#AT33 – Agroecologia, agrobiodiversidade e valoração das funções ecossistêmicas

Agroecología, agrobiodiversidad y valoración de las funciones ecosistémicas

Dia 13 | 10h00 – 12h00 | AUDITÓRIO JATOBÁ | #Agroecologia2017

Responsável(is): Gloria Guzman Casado (Universidad Pablo de Olavide – Espanha); Santiago Sarandón (Universidad Nacional de La Plata – Argentina); Georgina Catacora (SOCLA – Bolivia); Coordenador: Walter Pengue (The Economics of Ecosystems and Biodiversity –TEEB / Intergov

Arquivos:

Apresentação de Gloria Guzman Casado

Apresentação de Santiago Sarandón

Relato:

Esta atividade contou com apresentações orais dos quatro convidados. Ao final, foi aberta a participação da plateia para comentários e perguntas. Abaixo, destacamos os principais pontos de cada etapa da atividade.

1ª apresentação, de Walter Pengue, com o tema "Agroecologia, agrobiodiversidade e valoração das funções ecossistêmicas":

- Afirma que a humanidade precisa dos recursos naturais para obter todos os bens que consome, os quais têm sua origem a partir do solo, água, biodiversidade e serviços ambientais.

- Problematiza os impactos negativos da agricultura industrial, como a expressiva perda de biodiversidade, mudanças climáticas e danos aos ciclos hidrológicos e de nutrientes, entre outros.

- Ressalta o drástico aumento populacional nos últimos séculos, com estimativas de alto crescimento para as próximas décadas, especialmente a parcela urbana.

- Constata que enquanto o modelo da economia marrom desconsidera os limites ambientais para o crescimento econômico, o da economia verde propõe um desacoplamento entre o aumento do bem-estar humano com a demanda de recursos e impactos ambientais (ver arquivo da apresentação).

- Afirma que a obesidade causa mais danos do que o cigarro e os conflitos armados.

- Afirma que os efeitos dos agroquímicos custam 167 bilhões de dólares por ano.

- Ressalta a importância de se pensar metabolicamente.

- Diz que há alta demanda por recursos de base.

- Aponta que os intangíveis ambientais - solo e água virtual - não são valorados economicamente.

- Diz que há terra arável disponível somente nos países em desenvolvimento.

- Defende a necessidade de se mudar a visão para reparar os danos ambientais.

- Aponta os fluxos visíveis e invisíveis da produção agrícola entre sistemas humanos, agroalimentares e ecossistêmicos.

- Defende o papel da Economia Ecológica para dar visibilidade e valoração aos serviços ecossistêmicos e da biodiversidade, negligenciados em outras abordagens econômicas tradicionais.

- Destaca a importância da participação dos campesinos e populações tradicionais

- Finaliza dizendo que é hora de agir para resolver os problemas socioambientais.


 


2ª Apresentação, de Gloria Guzman Casado, com o tema "Aplicação do Metabolismo Social Agrário à valoração das funções ecossistêmicas das variedades tradicionais".

- Diz que a investigação é muito útil para compreender, recuperar e manter os serviços ecossistêmicos que as propriedades podem prestar.

- Afirma que o metabolismo social agrário estuda fluxos de energia e materiais que constituem o funcionamento do agroecossistema. Estes fluxos devem satisfazer as necessidades da sociedade e também manter a qualidade dos elementos de fundo, como biodiversidade, solos e outros. Isso requer diminuir os insumos de origem fóssil e fortalecer os fluxos internos - leguminosas e reciclagem de resíduos.

- Destaca que o escopo do estudo é a comparação entre uma variedade tradicional e outra moderna de trigo em diferentes sistemas de manejo - tradicional (agroecológico) e moderno.

- Esclarece que variedades são consideradas componentes estruturais dos agroecossistemas pois modificam seu funcionamento, afetando os elementos fundo e consequentemente os serviços ecossistêmicos associados.

- Afirma que a variedade tradicional sob manejo tradicional apresentou produtividade de biomassa (palha, grãos e raiz) 53% maior. Mais palha permite incorporar mais biomassa ao solo, interessante em especial para regiões semiáridas.

- Aponta os serviços ecossistêmicos e benefícios da variedade tradicional de trigo sob manejo agroecológico em regiões semiáridas: maior aporte de proteína à sociedade; aumento do sequestro de carbono; melhora da fertilidade do solo com menores perdas de nitrogênio por lixiviação; levam à diminuição da biomassa de plantas espontâneas e ao aumento de sua diversidade.

3ª apresentação, de Santiago Sarandón, com o tema "Agrobiodiversidade, Agroecologia e Agricultura Sustentável. Valoração e importância em sistemas extensivos"

- Afirma que a agrobiodiversidade presta diversos serviços ecossistêmicos.

- "Sou engenheiro agrônomo e na faculdade nunca me contaram nada sobre biodiversidade", disse Santiago Sarandón.

- Mostra imagens de quando se busca na internet o termo 'biodiversidade' aparecem animais selvagens, plantas, insetos e flores. Logo em seguida, mostra imagens de quando se busca o termo 'sistemas agrícolas' aparecem grandes áreas de monoculturas (ver arquivo da apresentação).

- Afirma que há três níveis de biodiversidade: genética, de espécies e de ecossistemas.

- Considera a biodiversidade fundamental para a agricultura como provedora de recursos biológicos (genes) e serviços ecológicos.

- Resssalta que na conservação ex-situ de agrobiodiversidade (como os silos de sementes no Ártico), apenas genes são protegidos - ou seja, apenas um dos três níveis de biodiversidade.

- Constata que a agricultura é a atividade que mais impacta ecossistemas, já que metade dos ecossistemas terrestres são agroecossistemas.

- Diz que 90% da demanda por calorias no mundo é obtida pelo cultivo de 15 plantas.

- Aponta que dois terços da alimentação humana atual é provido por apenas três espécies: arroz, milho e trigo.

- Diz que há forte redução do número de variedades cultivadas. Grande quantidade de variedades de milho foram perdidas em apenas um século. Monocultivos simbolizam a uniformidade da agricultura moderna.

- Indica os níveis de agrobiodiversidade: espécies, lotes, propriedades e regiões.

- Apresenta os componentes da diversidade biológica agrícola ou agrobiodiversidade:
a. recursos genéticos para alimentação e agricultura
b. serviços ecológicos proporcionados
c. fatores abióticos
d. dimensões socioeconômicas e culturais.

- Constata que a biodiversidade parece ser a base ecológica de outro modelo de agricultura menos baseada em insumos.

- Afirma que apesar de seu conhecimento poder ser comum, científico ou teórico, sua aplicação é local, situada e empírica.

- Apresenta os serviços ecológicos que a agrobiodiversidade proporciona: ciclagem de nutrientes, regulação de pragas e doenças, polinização, manutenção e melhora da fauna e flora silvestres e os habitats locais em suas paisagens; manutenção do ciclo hidrológico; controle de erosão; regulação do clima e absorção do carbono. "Quantos engenheiros se preocupam com isso?", questionou Santiago Sarandón.

- Destaca as dimensões da diversidade biológica em um agroecossistema: genética, espécies, vertical, horizontal, estrutural, funcional, temporal - ressalta a relevância da diversidade funcional.

- Diz que há diferentes escalas para avaliar se um agroecossistema tem boa biodiversidade.

- Aponta as práticas para aumentar a biodiversidade na propriedade: manejo da biodiversidade cultivada (consórcios); ambientes seminaturais (reservas de biodiversidade).

- “Ao se analisar indicadores de agrobiodiversidade, não devemos nos prender aos números em si e sim à ideia, já que cada bioma e ecossistema apresenta um grau diferente de riqueza de espécies” afirma Santiago Sarandón.

- Afirma que o 'valor' da biodiversidade é intrínseco, utilitário, de opção, e funcional. Exemplo citado por Sarandón: um estudo sobre a relação entre a proporção de terreno sem cultivo de colza e rentabilidade mostrou que 32,7% do terreno deve ficar sem plantio pois a colza precisa de inseto para polinizar e dar semente. Logo, não vale a pena plantar em toda a área disponível.

- Defende que a biodiversidade tem que ser conservada in-situ para que mantenha suas funções ecológicas, diferentemente do que papel desempenhado por bancos de germoplasma.

- Conclui que: a biodiversidade é essencial para agricultura; a agricultura moderna gera um impacto negativo sobre a agrobiodiversidade e biodiversidade; é necessário detectar os principais componentes da agrobiodiversidade responsáveis pelas funções ecológicas e compreender os impactos que os diversos usos da terra têm sobre estes componentes; compreender que o valor da biodiversidade supera amplamente o preço de alguns de seus elementos.


 


4ª apresentação, de Georgina Catacora, com o tema "Agrobiodiversidade e sua valoração desde o aporte alimentar - análises de resultados e aspectos metodológicos":

- Aborda a dimensão mais social da agrobiodiversidade.

- Compreende que agrobiodiversidade é a diversidade biológica silvestre e domesticada relevantes para a alimentação e agricultura.

- Diz que há múltiplas funções da agrobiodiversidade.

- Aponta que a caracterização da agrobiodiversidade em diferentes sistemas de cultivo mostra que o agroecológico é o mais biodiverso nos parâmetros analisados.

- Estudo demonstra que quanto maior a agrobiodiversidade, maior a produtividade e a colheita de nutrientes (quantidade e diversidade).

- Resgata as definições de segurança alimentar ao longo do tempo: disponibilidade (década de 70); acesso físico e econômico (década de 80); acesso físico, social e econômico (década de 90).

- Destaca os componentes da segurança alimentar: disponibilidade, acesso, estabilidade e utilização.

- Afirma que o foco no 'acesso' das primeiras concepções de segurança alimentar levou à busca pela produtividade e especialização agrícola.

- Conclui que: os sistemas agrobiodiversos são mais eficientes em termos de produtividade e aporte de nutrientes; produtividade de cultivos é insuficiente para valoração adequada de sistemas produtivos a partir da perspectiva alimentar; o atual enfoque de segurança alimentar é limitado para valorar o aporte real dos sistemas agroecológicos.


 


Participação do público gerou as seguintes questões e comentários:

- Santiago Sarandón acrescenta que a agrobiodiversidade está muito ligada à cultura - e não somente ao físico e biológico. Destaca o conhecimento dos agricultores. Diz que quando os agricultores são perguntados sobre quais plantas possuem na propriedade, eles não mencionam as espécies que não são comercializadas.

- Plateia pergunta para Gloria Casado: como considerar escala temporal nas pesquisas? R: "Três anos é pouco para avaliar o fator tempo (...) mas agora fico motivada em buscar registros históricos para realizar este tipo de análise."

- Plateia pergunta para Santiago Sarandón: quais medidas de agrobiodiversidade são mais robustas? R: "É difícil agregar muitos indicadores e citou o PRB (potencial de regulación biótica), formado por 15 indicadores."

- Membro da plateia ressaltou a importância da defesa do território frente a modelos degradantes e destacou que boa parte de seu país está tomado pela mineração.

- Plateia pergunta para Georgina Catacora-Vargas: além da quantidade, foi estudada a qualidade nutricional dos alimentos na sua pesquisa? R: "Em segurança alimentar e nutricional há os seguintes aspectos: quantidade, diversidade e qualidade. Eles caminham juntos”. Cita um estudo sobre análise composicional de tomates agroecológicos e convencionais no qual constatou-se que os primeiros eram mais nutritivos. “Qualidade não é só nutriente, há também a questão dos resíduos, questões esotéricas e espirituais. Aprendi de uma chef de cozinha que a relação sentimental com o alimento e sua memória se dá pelo olfato. Ainda não estamos considerando os aromas e possíveis relações com valores culturais e emocionais. Sempre nos sentimos felizes ao sentir o cheiro e comer comida de vó. Há que se considerar o que está por trás do prato e como aquele alimento foi produzido." (Aplausos da plateia).

 -Giordano Viola, membro da plateia, pergunta para Gloria Casado: Como a variedade tradicional de trigo consegue colocar mais nutrientes no grão? Houve uma abordagem genética? Estudou-se qual enzima faz isso? R: "Não entramos no nível genético não por falta de relevância, mas por não ser prioridade da nossa pesquisa." O membro da plateia replica levantando a possibilidade da menor concentração de nutrientes no grão de trigo da variedade moderna ser proposital, como uma estratégia do mercado para obrigar as pessoas a consumirem mais. Ressalta ainda a importância da agroecologia em estudar isto mais a fundo.

Foto da atividade:

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Publicado por

diego_blum

Gestor Ambiental e mestrando em Agroecologia e Desenvolvimento Rural. Trabalha com Jardinagem Agroecológica e Permacultura e colabora com redes de apoio a agroecologia e questões socioambientais. Apreciador de agroflorestas e diversidade (agro)biológica e cultural com suas inúmeras formas de manifestação.

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