#AT4 – Conferência de Abertura – Agroecologia na Transformação dos Sistemas Agroalimentares na América Latina: Memórias, Saberes e Caminhos para o Bem Viver

Conferencia Magistral – Agroecología en la Transformación de los Sistemas Agroalimentarios en América Latina: Memorias, Saberes y Caminos para el Bien Vivir

Dia 12 | 10h30 – 11h30 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Jan Douwe van der Ploeg (Wageningen University – Holanda); Dona Djé (Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu); Augustin Infante (CET-Chile); Coordenadora: Irene Cardoso (ABA)

Relato:

A Conferência de Abertura do CBA começou com a moderação de Irene Cardoso, presidente da ABA (Associação Brasileira de Agroecologia), que propôs um formato diferente: uma conferência compartilhada. A discussão teve como pauta experiências bem sucedidas da utilização da Agroecologia no mundo.

O primeiro conferencista, o engenheiro agrônomo Jan Vander Ploeg, do Europe Wageningen University, na Holanda, enfatizou o aspecto multidimensional da Agroecologia. Segundo o professor, ela se dá nas redes, em diversos estados, países, continentes, está em todos os lugares e é multifuncional.

Auxiliado por um infográfico projetado em um telão, Ploeg fez uma comparação entre a produção agrícola agroecológica e a “tradicional”. Demonstrou-se, então, que o caminho ecológico produz ligeiramente menos, mas multiplica em algumas vezes o valor agregado dos produtos, beneficiando os produtores menores.

Além disso, o professor defendeu uma maior autonomia dos campesinos, que, através da Agroecologia, podem “produzir, sem destruir”. Deve-se, portanto, propor um modelo mais equilibrado, que supra as necessidades dos campesinos, ao mesmo tempo que contemple as dos consumidores. “Fazer a terra produzir não é fácil.”, explica. Ploeg afirmou que a Agroecologia fornece os caminhos para tal modelo e, simultaneamente, para a luta contra os sistemas de produção em larga escala, das grandes corporações.

Graças à falta de regulação estatal - situação fortalecida recentemente, devido ao modelo político neoliberal que se alastrou nas últimas décadas -, grandes empresas do ramo alimentício proliferaram e se fortaleceram, engolindo e diminuindo o número de unidades produtoras e empregos no meio rural.

Para o professor, a resistência deve acontecer não só nas praças, mas também  em hábitos simples, diários. Ele usou como exemplo algumas fotos de agricultores: um homem holandês com as mãos na terra, negando-se a utilizar agrotóxicos para manter sua autonomia; um grupo de camponeses utilizando fertilizante orgânico; uma mulher preparando seu próprio queijo de suas cabras, em vez de transferir a matéria prima para a indústria; uma feira apenas com orgânicos. Segundo Ploeg, são todos “atos de rebeldia”.

O professor explica que os considera assim por serem atividades descentralizadas e, quando várias do tipo surgem, por serem assim, viram uma força muito grande. Além disso, são aplicações diretas de direitos civis: o direito à alimentação e à produção de alimentos.

Ploeg contou, ainda, sobre atividades agroecológicas bem sucedidas de camponeses na Holanda, exemplificando-a com fotos. O professor terminou sua fala com o que vem sendo o hino do congresso: “sem feminismo não há Agroecologia.” 

Dando continuidade ao debate, o chileno Agustín Infante Lira, engenheiro agrônomo e presidente da SOCLA Capitulo Chileno, relatou experiências com Agroecologia em seu país de origem, trazendo “reflexões a partir de suas viagens”. O agrônomo se questionou, junto ao público, “como massificar a agroecologia?”, “como fortalecer os camponeses”, “como descobrir um modelo para qualificá-los nos princípios da Agroecologia?”.

Agustín contou de sua experiência com pequenas comunidades de agricultores Mapuches no Chile, que sofrem com uma “devastação ambiental de séculos”, resistindo à seca, frio fora de época, vulcões, tufões e uma desconfiança com o meio político naturalizada. Foram apresentadas fotografias de um ambiente devastado pela monocultura de trigo durante três séculos. O povo local é pressionado pelo Estado, que quer entregar as terras às grandes empresas. Apesar disso, segundo um diagnóstico realizado, há agroecologia e cultivo de orgânicos, principalmente organizados por mulheres, e o consumo desses alimentos vem se fortalecendo.

O agrônomo mostrou uma feira de troca de sementes entre um grupo de mulheres chilenas, que, recentemente, tem contado com um maior envolvimento de homens. A partir dessa organização, um agrossistema foi restaurado no lugar. A biodiversidade voltou, a produção aumentou e o manejo melhorou.

Agustín explicou, ainda, que as instituições que trabalham com essas iniciativas precisam de uma maior independência financeira e que isso vem acontecendo pouco a pouco. A fala foi encerrada com mais uma reflexão: “talvez possamos começar a mudar o mundo agora”.

A terceira conferencista, Dona Dijé, líder do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, começou sua fala trazendo a força de seus ancestrais para a plenária. Após agradecê-los e pedir licença, Zibé cumprimentou todos os povos tradicionais presentes e começou a contar um pouco da história do movimento de mulheres do qual faz parte. Segundo ela, a iniciativa surgiu por uma necessidade de luta das quebradeiras, que estavam começando a perder suas terras.

A agricultora contou que a tecnologia agroecológica já era usada por seus antepassados muito antes de ter esse nome. “Tudo veio da ancestralidade, do nosso povo, que já fazia Agroecologia, preservação.”. Para ela, o conhecimento acadêmico sobre o tema veio somar ao tradicional.

Zibé afirmou que cada membro do conselho carrega consigo uma afirmação: “Nós existimos. Somos um conselho de comunidades tradicionais.”. Segundo a agricultora, os direitos das quebradeiras estão sendo cortados, mas, mesmo assim, “conseguimos produzir para botar nas feiras, para dizer que nós também sabemos processar, sabemos fazer um produto de qualidade.”.

Uma frase poderosa fechou a conferência: “Sem terra, a gente não pode viver. Nossos mártires estão sendo assassinados por lutarem pela vida.”

Foto da atividade:

Notícias: 

https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/26841532/conferencia-de-abertura-do-congresso-de-agroecologia-destaca-experiencias-agroecologicas-para-o-bem-viver

http://agroecologia2017.com/pela-vida-na-terra-agroecologia-inicia-o-x-congresso-de-agroecologia-em-brasilia/

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2 comentários sobre “#AT4 – Conferência de Abertura – Agroecologia na Transformação dos Sistemas Agroalimentares na América Latina: Memórias, Saberes e Caminhos para o Bem Viver”

  1. Complementando: Outra fala interessante da Dona Dijé, líder do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu, foi que a agroecologia veio pra dar nome à tudo aquilo que as mulheres quebradeiras de coco babaçu já faziam, o que reforça o poder da agroecologia em re-significar e agregar movimentos, práticas e identidades.

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