quando o contexto era mais favorável. Com isso não estamos tendo resiliência para enfrentar a falta de recursos e outros obstáculos.

4 - Pergunta - Sobre a metodologia campesino-campesino, qual o papel da organizações mediadoras (ONGs) nesse processo?

Eric Holt Gimenez

A respeito da pergunta 1 - A mulher já abriu espaços na luta. Quando começaram a trabalhar com a metodologia campesino-campesino,  as mulheres foram convidadas a participar, mas de início tiveram muita dificuldade em achar espaço. Com a participação das mulheres puderam aprender coletivamente que a mulher detinha o conhecimento do manejo da saúde familiar, do quintal, das hortaliças. Aos poucos isso foi sendo aceito pelos homens. A participação das mulheres foi fundamental para mudar o movimento de dentro para fora.

Jean Marc Van Der Weid

A respeito da pergunta 1- A experiência da ASPTA demonstra o papel crucial das mulheres na agroecologia, tanto no movimento quanto na produção.

A respeito da pergunta 4 - A AS-PTA absorveu muita coisa da metodologia campesino a campesino. No Brasil, as organizações mediadoras (ONGs) tem um papel preponderante, mas eles sempre buscaram o protagonismo dos pólos sindicais e das associações, pois a ideia é que um dia não seja mais necessária a presença da mediadora no território.

 

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

CompartilheShare on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Publicado por

junapolitano

Engenheira agrônoma, assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza no apoio a projetos ecossociais.

2 comentários sobre “#AT27 – Painel II – Memória da Agroecologia”

  1. Participei deste momento com muito entusiasmo, atenta aos diversos elementos que foram trazidos como parte desta reflexão sobre a Memória da Agroecologia. Cheguei a tempo de acompanhar o relato do Movimento Camponês a Camponês que já nos enche de encanto. Uma fala me chamou a atenção: “Já fazíamos isso que se chama Agroecologia, só não sabíamos que era isso”. Pareceu-me, então, que a mesa tratava de uma história que não era apenas a oficial, de quando foi criada a “Logia”, mas de todo um conjunto de conhecimentos e saberes que, como dito no mesmo relato, é fruto não de intercambio, mas do compartilhar da cultura, da sabedoria de um povo, que a partir de seu reconhecimento gera a possibilidade da promoção de intercâmbios.
    Isto, porém, foi frustrado em ações e falas da coordenação da mesa, que me pareceu pouco agroecológica. Além de ter simplesmente cortado as falas inscritas pelo argumento do tempo, desvalorizou as primeiras falas realizadas, qualificando-as como “discursos” e pedindo que as pessoas passassem a fazer perguntas.
    Isso se agravou com a resposta a questão colocada por uma participante sobre a presença das mulheres. A resposta foi que havia o planejamento de uma mulher na mesa que não pode vir de Cuba, mas acrescentou que por outro lado, não era possível “mudar a história”, que tinha sido feita predominantemente por homens. A fala evidencia a grande contradição: para inserir as mulheres, só vale a história oficial, não vale os primórdios, inclusive apontados na mesa pelo palestrante de Cuba, quando afirmou que os primeiros laboratórios eram as áreas cuidadas pelas camponesas (os pátios). Já para engrandecer a “Logia”, consideramos as Tecnologias Alternativas, o Movimento Campesino a Campesino, entre outros.
    Lamento que considerações tão importantes feitas pelo público, e consideradas apenas discurso, não tenham sido percebidas pela mesa. Tais como: qual o lugar da educação do campo na memória? como a memória nos ajuda a lidar com o presente, de golpe, de limitação das políticas públicas? Ou mesmo, aquelas que ficaram por fazer: como construímos a memória da Agroecologia, apenas como Logia ou como prática, movimento e construção de sujeitos? Infelizmente não pude fazer a pergunta porque o tempo foi a prioridade. Acostumada a outras metodologias, uma outra AgroecoLogia, terminei ousando falar mesmo sem microfone, que esperava que a Agroecologia não fosse engolida pelo tempo. Porque a forma de lidar com o tempo também é um elemento disputado no sistema sociopolítico que estamos. E com os camponeses tenho aprendido que o tempo deve necessariamente se relacionar com a natureza, ou correremos o risco de fazer uma Agroecologia do tempo industrial, onde não teremos tempo para o Campesinato. Meu comentário em nenhum momento quer diminuir a importância deste momento no CBA, mas registrar, na Memória da Agroecologia, um outro olhar, de um outro lugar (feminino, nordestino, outsider…) que também, igualmente, da mesma forma, faz parte dela.
    @>–‘–

  2. Considero que essa mesa poderia ter sido construída com mãos femininas também, por entender que mulheres também fazem e articulam espaços agroecológicos.
    É necessário observar melhor o discurso de paridade não apenas como falácia, mas, como prática.

Deixe uma resposta