#AT52 – A inteligência da floresta aplicada ao manejo de agroecossistemas: revoluções no campo e nas pessoas

La inteligencia del bosque aplicada al manejo de agroecosistemas: revoluciones en el campo y en las personas

Dia 13 | 14h00 – 17h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Ernst Götsch (Agenda Götsch); Namastê Messerschmidt (Projeto Agroflorestar); Kelli Cristine de Oliveira Mafort (MST); Walter Steenbock (ICMBio); José Cristóvão (Produtor Rural).  Mediadoras: Sofia Carvalho (ASPROSAFS) e Denise Amador (Mutirão Agroflorestal). Relatores: Diego Blum e Juliana Carceres

Continuaçao…. Acompanhe Ao VIVO a palestra do precursor da Agrofloresta no Brasil. Ernest Gostch no Congresso de Agroecologia 2017 em Brasília#agroflorestadofuturo #congressoagroecologia2017 #xcongressobrasileirodeagroecologia #agroecologia2017 #agriculturasintrópica #sintropiaagroflorestal #ErnestGostch

Posted by Agrofloresta do Futuro on Wednesday, September 13, 2017

Créditos do vídeo: Agrofloresta do Futuro

Arquivo: Apresentação Walter Steenbock 

Relato:

Auditório absolutamente lotado, pessoas ocupando até mesmo os corredores e laterais das escadas. Assim inicia a atividade, com as boas vindas das mediadoras, que falam sobre a importância do tema e passam a palavra para o primeiro palestrante.

Namastê Messerschmidt

Apresentou os projetos de agrofloresta que vêm sendo desenvolvidos em assentamentos da reforma agrária em São Paulo e no Paraná, como fruto do importante trabalho que Ernst Götsch desenvolveu no início. Apesar de não planejada previamente, iniciou-se uma parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que se consolidou de forma natural, afirmou.

De acordo com Namastê, foram implantados pequenos módulos agroflorestais para servir de modelo e funcionar como uma semente para então irradiar ao resto da área do lote. O desenho dos plantios foi inspirado no trabalho do Juã Pereira (Sítio Semente), com verduras, bananeiras e árvores. O palestrante ressaltou que tiveram bons resultados ao perceberem que “as famílias não têm mais agrofloresta – as propriedades se tornaram um organismo agroflorestal”.

Destacou que outro fator importante para o sucesso foi a forma de comercialização, citando como exemplo o caso do Assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto. Após um estudo do MST detectar que apenas 4% dos alimentos do município eram produzidos ali, buscaram trazer os consumidores como parceiros através do sistema de vendas de cestas. Cada consumidor paga uma taxa mensal e recebe uma cesta de alimentos frescos por semana, além de ter possibilidade de visitar os lotes onde os alimentos são cultivados. Passaram também a incluir nomes de árvores na descrição da lista de alimentos (alface-jequitibá, rabanete-gliricídia etc.), buscando conquistar clientes: se comprassem as verduras, ajudariam os agricultores a plantar árvores.

Namastê explicou que não há como determinar quanto se produz num Sistema Agroflorestal. A renda de cada lote com área de 800 m² variou de R$ 500 a R$ 8.000 num período de 6 meses. Para ilustrar isso citou um agricultor do projeto que disse: “uma agrofloresta tem a cara do seu dono”.

Ao final, o palestrante mencionou que o mais importante é empoderar as famílias para replicarem o modelo nos lotes e na vizinhança. Citou outro agricultor, o qual disse que a melhor coisa dos últimos anos foi o casamento do MST com a agrofloresta.


Kelli Mafort (MST)

A palestrante iniciou saudando todas e todos e expôs sua alegria em ver a mesa mediada por duas grandes mulheres. Disse ainda ver com satisfação o auditório cheio, o que demonstra que o tema deve ser multiplicado.

Antes de abordar agrofloresta em si, Kelli falou sobre a escassez e a abundância. Ela ressaltou que a abundância, a qual o ser humano vem buscando há muito tempo,  só pode ser alcançada numa condição de liberdade: “quando há subordinação, a capacidade máxima humana fica comprometida e não é exercida”. Mencionou a importância do processo de cooperação.

“Neste contexto de capacidades humanas restringidas e aprisionadas nas sociedades de classe, chegou-se num ponto em que o sistema está muito doente”, constata Keli. Ela denomina isto como crise sistêmica do capital – diferentemente do que seria uma crise econômica, na qual apenas se criam condições para o capital se recompor. “O que vivemos é algo bem mais profundo: uma crise estrutural sem controle, cujos efeitos são sentidos no próprio corpo”.

Em seguida, Kelli afirmou que a reforma agrária foi perdendo espaço no campo brasileiro, sendo aparentemente uma página virada da história brasileira. Entretanto, povos em luta trazem de volta esta página, afirma. Perceberam que a luta por reforma agrária não pode ser apenas distribuição da terra, apesar de sua importância para o desenvolvimento de qualquer país.

A palestrante citou que em 2014, por ocasião do 6º Congresso Nacional do MST, foi desenvolvido um novo conceito norteador: uma reforma agrária popular, que remete à organização dos trabalhadores sem-terra voltada à construção de espaços conquistados que constituam territórios, comunidades de resistência, onde produzam a própria vida, com uma nova forma de lidar com os bens naturais, sem machismo, sem LGBTfobia e sem analfabetismo (APLAUSOS DA PLATEIA).

Kelli continuou dizendo que nesta nova concepção seguem a luta pela reforma agrária popular. Mas foram ampliando a visão e entendimento de que esse fazer do campo era a mesma luta dos indígenas, dos quilombolas, dos pequenos produtores, das quebradeiras de coco e das demais comunidades tradicionais. Desta forma, afirma que o MST atualmente possui visão mais ampla, onde mobiliza diferentes sujeitos do campo com bandeiras distintas, mas que se encontram na mesma perspectiva de enfrentamento contra coisas que mantém esse sistema tão doente.

A palestrante disse que o casamento do MST com a agrofloresta se relaciona com esta visão da reforma agrária popular e que a agroecologia está há muito tempo no movimento, fomentando várias experiências neste sentido. A agrofloresta representa síntese teórica e filosófica do MST e a necessidade concreta das famílias quando se deparam com essa conquista.

Kelli disse que seu assentamento (Mário Lago - Ribeirão Preto - SP) inicialmente foi colocado na dita capital do agronegócio, com a cidade empurrando o campo para mais longe, após muito embate. Mencionou que diziam ter “conquistado uma derrota”, pois não seria possível viver plantando em 1,5 ha de terra. Alguns agricultores insistiram e acabaram cometendo erros plantando monoculturas e só então perceberam que não daria certo.

A palestrante contou que quando a agrofloresta chegou havia muita crise e desesperança. Vieram os amigos da agrofloresta (neste momento Keli pediu uma salva de palmas ao Ernst Götsch pois o MST é muito grato por sua contribuição). Kelli, ao descrever o que agrofloresta representa na vida das pessoas assentadas, destaca que das 120 mil famílias que estão acampadas e das 350 mil famílias ligadas ao MST, há cerca de mil pessoas diretamente envolvidas na rede de agrofloresta na reforma agrária popular. Ressaltou que a ideia é expandir cada vez mais “mesmo neste momento de diversos ataques por parte do governo, como a medida do presidente golpista de autorizar venda dos lotes de reforma agrária”, afirma Kelli (neste momento, plateia manifesta FORA TEMER).

A palestrante ressaltou ainda que nesse projeto de agroecologia e agrofloresta, é necessário envolvimento e compromisso não só dos consumidores, mas também de toda a sociedade. Acrescentou os benefícios do projeto: melhoria na alimentação do agricultor e de sua família, ganhos na saúde e nas questões sociais – voltaram a se animar, fazer festas, se organizar.

Kelli destacou dois sujeitos como essenciais: os jovens e as mulheres. Ressaltou a importância de experiências concretas na produção e principalmente na comercialização – com destaque para a participação das mulheres nesse sistema.

Finalizou pedindo mais apoio para que esse modelo contagie mais gente e consiga fazer essa semente germinar (momento de muitos aplausos da plateia).

 
Walter Steenbock (ICMBio)

Iniciou a fala dizendo que Marx previu que os empreendimentos familiares acabariam tanto no meio urbano quanto rural. “Contudo, a agricultura familiar no meio rural não acabou, pelo contrário, ela só cresceu”, ressalta, afirmando que maioria dos alimentos que comemos vem da agricultura familiar. Em seguida, mostrou os resultados do Projeto Agroflorestar. A pesquisa realizada pelo projeto priorizou a percepção sobre o que é uma boa agrofloresta em vez de resultados produtivos dos SAFs. As respostas foram múltiplas – uma boa agrofloresta é aquela que “tem cheiro de tatu, que tem terra fofa, que deixa a terra boa para o cultivo, que tem envolvida amor, carinho e afeto, aquelas que é um sistema de vida que aproxima a comunidade”. O pesquisador também avaliou dados quantitativos sobre o sistema: 1) índice de PH da terra com cobertura vegetal de capim seco (2013-2014) que passou de 4,73 CAcl2 para 6,27Cacl2; 2) quantidade de fósforo; 3) densidade média de espécies - cerca de 7.231/ha em uma agrofloresta e entre 3.000 e 4.000 em floresta nativa; 4) indivíduos da mesofauna - 10.781 indivíduos - lesmas, aranhas, etc., sendo que em uma floresta sem manejo a média é de 7500 indivíduos. Walter fez menção a outros dados que se encontram no material de apresentação disponível nesse blog. O palestrante ressaltou ainda a forte diminuição dos gastos das famílias agrofloresteiras com mercado. Citou o caso de um agricultor que, apesar de ter uma boa qualidade de alimentação, seria considerado miserável pelo censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) devido à baixa renda financeira.


José Cristóvão (Produtor Rural)

O palestrante iniciou sua fala com saudações a Ernst e mostrou pesquisa realizada na fazenda Monte Líbano, em Campinápolis, Mato Grosso, na mesma latitude de Brasília com condições de terra e clima semelhantes. Ele mostrou o problema da alimentação do gado nas pastagens no período de seca. O gado emagrece e as indústrias tentam supri-lo com insumos e rações, enquanto a própria natureza poderia contribuir para a solução desse problema, afirma. José mostrou como solução um experimento de cobertura de solo com capim em alternância com o eucalipto, o maracujá e a mucuna. O palestrante mencionou que agrofloresta não tem apenas apelo social e ecológico, mas também econômico, e declarou: “Se não quer agrofloresta pelo social nem pelo ecológico, faça pelo dinheiro pois proteger a natureza é lucrativo”.


Ernst Götsch (Agenda Göstch)

Ernst iniciou sua fala trazendo uma visão filosófica do ser humano enquanto uma espécie dentro de um macroorganismo. A partir de um verso de Lao Tse “As coisas não são para se fazer, elas estão sempre feitas” ele entende como mensagem fundamental que tudo que aparece tem uma função específica, serve a algo. “Nessa lógica, cada indivíduo de cada geração, de cada espécie vem equipado para sua função, equipados para comunicar-se com todos os outros; e eles fazem isso” defende Ernst. Disse que é irônico que o Homo sapiens tenha essa denominação e fundamentou com alguns dados. Em 76, quando chegou ao Brasil, terras nordestinas da caatinga e terras no Paraná produziam três colheitas anuais de milho ou de feijão. Hoje em dia, nenhuma terra no Brasil produz mais de três colheitas, afirma. “O ser humano é a única espécie que gasta dinheiro, cinquenta por cento dos seus esforços (polícias, legisladores) para matar seus irmãos. Não existe espécie com comportamento tão idiota” declara Ernst. Para ele, isso equivale a ser bactérias bucais e intestinais com comportamento desarmonioso e danoso em um macro-organismo. Com base nessas ideias, Ernst propõe duas inversões. Geralmente, a economia decide o que fazer com os ecossistemas e a tecnologia; ele propõe que o ecossistema saiba o que fazer com as tecnologias e a economia. E propõe que a filosofia (a ciência da sabedoria, em sua opinião) pense o ser humano e o que fazer com o social, a economia e a agricultura. Ele afirmou que essas áreas estão interligadas e no centro delas está o agricultor que deve ser o primeiro a ser consultado porque ele é o primeiro a saber se há algo errado. Ernst concluiu sua fala dizendo que o universo inteiro é baseado no amor incondicional e na cooperação e não na concorrência e na competição fria: “enquanto não entendermos isso, não teremos paz”. Para finalizar contou uma história a partir da mitologia grega: “ Os homens começaram um dia a pensar e fazer suas próprias leis, desobedecendo as leis universais. Então, começaram a brigar e Cronos, desceu do Olimpo no ímpeto de matá-los. Mas quando olhou os homens mudou de ideia. Deixou-os viver dizendo que o castigo do homem seria buscar sua outra parte sem poder encontrá-la: ‘as leis do macroorganismo cuja parte tu és são dadas, nem a nós, deuses do Olimpo, cabe fazer nossas leis’ ”. O palestrante agradeceu e pediu para “sermos úteis nos comportando bem e vivendo conforme as leis universais, meio pelo qual voltaremos a ser seres queridos pelo planeta Terra e assim voltaremos a viver no Paraíso”.


Participação da plateia 

Pergunta para Kelli: “Agrofloresta em larga escala resulta em trabalho assalariado? Isso pode colocar em risco a reforma agrária popular”? Kelli respondeu que quer colocar pimenta no assunto de larga escala. Busca-se pela agrofloresta nem sempre pensando somente no lote individual, mas em toda a área, afirma. Ressalta que se aprendem lições com a larga escala da Fazenda da Toca e do José Cristóvão. Declara que “sobre os direitos, medidas de antes e depois do golpe aceleram as coisas contra os territórios, o que se observa com o aumento dos assassinatos no campo pela questão agrária e ambiental”. Agrofloresta é também uma forma de contrapor esse modelo que chamam de agronegócio, conclui.

Pergunta para Ernst: “Nos pampas, que nunca foram floresta, e sim pastagens nativas, como praticar a agricultura sintrópica”? Ernst respondeu que a pergunta tem um erro – “os campos nativos também se originaram pelo homem, que tocava fogo para ter mais pasto para veados, assim como búfalos em outros locais da América. A medida que você tira o piromaníaco dos pampas, ali tende a voltar a ser floresta”. Ao comentar sobre eventual descaracterização de alguns ecossistemas (tais como o cerrado) devido à aplicação de seus princípios, Ernst disse: “onde trabalho descaracterizo o ambiente. O Saara vira savana, o cerrado vira floresta... essa é a única forma de sobreviver. ”

Pergunta para Ernst: Qual fonte de recursos seria correta do ponto de vista ético? Qual visão de mundo o levou a fazer parcerias com transnacionais? Ernst respondeu que não possui restrições para trabalhar para que as leis universais sejam atingidas. Disse ainda que todo mundo que faz uma coisa boa em favor da vida no planeta pode ajudar. “A divisão entre o bem e o mau, faz parte daquele grande problema que sofremos naquela parábola” afirma. Conclui que não existe bem e mal – existe função. Completou: “Olhe primeiro para você e depois tudo está bem feito”.

Pergunta para Ernst: em um Sistema Agroflorestal (SAF) sem animais em que frutas são retiradas constantemente, como recompor minerais? Ernst respondeu: “Não precisa ler livro para isso, só pensando mesmo. Como você pode se explicar que durante centenas e centenas de milhares de anos pode-se ter sistemas fortes em locais íngremes, com vento levando pra baixo, água, nutrientes lixiviados e mesmo assim sempre tem vegetais disponíveis? As coisas não estão para fazer - estão sendo feitas. O planeta não está errado...”

Pergunta para Ernst: “Como melhorar índice de sucesso de projetos de restauração ecológica e desenvolver ‘áreas de inclusão permanente’”? Resposta de Ernst: “Leis impositivas não funcionam, tem que ser incentivadoras e gratificantes para o agricultor. Agrofloresta é muito mais benéfica do que uma regeneração natural.”

Pergunta para Ernst: A concentração de terras não é um desrespeito às leis universais? Resposta de Ernst: “Toda sociedade que esgotou seus recursos passou pela fase de concentração de terras. Acho que a pergunta já está respondida.” (risos da plateia)

Fotos da atividade:

 

Facilitação gráfica:

 

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Publicado por

diego_blum

Gestor Ambiental e mestrando em Agroecologia e Desenvolvimento Rural. Trabalha com Jardinagem Agroecológica e Permacultura e colabora com redes de apoio a agroecologia e questões socioambientais. Apreciador de agroflorestas e diversidade (agro)biológica e cultural com suas inúmeras formas de manifestação.

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