#AT71 – Mulheres e agroecologia: avanços na economia feminista e solidária

Mujeres y agroecología: avances en la economía feminista y solidaria

Dia 14 | 10h00 – 12h00 | AUDITÓRIO PEQUI | #Agroecologia2017

Responsável(is): Aymara Llanque Zonta (AGRUCO – UMSS, Bolívia); Liber Soé Puro (Agricultora e representante da Amazônia Boliviana);  Alicia Sarmiento (Agricultura Grupo Vicente Guerrero – México). Mediadora: Juliana Merçon (Universidad Veracruzana – México)

Relato:

Cleudes Pessoa (Universidade Livre Feminista):

Cleudes inicia sua fala colocando o protagonismo das mulheres na economia solidária e no cuidado. Ela diz que, pela divisão de gênero na sociedade, esse papel foi sempre pertencente as mulheres. Por outro lado, a mesma divisão que lega seu protagonismo, leva também à sua invisibilidade, afirma. As mulheres não são representantes das políticas públicas, enfatiza.  Cita o projeto Brasil Local Feminista, que buscou o olhar sobre a economia solidária feminista a partir da autonomia financeira das mulheres e também o exemplo da Feira Fértil, com o qual finaliza sua fala. A Feira é uma experiência que começou há mais de um ano, com Mônica Carapaços, do Sítio Nós na Teia, onde a troca entre os produtos é mediada por uma moeda social. Ela traz a questão: para que e por que precisamos de dinheiro? “Isso permite com que as mulheres visibilizem seus talentos ao descobrirem serviços que podem prestar e fontes geradoras de troca. Isto nos volta a uma economia da satisfação e não do “não ter”, da política da escassez e do acúmulo”. No final, há uma plataforma online para registro das experiências não citada pela palestrante.

Alicia Sarmiento Sanchez (agricultora Grupo Vicente Guerrero – México)

A palestrante é originária da comunidade de Vicente Guerrero, em Tlaxcala, no México. Campesina com orgulho de ser campesina, formada na metodologia de campesino a campesino, mãe de família e defensora, também é assessora e facilitadora em práticas agroecológicas, plantas medicinais, resgate da alimentação tradicional, etc. Tem uma visão da agroecologia como uma forma de vida integral que compreende diversos âmbitos – o econômico, o social, o ambiental e o político. Não gosta de falar em ‘feminismo’ porque sente que ainda não se apropriou completamente do termo, mas entende que faz um trabalho de gênero por meio dos grupos compartilhados e que é uma defensora de todos, homens e mulheres. A comunidade VG, em Tlaxcala, trabalha pelo resgate de costumes tradicionais e pela recuperação das sementes nativas. Conta com trabalhos mistos focados na agroecologia e soberania alimentar. Afirma que as mulheres se veem como empreendedoras, transformadas e mais bem preparadas como cuidadoras da vida. Trabalham por um pagamento justo nos mercados alternativos, defendem as sementes nativas e os recursos naturais, afirma. Contudo, enfatiza os desafios na representatividade pública: na formação de mulheres como lideranças políticas, a luta pelo reconhecimento das mulheres indígenas e campesinas, etc.

Liber Soe Puro (Agricultora e representante da Amazônia boliviana):

A palestrante inicia sua fala com uma saudação calorosa ao público e à Amazônia boliviana e afirma ser também proveniente de uma comunidade campesina.  Compartilha um pouco do processo histórico das mulheres e povos indígenas pela consolidação do direito ao território. Em 1996, começou a luta contra quem tinha concentração de terra nas mãos, os chamados “barraqueiros”. Foi o começo das marchas pela terra onde as mulheres desempenharam um papel muito importante, destaca. Com as marchas pela terra que ocorreram em 1994, 1999 e 2000, as “ex-barracas” que se dedicavam à extração de gomas e castanhas são tituladas em favor da comunidade e dos povos indígenas originários dos campos. A Lei INRA regula a função da terra. No ano de 2008, muda a lei da constituição política do estado e se reconhece a integralidade do território indígena, que inclui o direito à terra, ao uso e aproveitamento exclusivo dos recursos naturais renováveis. A titularidade da terra é em favor das mulheres, independentemente do seu estado civil. A palestrante finaliza sua apresentação dizendo que dez minutos é muito pouco para apresentar uma luta com anos de história.

Em seguida, abre-se para perguntas da plateia, que giram em torno de um eixo comum: como lidar/chamar os homens para o movimento do feminismo. Algumas estratégias são comentadas pelas palestrantes – não falar em feminismo, falar em igualdade – outras pontuaram que a presença dos homens na luta pelas questões do campo e da economia solidária é fundamental. Afirmam que não há como fazer uma luta somente de mulheres e que a adesão das próprias mulheres ainda vem com muita resistência. Uma pergunta relativa à Academia e à luta do campesinato é lançada. Cleudes Pessoa responde que o espaço acadêmico ainda não tem acessibilidade para mulheres pretas e de periferia. Sarmiento responde que se sente muito feliz de poder compartilhar seus saberes no espaço acadêmico, mas sugere aos pesquisadores e pesquisadoras que pensem também como mães, como mulheres, como lideranças comunitárias e não somente como Academia.

Juliana Merçon (Universidad Veracruzana – México)

A mediadora propõe uma atividade em grupo com a seguinte pergunta geradora: como podemos, de maneira muito prática, concreta e pontual fortalecer os vínculos entre mulheres, economia solidária e agroecologia?

Os grupos discutem o tema durante dez minutos. Em seguida, cada grupo resume as ações discutidas em frases curtas ou palavras chaves:

Mercados alternativos; fortalecer potencial das mulheres e o autoconhecimento; envolver a juventude de modo a garantir a formação; criar grupos, incentivar nas comunidades e mapear os já existentes; unir cultura, arte e artesanato na feira da agricultura; reivindicar políticas públicas específicas; criar discussão ampla de economia valorizando o nível micro e macro de produção; fortalecer articulação política das mulheres para lograr políticas públicas; novas escolas comunitárias para educação alternativa; formação desde as crianças até o nível superior na temática do painel; identificar valor agregado por meio de uma certificação de gênero nos produtos; resgate dos conhecimentos tradicionais (rezadeiras, parteiras, agricultoras); unir momento de formação agroecológica para mulheres com gênero e raça; intercâmbio de experiências entre as mulheres; passar da lógica do preço para o apreço; adoção de novas formas de governança; desmantelamento do patriarcado; estímulo do cuidado entre mulheres;    trabalho compartilhado e equitativo entre homens e mulheres; criar ferramentas de controle de violência machista em espaços criativos como o tempo de fala; CSA com mulheres agricultoras; auto-organização das mulheres em coletivos; titularidade das terras para as mulheres; criação de ferramentas para inclusão digital; reforma agrária para mulheres.

A atividade é finalizada com uma síntese propositiva sobre o tema da atividade. As falas citam a necessidade de ações simultâneas em diferentes escalas: desde práticas cotidianas pequenas – família, escola – seguindo para o plano comunitário, até a incidência em políticas públicas. Reforçam a necessidade de aumentar a intensidade de ações em todas as escalas, de forma transversal. De acordo com a síntese realizada por uma das participantes, as propostas devem responder às questões: como a gente constrói o processo de auto-organização das mulheres (fundamentais para a autonomia)?; b) como construir alianças com outros grupos – relação com comercialização, educação, processo de formação; e c) como construir alianças em uma perspectiva anticapitalista e antirracista

Foto da atividade:

Facilitação Gráfica:

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Publicado por

Juliana Caceres

Olá, Meu nome é Juliana, toco em uma orquestra de maracatu. No momento, estou trabalhando como autônoma e estou no processo de construção de um sonho coletivo que a Ecovila Conviver. Recentemente, me iniciei no plantio de ervas medicinais e na ginecologia autônoma. Muito feliz de poder fazer parte da equipe de voluntários. Axé!

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