#AT57 – Novas Biotecnologias I: riscos e ameaças

Nuevas Biotecnologías I: riesgos y amenazas

Dia 13 | 14h00 – 17h00 | GUEROBA | #Agroecologia2017

Responsável(is): Pablo Galeano (Redes – Uruguai); Maria José Guazelli (Rede TECLA); Coordenador: Leonardo Melgarejo – substituindo Rubens Nodari (UFSC)

Relato: 

Estiveram presentes cerca de 50 participantes, entre estrangeiros e brasileiros, na roda de conversa que tratou de riscos e ameaças de novas biotecnologias, coordenada por Leonardo Melgarejo. Pablo Galeano trouxe o tema “Novas Biotecnologias CBA (Nuevas Biotecnologías CBA)”, e Maria José Guazelli o tema “A Importância da Avaliação de  Novas Tecnologias e a Participação Social”.

Leonardo Melgarejo explicou inicialmente que nesta atividade seriam discutidos os processos de modificação e transformação da vida. Já no dia seguinte (#AT95) seriam abordados os impactos provenientes do uso das biotecnologias e outras tecnologias genéticas. Ele também destacou alguns elementos da apresentação de Rubens Nodari, que não pôde comparecer ao evento, ressaltou o papel da ciência na evolução dos transgênicos, questionou a liberdade comercial dos OGM's e chamou atenção ao fato de que há poucos  estudos sobre seus impactos. Opinou que quando ocorrem, estes estudos são realizados de forma limitada, ou seja, em condições otimizadas que não conseguem reproduzir a diversidade de situações em condições reais. Disse que no Brasil, por exemplo, ocorre apenas o acompanhamento ao longo de 5 anos. Após esse período, os organismos (produtos) são liberados. 

Leonardo afirmou que a cada ano as tecnologias geram novos problemas. Isto leva à criação de outras tecnologias com o intuito de resolver os problemas gerados pelas tecnologias anteriores. Finalizou sua fala dizendo que 40% dos estudos mostram que as empresas e instituições têm conflitos de interesses quanto a novas tecnologias. Passando em seguida a fala para o primeiro palestrante.

Pablo Galeano inicia sua palestra falando que, por trás das novas promessas do mercado da biotecnologia, existiam apenas interesses comerciais. Em seguida fez uma pergunta motivadora: “O que falamos quando falamos de novas biotecnologias”? E ele mesmo explicou que qualquer aplicação tecnológica que se use sistemas biológicos e organismos vivos, é biotecnologia, e citou como exemplo a biotecnologia moderna que utiliza técnicas com ácido nucleico e cultivos in vitro. Pablo afirmou que existem novos transgênicos (OGM’s) no mercado, disponíveis à população. Também de modo sucinto explicou o que é a cisgenia, o silenciamento de genes (IRNA), a edição genômica e os condutores genéticos, conhecido como Gene Drives.

Um exemplo citado foi sobre o combate à Malária, cujo foco é o mosquito transmissor da doença. Acredita-se que exterminando o mosquito erradicaria a doença, então foram criados mosquitos transgênicos machos que produzem descendentes inférteis para competir com os machos nativos e consequentemente, diminuir a população. Essa descoberta pode acelerar o desenvolvimento de condutores genéticos para suprimir as populações de mosquitos em níveis altos até chegarem ao extermínio da população. Opinou que, como não há estudo específico sobre a eficiência e os impactos dessa biotecnologia, é necessário estabelecer moratória/proibição na disseminação desses OGM’s. 

Pablo destacou que, ao se manipular determinados genes, impactos importantes em outras regiões do genoma e resultados inesperados podem ocorrer.  Quanto à biologia sintética, ressaltou que novos produtos e peças artificiais já estão sedo utilizados no mercado.

As promessas transgênicas se apresentam como uma proposta política ao pregar que é possível produzir mais e sem prejudicar o meio ambiente. O discurso é que a população cresce e é necessário produzir mais. Há nesta fala dos defensores da transgenia um apelo político “devido” e aceito pela maioria da população, dentre outros aspectos. Em todo caso, vê-se os processos de biotecnologia fugindo do rumo previsto, a exemplo da soja transgênica que já apresenta resistência ao glifosato. Na ocasião, o palestrante faz uma pergunta à plateia: “Quem precisa das novas biotecnologias? O que você responderia se lhe perguntar da necessidade da biotecnologia”? Ele mesmo respondeu: “A biotecnologia é importante para o acúmulo do capital. Ela não está solucionando o grande desafio da humanidade”. E exemplifica casos pontuais: “a Monsanto detém parte do controle biológico; e, a WWF diz que a biotecnologia vai ajudar a preservar o meio ambiente, mas não é dito que estão usando organismos geneticamente modificados”. Pablo termina sua apresentação destacando que essas novas biotecnologias estão sendo utilizadas no Uruguai. Contudo, há um grupo interdisciplinar da Universidade Nacional do Uruguai que tem promovido uma agenda de luta contrária e construindo um plano nacional de agroecologia. 

A segunda palestra foi proferida por Maria José Guazelli. Esta destacou a importância de se avaliar as novas tecnologias. Além disso, chamou atenção que devemos procurar entender o que vem ocorrendo nessa área. Segundo a palestrante, há uma avalanche de coisas novas que não compreendemos. Nesse sentido, explicou o que é a Nanotecnologia e as possibilidades de seus impactos em diferentes áreas da atividade humana, no meio ambiente e nos seres humanos. Na agricultura, esse tipo de tecnologia vem sendo utilizada na proteção de cultivos e no melhoramento de plantas. Alguns exemplos foram citados, como os nanoagrotóxicos, a película para prolongar a vida das frutas, a embalagem que pode ser comida, dentre outras. A palestrante também evidenciou que não há regulamentação nem no Brasil e nem no Mundo. Dentre as inúmeras preocupações, salientou que as nanos partículas (um nano possui um tamanho variando entre 1 a 100 nanômetros (nm)) são capazes de atravessar as barreiras do cérebro e da placenta.  Para esse tipo de tecnologia não existem estudos de impactos.

Quanto à Biologia Sintética, Guazelli explicou que ela programa e escreve o código genético e, utilizando-se de um ser vivo (uma bactéria, um fungo), faz modificações que reduzem ou eliminam características "indesejáveis" ou acrescentam características "desejáveis". A biologia sintética cria novos seres vivos para serem colocados no meio ambiente. Esse tipo de técnica de manipulação pode criar diferentes produtos que são quase idênticos àqueles de onde foi obtido o material genético, visando uma característica específica. Então, Guazelli perguntou: Qual o objetivo da biologia genética? Ela mesma respondeu: Gerar produtos de alto valor, dentre outros. Esses produtos são muitas vezes propagandeados ou vendidos como "naturais e sustentáveis". Para produtos mais caros, a biologia sintética se aproxima mais do que é o natural. Isso é interessante para mercados sofisticados. Novamente a palestrante questiona: E a regulamentação? 

Como exemplos de produtos modificados destacou os citros, a stévia e o leite. Para Guazelli, vem ocorrendo uma gradual tentativa de substituir os produtos naturais, advindo das atividades agrícolas, por produtos artificiais e manipulados. Estes são vendidos como saudáveis. Para a palestrante, o objetivo é ter produção sem precisar dos agricultores. Ela destaca que os agrotóxicos são um horror, mas que com o passar do tempo eles vão perdendo sua toxicidade. Contudo, as modificações genéticas têm um impacto muito maior no meio ambiente.

As questões mencionadas, dentre outras, serviram de inspiração para que a América Latina criasse a Red Tecla (Rede de Avaliação Social de Tecnologias na América Latina). Esta tem o objetivo de articular diferentes atores e parceiros, além de procurar verificar quais são as angústias e as ações que estão acontecendo por parte das organizações para pressionar a não liberação dessas tecnologias. Essa Rede, que é aberta a outras organizações, está estabelecida no Uruguai, e tem o e-mail de contato: contacto@redtecla.org.

Guazelli também questiona: tem gente estudando os impactos sociais, econômicos, ambientais dessas tecnologias?

O conjunto de informações que foi mostrado sobre essas novas tecnologias nos leva a pensar que estamos vivendo de forma alienada sobre o que está acontecendo. Atualmente muitos produtos alimentares que consumimos são produzidos a partir de materiais transgênicos (a exemplo dos doces e queijos) e não sabemos. Além do impacto na saúde, no caso dos agricultores é a retirada da autonomia deles. Assim, as funções de produzir alimentos, dentre outras, vêm sendo removidas, e isto pode desestruturar seu modo de vida. 

Ao final, a palestrante enfatiza que: “Não podemos desistir!! Lembrou que era difícil achar produtos agroecológicos há 30, 40 anos. Atualmente no RS, por exemplo, há feiras agroecológicas em muitos lugares”.

Foto da atividade:

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Publicado por

valbermatos

Engenheiro agrícola, graduado pela Universidade Federal da Paraíba (Campina Grande - 1996). Tem experiência nas áreas: Engenharia agrícola, com ênfase em analise e elaboração de projetos rurais, avaliação patrimonial de imóveis rurais e recuperação de solos; Perito, em processos de heranças e divisões de terras; Magistério, como professor de física e matemática, no ensino médio e fundamental II; Administração de Empresas, atuando como coordenador e gerente de programas federais; e, Ativismo ambiental e cultural. CV:http://lattes.cnpq.br/6106413125283558

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