#AT99 – Painel V – Educação em Agroecologia: Práticas e Saberes na perspectiva contra hegemônica

Panel V – Educación en Agroecología: Prácticas y Saberes en la perspectiva contra hegemónica

Dia 15 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Luciana Jacob (ABA); Marcos Sorrentino (ESALQ/USP); Coordenadora: Virginia Aguiar (UFPE)

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Apresentação Marcos Sorrentino

Créditos vídeo: João Pedro Novaes

Relato:

A coordenadora da mesa, Maria Virginia de Almeida Aguiar (UFPE), abriu a atividade convidando os palestrantes a comporem a mesa e saudando a todos os presentes. Para iniciar o painel fez uma contextualização do estado da arte da Educação em Agroecologia.

Segundo Virginia, a pauta agroecológica está cada vez se ocupando do tema educação como uma questão essencial para a construção do conhecimento agroecológico. Destacou os núcleos de agroecologia que foram formados nas universidades e que têm atuado como espaços de expressão e diálogo nos territórios. Para demonstrar a importância atual do tema da educação em agroecologia, destacou que no primeiro CBA, realizado em Porto Alegre-RS em 2003, foram apresentados 9 trabalhos sobre educação e que neste congresso temos mais de 140 trabalhos apresentados na temática. No âmbito do grupo de trabalho sobre educação da ABA várias discussões importantes vêm acontecendo, como a questão curricular, as diferentes pedagogias utilizadas, os cursos de graduação e pós-graduação, as interfaces da educação no campo, entre outros. Após essa leitura de contexto, passou a palavra para a primeira palestrante.

Luciana Jacob (ABA)  (síntese da fala da palestrante)

A temática do painel é extremamente relevante nesse momento, onde as disputas políticas estão em evidência. Para que seja possível fazer uma discussão sobre o que seria uma educação não hegemônica, é necessário retomar os conceitos que estão sendo tratados, o que entendemos por hegemonia e contra hegemonia. Essa vigilância epistemológica é importante pois não podemos correr o risco de a narrativa ser esvaziada.

Para conceituar hegemonia a palestrante fez referência ao filósofo italiano, Gramsci, que conceitua o termo como:

“a total realidade da experiência social em um dado momento histórico que satura profundamente a consciência da sociedade. Assim, hegemonia, para Gramsci, em qualquer período e em qualquer sociedade é constituída por um sistema central de práticas, significados e valores que podem ser chamados de dominantes e eficazes. Trata-se, portanto, de todo um conjunto de práticas e expectativas, do investimento de nossas energias, da compreensão cotidiana que se tem do mundo” (Luciana Jacob)

Esses valores são dominantes e eficazes, pois nos faz pensar que não existem alternativas.  A hegemonia não esta só na política e na economia, ela está presente também nas nossas formas de conhecer o mundo. A hegemonia se mantém por duas forças: a da violência e a produção de consenso.  A produção de consenso é ideológica. E as escolas e universidades contribuem para a manutenção disso.

Partindo então desse conceito de hegemonia e olhando para o tema agricultura, o agronegócio no Brasil hoje se constitui como a única forma possível e qualificada de se fazer agricultura. O agronegócio, embora se demonstre moderno e refinado, é impregnado por elementos coloniais, como os latifúndios, a monocultura, a exportação de matéria prima, a violência contra os povos do campo, a liquidação do conhecimento pelo assassinato das pessoas e a produção extensiva e simplificada dos ecossistemas.

A Revolução Verde, que promoveu a modernização do campo num momento de ditadura militar no Brasil, se estabeleceu às custas da subtração dos modos de produção dos povos do campo e do desmatamento. O latifúndio é permeado por formas coloniais de produção e continua se reproduzindo com o apoio da bancada ruralista.

O golpe de 2016 reforça isso, pois foi um golpe patriarcal, machista e capitalista, para desarticular a sociedade e principalmente as populações do campo. Os golpistas não queriam que estivéssemos aqui hoje.

Nesse cenário, o que é então a contra hegemonia?

Gramsci aponta que onde há uma hegemonia, existem valores que não enquadram. Dentre esses que não se enquadram, existem dois grupos, um que questiona o paradigma, mas que contribui para a continuidade do sistema (a hegemonia aceita isso) e o outro grupo, que é aquele que busca desconstruir o paradigma dominante.

Considerando que não existe agroecologia num sistema patriarcal, machista e capitalista, é necessário desconstruir o paradigma dominante. A agroecologia conseguiu se desenhar dentro de um sistema hegemônico dominante graças à preservação do conhecimento tradicional pelas populações do campo e aos diálogos estabelecidos entre essas populações e o meio científico.

No Brasil, a gênese da agroecologia não partiu somente da apropriação científica dos conhecimentos tradicionais dos agricultores, mas também através de diálogos dos movimentos sociais, das escolas e universidades. A agroecologia ganha traços da ecologia de saberes de Boaventura de Sousa Santos, pois trata-se de um campo de confluência solidário.

E qual o papel então da educação em agroecologia?

A hegemonia é constituída por força e consenso. O consenso é conquistado através da mídia e também das instituições educadoras. Se a hegemonia é conquistada dentro das escolas, é aí que podemos construir a contra hegemonia.

Nas universidades o conceito de agroecologia está em constante disputa, pois nesses espaços se constroem ideias e projetos de mundo. Hoje o agronegócio domina as universidades.

Do ponto de vista epistemológico, a manutenção do paradigma do agronegócio se dá por meio das tecnologias geradas na academia e levada ao campo, no contato duvidoso das universidades com as empresas transnacionais, na formação das pessoas e na produção de conhecimento. Esse conhecimento produzido é divulgado tanto na mídia, quanto na produção científica.

Hoje as universidades respondem a duas questões: as questões colocadas pelo agronegócio e as questões que ela mesma formula, dentro dos muros da universidade. Os agricultores e as agricultoras familiares ficam à margem da construção das pesquisas.

E o que significa pensar a agroecologia na universidade?

Significa trazer as vozes que foram violentadas e silenciadas por todo esse tempo. É necessário resignificar a extensão universitária, reposicionar o papel da extensão, para ser o centro do processo. Essa é a única ferramenta capaz de levar o pesquisador fazer as perguntas fortes.

Atualmente existem nas universidades professores militantes, mas que se sentem solitários. Essa é outra forma de desmobilização causada pelo paradigma dominante, nos fazer sentirmos sós, alternativos, quando na realidade lidamos com mais de 70% da população do campo.

Os Núcleos de Agroecologia permitem que a sociedade entre na universidade. É aí que está a chave, onde viramos o jogo. Parar de produzir conhecimento para, para produzir com. Os núcleos vêm se consolidando como esse lócus. O movimento contra hegemônico precisa ser globalizado, precisa se articular com outros movimentos.

Para finalizar, utilizou uma frase de Paulo Freire, que diz: “O mundo não é, o mundo está sendo”.

Marcos Sorrentino (ESALQ/USP) (síntese da fala do palestrante)

Agradeço a presença de todos. Como já foram contextualizados os conceitos e a temática, vou direto para a sugestão de propor e dialogar sobre uma agenda de transição educadora agroecológica e ambientalista.

São 4 aspectos da agenda que precisam ser considerados: a rebelião, o ideário, a educação e a potência de ação.

Sobre a rebelião, essa reflexão surgiu nos corredores do congresso, face ao contexto político atual. Nossa luta política imediata é pelo fora Temer e fora todos os corruptos e corruptores. Esse grupo de políticos precisa sair. Precisamos de uma constituinte democrática e soberana, agenda construída por pessoas comprometidas com a transformação social e isto não é impossível.

Sobre as transformações sociais necessárias, Montesquieu diz que o espírito das leis, nas sociedades democráticas e populares, deve ser o da frugalidade, o da simplicidade voluntária. Precisamos de um compromisso com o bem comum. Sem isso não conseguimos fazer leis democráticas e populares. Então, como construímos uma estratégia de transição para isso?

Só vamos enfrentar o aquecimento do planeta Terra se diminuirmos o consumo de carne. E como falamos isso para a sociedade brasileira, que tem esse hábito arraigado em sua cultura?

Temos que levar os nossos filhos para a cozinha. Crianças precisam ir para a cozinha. Toda a mudança precisa ser acompanhada por transformações estruturais. Não tem como encarar o mercado da carne sem passar pela reforma agrária e pela reforma urbana. Temos uma situação vergonhosa de ter 850 milhões de hectares, dos quais 200 milhões estão destinados à pecuária. Com uma simples mudança de técnica poderíamos reduzir isso para 100 milhões de ha, com o simples piqueteamento de pasto. Precisamos buscar uma equidade no consumo, consumindo menos e fazendo uma produção mais racional. Temos sim que defender e lutar por reforma agrária e por reforma urbana. Não há possibilidade de transformação agroecológica com essa iniquidade.

Sobre o ideário, o movimento agroecológico precisa dialogar com outras agendas que estão aí há 40 anos. O socialismo libertário, o ambientalismo, o movimento LGBT existem desde a década de 60 e precisamos visitar e conhecer isso, para formar as alianças necessárias com esses movimentos chamados novos movimentos sociais.

A educação é outro ponto que precisa ser discutido. Não podemos simplificar a educação como sinônimo de escola. Em relação à educação escolar, precisamos ocupar as escolas públicas. Temos que ocupar o espaço público e obrigar deputados e senadores a colocarem seus filhos na escola pública. Se não conhecermos o sistema público, não temos como influenciar.

Ocupar os espaços públicos é fundamental, mas não suficiente. O território educador é todo o território que vivemos. O processo educador tem que ser permanente, articulado. A educação acontece não só na escola, mas também nas igrejas, sindicatos e outros espaços, buscando agendas educadoras integradas.

Os conselhos municipais de educação precisam assumir a responsabilidade da educação de todos os munícipes. Nesses conselhos se pensam só nas escolas públicas. Precisamos pensar numa agenda educadora para todo o município. Todos os conselhos são espaços que podem aglutinar os atores para a agenda educadora, tendo o município como espaço de educação para sociedades sustentáveis.

Por fim, a potência de ação é outro ponto de destaque. Não podemos deixar que o pessimismo do pensamento massacre o otimismo da ação. Não podemos deixar a confusão nos confundir.

A quantidade de informação negativa é tão grande, que dá vontade de jogar a toalha, mas esse momento exige assertividade.

DEBATE COM A PLENÁRIA

1 – Docente da Faculdade de Educação da Unicamp pergunta para  Marcos sobre a ideia de priorizar o município como esfera de ação. “Isso na Espanha tem acontecido muito. O desafio no Brasil é que focamos no espaço federal.  Não vejo a perspectiva das pessoas se envolverem numa democracia que esta só aqui em Brasília, sendo que a realidade muitas vezes está a mais de 1000km daqui”.

2 – Pedro, doutorando em saúde coletiva Unicamp. “O quanto essa confusão de que a educação formal (alfabetização) é necessária para avançar nos espaços educadores está nos travando?”

3 – Geraldo, do Caparaó, Rede Capixaba de Educação Ambiental. “A agroecologia é a prática que nos falta na educação ambiental”.

4 – Eli Lino de Jesus - Professor do curso de Agroecologia, do Instituto Federal do Sudeste de MG. “ Os cursos de agroecologia enfrentam muitas dificuldades. Os cursos formais necessitam de apoio para aprofundamento. Os cursos têm enfrentado barreiras enormes, os conselhos de classe profissionais não querem registrar o título dos formados em agroecologia, os concursos não selecionam agroecólogos. O agroecólogo não pode ser menor que os agrônomos. A ABA não prioriza esse debate há muito tempo”.

5 – Tadeu –“Sou resultado das políticas públicas, dos pontos de cultura, das salas verdes, de todo esse processo. O espaço da educação não é só o espaço das escolas, é no nosso dia a dia no contato com os diferentes. Agradeço pelas falas, que inspiram e dão ânimo”.

6 – Tiago – Fórum Alternativo Mundial da Água – embora a atividade seja tão rica, ele nota que o paradigma dominante vai se apropriando dos discursos e tentando coexistências. “Na abertura do evento foi falado que a agroecologia pode conviver com o agronegócio. Como conseguimos fugir disso? Como resistimos a apropriação dos espaços?”

CONSIDERAÇÕES FINAIS E RESPOSTAS AOS QUESTIONAMENTOS

Luciana Jacob

Sobre a metodologia campesino-campesino – existe uma pluralidade de saberes. Quem escolhe os saberes importantes são os grupos dominantes, que muitas vezes dizem: é importante só ser alfabetizado.

Com relação à ABA, esclareceu que se trata de um espaço de debate, dinâmico e que só funciona com a participação das pessoas. O GT está aberto para acolher diversos pontos de vista. Fica o convite para quem está presente. A ABA acolhe e dinamiza discussões.

Marcos Sorrentino

Ressaltou a importância da mídia na revolução. Precisamos fortalecer as mídias alternativas.

Como atuamos a partir do município? Como enfrentamos o coronelismo instalado nos municípios? Uma ideia é a construção de círculos de cultura, que dialoguem sobre essa agenda. É necessário formar uma rede, uma malha de cultura, com espaços de encontro, onde se discuta teoria e se pratique ações coletivas, que vai desde plantar juntos até incidir em políticas públicas. A comunicação é fundamental para uma rede de diálogo.

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Publicado por

junapolitano

Engenheira agrônoma, assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza no apoio a projetos ecossociais.

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