#AT86 – Experiências de Construção do Conhecimento voltadas a públicos diferenciados na AL

Experiencias de Construcción del Conocimiento dirigidas a públicos diferenciados en AL

Dia 14 | 14h00 – 16h00 | ARARA CANINDÉ | #Agroecologia2017

Responsável(is): Makeda Dyese (Trinidad e Tobago/SERTA – REGA); Eliane Oliveira da Silva Kai (MST); Adriana Galvão Freire (ASPTA); Coordenador: Giuseppe Bandeira (ABA)

Relato:

No dia 14 de setembro na Sala Arara Canindé do Centro de Convenções Ulisses Guimarães em Brasília, realizou-se a mesa redonda sobre Experiências de Construção do Conhecimento voltados a Públicos Diferenciados na América Latina Coordenada por Giuseppe Bandeira da Associação Brasileira de Agroecologia - ABA, com a participação  de Makeda Dyese do Serviço de Tecnologia Alternativa SERTA de Pernambuco, substituindo Mônica Mendonça; Vanderlúcia  de Oliveira Simplicio, Coordenadora do Setorial de Educação do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e Adriana Galvão Freire que trabalha na ASPTA Paraíba - PB junto aos grupos de mulheres do Polo da Borborema.     

Guiseppe abriu a atividade resgatando os objetivos da mesa, que buscou apresentar as experiências de educação formal articuladas por organizações e instituições do campo agroecológico, que tem como ponto comum os públicos diferenciados como jovens e mulheres. Também resgatou deliberações dos processos de construção de diretrizes para experiências de educação formal inclusiva, promovidas pela ABA, como o I Seminário Nacional de Educação em Agroecologia I SNEA realizado em 2013 pela ABA em parceria com o Núcleo de Agroecologia e Campesinato - NAC da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE em Paulista - PE, onde mais de 170 educadores, educadoras e estudantes de instituições de ensino e movimentos sociais realizaram vários debates e processos de aprendizagem coletiva, buscando a identificação e ressignificação de referenciais que orientam experiências concretas de Educação Formal em Agroecologia.


Acesse aqui o blog com os resultados do I SNEA


Makeda Smenkh-Ka-Ra educadora do Serviço de Tecnologia Alternativa - SERTA de Pernambuco - Brasil  

Makeda abre a fala apresentando um vídeo sobre o trabalho de educação do SERTA.

Acesse aqui o vídeo sobre a Escola Inovadora do SERTA


Após o vídeo, Makeda retoma a fala sobre a experiência do SERTA, apresentando-o como um portal onde se encontram as diversidades e se abrem possibilidades de desenvolvimento das pessoas. Disse ainda que o SERTA é uma Oscip, que se articula como uma institucionalidade e uma (in)institucionalidade, onde o não formal e o formal se misturam e se articulam no currículo explícito e no currículo oculto da instituição.

Disse  que se animou em estudar no SERTA, pois já era pedagoga, mas tinha interesse em vivenciar a pedagogia da alternância. Comentou que está se formando no próximo ano  e que tem vivenciado um tipo diferente de pedagogia, onde há uma diversidade real na base das ações, que vem de comunidades quilombolas, assentamentos e  comunidades tradicionais e cada vez vemos mais alunos das áreas urbanas.

Comentou que hoje são mais de 600 alunos estudando no SERTA e o apoio do governo não ultrapassa o necessário para manter  200. Os recursos são muito minguados e as contas são muito altas. Estamos aqui para propor parcerias e construir junto com vocês.

Para promover o processo de construção de conhecimento agroecológico, disse que tem feito um trabalho para que as pessoas construam sua história de vida e se coloquem como um ator na construção da agroecologia. Dentro da proposta metodológica,  depois vem a imersão, que é um momento de parceria total, muito abertura e muita intimidade, onde centenas de pessoas estabelecem um profundo processo de intercâmbio.

Chamou a atenção para o fato de que precisamos dar valor e conhecer nossas relações com nossa primeira casa,  que é nosso corpo e progressivamente temos que expandir nossa percepção para a nossa comunidade, para nossas organizações e para os ecossistemas naturais e sociais em que vivemos.


Vanderlucia de Oliveira- Setor de Ediucação do MST

Vanderlúcia, como coordenadora do Setor de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST substituiu Eliane Kai que não pode estar presente e falou sobre o que o Setor de Educação do MST vem discutindo e realizando no que se refere a educação para agroecologia. Disse que o trabalho do MST em relação a agroecologia já acontece a muitos anos e que  agora temos feito uma campanha junto às escolas rurais por alimentação saudável e valorização dos alimentos agroecológicos. 

Comentaou que para iniciar essa campanha foi realizado um diagnóstico sobre o que as famílias assentadas vem comendo. Daí percebeu-se que mesmo com o potencial produtivo das comunidades as famílias assentadas de uma forma geral ainda comem mal.

Disse que também vem realizando um grande esforço para a introdução da agroecologia como conteúdo transversal dentro de todos os cursos realizados pelo MST. Dessa forma passaram a discutir a agroecologia não como um conteúdo específico mas como referência para todas  as atividades e em todas as disciplinas. 

Complementou a fala dizendo que É nesse sentido é que temos marcado o nosso trabalho, valorizando não só a produção, mas os aspectos culturais, sociais e políticos dos processos educacionais orientados para fortalecer as ações das famílias, comunidades e organizações.  

Adriana Galvão Freire (ASPTA - Agricultura Familiar e Agroecologia)

Adriana se apresentou, como bióloga, que trabalha na ASPTA da Paraíba, junto ao movimento de mulheres, na região da Serra da Borborema, num espaço de articulação chamado Pólo da Borborema, que é uma região que articula 14 municípios no Agreste, região entre a Zona da Mata e o Semiárido do estado da Paraíba.

Inicialmente Adriana fez um resgate do início do trabalho da ASPTA com as mulheres na região, comentando que dentro dos princípios metodológicos desenvolvidos para se trabalhar o apoio às organizações do Polo da Borborema, uma das estratégias foi a assessoria para a constituição e o fortalecimento dos grupos de mulheres, que começaram a se formar a partir do trabalho de uma Comissão formada pelos Sindicatos para trabalhar as questões de saúde e educação. 

Assim seguiu sua fala dizendo que desde o início do trabalho da ASPTA na região, as mulheres começaram a participar, e que  nesse processo buscou-se identificar o seu papel e o papel do seu trabalho no contexto das propriedades da região, daí se projetou o espaço que elas chamavam de "arredor de casa", que é um espaço complexo e pluriativo onde se processa boa parte dos trabalhos femininos dentro da unidade familiar, e que apesar da clara importância desse espaço para a reprodução da família, muitas vezes a ele se destina a invisibilidade.

Luciana comentou seguindo sua apresentação, que foram feitas muitas atividades para se aprofundar o conhecimento sobre esse espaço e processos de diagnósticos e experimentação para se dar visibilidade e entender melhor os papéis das mulheres e de seu trabalho dentro dos sistemas produtivos. Nesse contexto foi-se desenvolvendo um conjunto de ações que contribuíram para formar uma rede de agricultoras experimentadoras. Hoje há uma rede consolidada de agricultoras experimentadoras envolvendo algo como 1.300 mulheres, em mais de 300 comunidades e 10 municípios. É essa rede que mobiliza a força do trabalho das mulheres no Polo da Borborema. 

Sobre essa etapa do trabalho Luciana disse, que  partir dessa rede e dos conhecimentos produzidos no âmbito da atuação das mulheres, foram se identificando necessidades de investimento em seus espaços de trabalho e oportunidades de financiamento e apoio, via políticas públicas por exemplo, que levaram à introdução de infraestruturas de armazenamento de água no "arredor de casa", infraestruturas estas que  contribuíram para potencializar a capacidade produtivas destes espaços e o fortalecimento de suas atividades econômicas e por fim da sua autonomia no contexto familiar.

Durante o trabalho Luciana comentou que foi se percebendo que a força do patriarcado ainda prendia as mulheres à cozinha e a partir desta constatação passaram a discutir os papeis das mulheres como lideranças comunitárias e como a agroecologia contribuía para abrir e fortalecer os caminhos e oportunidades para essas mulheres. Neste processo realizaram a sistematização da trajetória de de Wanda, uma mulher líder comunitária que passou por todos os problemas relacionados à preconceitos e opressão que as mulheres lideranças passam.  

A partir da experiência e da vida de Wanda, transformada em foto novela, se permitiu o debate e a reflexão sobre as raízes do machismo na agricultura familiar da região, e a sua vida e história serviram de reflexão para vários grupos de mulheres que refletiram sobre suas próprias vidas a partir das publicações feitas com a História de Wanda. A partir daí, se fortaleceu o papel do teatro na reflexão sobre o machismo e o patriarcado dentro do trabalho com as mulheres. Dessa forma foi produzida uma peça chamada a "Vida de Margarida" que depois se transformou em video-novela e em seguida foi produzida uma cartilha que também foi utilizada para se refletir sobre a condição das mulheres na região.

Luciana comentou ainda que em setembro de 2014 houve o assassinato de Ana Alice de Macedo Valentin, do município de Queimadas.  Ana Alice era militante do Polo da Borborema e no dia 19 de setembro de 2012, quando voltava da escola, foi sequestrada e barbaramente violentada. Seu corpo foi enterrado na Zona Rural do município de Caturité, só sendo encontrado 50 dias após o crime. E que após o desaparecimento da jovem, foi formado o Comitê de Solidariedade e pelo Fim da Violência Contra a Mulher Ana Alice, composto por mais de 30 organizações rurais e urbanas. Após isso criamos uma campanha pela justiça e pelo fim da violência contra mulher #PeloFimDaViolênciaContraMulher. 

Luciana disse que ao longo desses anos realizou-se um conjunto de manifestações chamadas de Marchas pela Vida das Mulheres e pela Agroecologia que mobilizou dezenas milhares de mulheres na região, sendo realizada em vários dos municípios mais importantes do Polo. No último ano realizamos a 8ª Marcha das Margaridas em que houve uma dinâmica de multiplicação das Margaridas.

Assim Luciana encerrou a sua apresentação agradecendo a todos com um "Sem feminismo não há agroecologia"!!


Debate

Guiseppe abre a discussão e propõem uma metodologia para se promover o debate. Fica decidido que cada um faz a inscrição para falar.

Primeira pergunta:

Como estas experiências podem ser realizadas para ampliar o movimento da agroecologia em termos territoriais??

Vanderlúcia: O trabalho do setor de educação tem contribuído para a disseminação do trabalho em agroecologia do MST nos diversos territórios em que o movimento tem atuação, isso se dá principalmente pela capacidade dos estudantes em transformar em prática os conhecimentos produzidos nos processos formativos. 

Makeda: Para ela, os intercâmbios internacionais e interestaduais podem ajudar a se fazer a ampliação do trabalho.

Luciana: Para ela, a atuação em Redes, como os sindicatos e a Articulação do Semiárido - ASA, ajudam a expandir os resultados obtidos em um contexto para adapta-los para os outros.

Segunda pergunta:

Como fazer um tipo de educação que vá para além da produção e da técnica? A escola sozinha não transforma a sociedade porem sem a escola a sociedade não se transforma. Temos que valorizar a rede de educação agroecológica do NE, precisamos fazer de outra forma. precisamos nos conhecer, precisamos nos entender como atores neste contexto da atuação social e política e dos educadores e educandos no processo de construção de um novo conhecimento que avance para outras dimensões alem da dimensão técnica.

Makeda: Eu diria que primeiro devemos olhar para o currículo oculto, o sutil, o que se vivencia e o que se experimenta e depois para o currículo formal, valorizando a experiência temos como promover processos que valorizem as várias dimensões da aprendizagem.  

Vanderlucia: No MST, para nós a escola é fundamental, mas a escola precisa estar na comunidade, aberta à comunidade e não apenas um prédio no lugar. Estamos agora na formação da terceira turma de professores dos assentamentos para discutir as relações entre agroecologia e educação.

Luciana: Eu sou mineira e me encantei com o nordeste, no primeiro dia de trabalho, estávamos discutindo uma metodologia de trabalho para explicar o que era a silagem, ficamos construindo uma proposta, mas quando chegamos na propriedade o agricultor já tinha feito tudo, estava muito mais adiantado que a gente. Por exemplo, foi com elas que começamos a compreender o que é o "arredor de casa" e a partir disso transformamos a nossa ação e da nossa ação a realidade em que vivemos e trabalhamos. Ou seja precisamos apurar muito nossos ouvidos e ter muita sensibilidade para captar esses elementos que tem mais relação com a cultura, mas que tem relações profundas com a técnica. 

Makeda: Gostaria de retomar a questão da parceria, que tem a ver com o convite real da participação e da colaboração para a se colocar e contribuir em processos reais.
  
Terceira pergunta:

Prof. do IFG Formosa: A pergunta do outro camarada me levou a refletir sobre a necessidade de conversarmos mais sobre os nossos diferentes campos de saber e colocar os entendimentos para revelar mais de seus campos. A partir do debate sobre o feminismo, comecei a pensar que hoje vivemos uma era do slogan, em que as pessoas não estão querendo mais que dialogar e aprender mutuamente, estão muito interessadas em ganhar o debate tipo: lacrou!! Como as reuniões mistas de homens e mulheres contribuem para a promoção do debate verdadeiro lá na Borborema?

Luciana: Isso que você perguntou é bem legal, no início a participação das mulheres era muito menor, nos trabalhamos com um movimento sindical, que é muito machista, E a partir do trabalho com as mulheres, percebemos a importância de debater a questão do machismo e do feminismo de forma conjunta, com homens e mulheres, principalmente para garantir que o processo de mudança integre todos. Por fim no último ano tivemos a realização da marcha com 1500 mulheres, que inicialmente estava prevista para ter 3000 participantes, mas como não conseguimos recursos, a realizamos com o apoio dos Sindicatos, mas foi redesenhada para os sindicatos poderem bancar a marcha.

Vanderlucia: No MST temos realizado as cirandas feministas, envolvendo crianças, homens e mulheres para envolver as mulheres em todos os processos. O movimento também estabeleceu cotas de participação de mulheres em todas as suas instâncias de decisão, o que tem contribuido efetivamente para se incorporar a visão de inclusão de gêmeros em todos os processos decisórios do movimento. 

Palavras finais:     

Por fim todas agradeceram a participação no evento e a oportunidade de estarem naquela mesa e Guiseppe encerrou o debate.

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Publicado por

ZARE AUGUSTO BRUM SOARES

Eng Agrônomo mestrado em desenvolvimento e agricultura pesquisador da Embrapa.

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