#AT108 – Por uma Ciência Cidadã: Articulação na Luta Contra os Agrotóxicos – Compromissos

Por una Ciencia Ciudadana: Articulación en la Lucha contra los Agrotóxicos – Compromisos

Dia 15 | 10h00 – 12h00 | GUEROBA | #Agroecologia2017

Responsável: Coordenador: Leonardo Melgarejo (ABA)

Arquivo: Agenda, Temas e Campos de Ação Contra os Agrotóxicos e Transgênicos em Defesa da Vida

Relato:

O facilitador Alan Tygel iniciou a atividade informando que esta seria uma oportunidade de encaminhamento das ações, em sequência à atividade #AT17 (Auto apresentação das organizações que lutam contra agrotóxicos e OGMs), com o objetivo de passar pelos caminhos das instituições em suas formas de agir, temas de ação e tentativas de se encontrar uma agenda comum de luta. 

Após breve apresentação dos grandes temas e da agenda, foi aberta rodada para comentários, inclusões de eventos à agenda e linhas de ação das respectivas organizações. Segue breve descritivo:

- Rede CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura): construção dos grupos de CSA - 21 unidades no Distrito Federal

- Associação Abará (Itajuípe, Bahia)

- Rede de médicos populares: acesso à terra; direito de produzir; combate à fome.

- Deputado Marcelino Gallo (BA): Plano Estadual de Agroecologia da Bahia, em tramitação; medidas contra a pulverização aérea; intensificação no controle e no monitoramento; questão dos agrotóxicos contrabandeados.

- Ministério da Saúde, Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador: a representante participa como convidada o Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos; eventualmente compõe a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida mantendo diálogo e buscando apoio; Portaria de revisão da qualidade da água.

- Comitê DF (Distrito Federal) da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida: tentativa de rearticulação, formação e trabalho de base, organização de seminário.

- Gambá (grupo ambientalista da Bahia): compõe o Fórum Baiano de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos; vigilância de população exposta; desenvolvimento do PARA (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos); apoio a atuação do legislativo sobre o tema; busca por relacionar questões dos agrotóxicos com corrupção; combate aos agrotóxicos e transgênicos; atuação contra o desmonte da legislação de controle sobre o uso dos agrotóxicos.

- Fórum RN (Rio Grande do Norte) de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos:  desenvolvimento do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) estadual; ações em defesa do consumidor.

- Núcleo Paraíba da Frente Povo sem Medo: ações em saúde coletiva

- Rede Amigos da Tierra – Uruguai: visibilização do tema no Uruguai quanto aos grupos afetados; atuação na comissão de direitos humanos; produção de materiais audiovisuais; levanta a questão da contaminação do milho.

- Universidade de La Plata – Argentina: medição de agrotóxicos no ambiente; educação ambiental; trabalho com povos fumigados; abordagem integral.

- Universidade Nacional de Rosário – Argentina: saúde e educação de populações ao redor do agronegócio.

- Universidade Católica de Salvador (UCSAL): construção da rede de pesquisadores a serviços das comunidades.

- Embrapa Amazônia Oriental: compõe o Comitê AM (Amazonas) da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, e o Fórum Amazonense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos; informou que a quantidade de agrotóxicos aplicados na região está quase duplicando; denunciou a entrada de agrotóxicos contrabandeados; alertou para o suicídio de jovens indígenas relacionado aos agrotóxicos; realização de pesquisa de alternativas baseadas em agroecologia e agrofloresta; ações através do Sindicato da Embrapa, setor de Saúde do Trabalhador; integra Rede Maniva de Agroecologia; milita pelo Plano Estadual de Agroecologia.

- Universidade de Montevidéu: realização de estudos científicos – transgênicos, agrotóxicos e agroecologia; atividades de diálogo com sociedade e políticos – novas leis sobre transgênicos; comparação com sistema brasileiro de regulação de agrotóxicos; medição de resíduos de agrotóxicos; informou que rotulagem ocorre apenas em alguns municípios.

- Instituto Nacional do Câncer (INCA): realização de estudos em áreas rurais no sul e sudeste; busca gerar evidências científicas; estratégia de comunicação voltada para datas especiais, como 7 de abril (Dia da Saúde) e 4 de fevereiro (Dia do Câncer); pretende lançar novo posicionamento institucional com foco em alterações legislativas, como a lei de pulverização aérea em áreas urbanas.

- Rede Brasileira de Ação e Pesquisa Contra os Agrotóxicos: estruturação da rede.

- Gwatá Núcleo de Agroecologia e Educação do Campo (Goiás): Projeto Venenos – impactos socioambientais dos agrotóxicos, o coração do agronegócio; comunicação do filme Pontal do buriti - consequências da pulverização; realização de seminários sobre agrotóxicos e impactos ambientais; publicação - Agrotóxicos e violações socioambientais; Educação/Formação de mais de 600 pessoas via programa de extensão – formação de docentes e outros profissionais no tema dos agrotóxicos.

- MINKA (Peru): estudo de doenças terminais provocadas pela alimentação; comer saúde – alterar o mito de que não se pode fazer nada sem agrotóxicos; produção de hortaliças sem agrotóxicos; alimentação nas escolas; transição agroecológica.

- Cepagro: articulação latinoamericana - necessidade de embasamento na luta contra os agrotóxicos; apontou necessidade de produção de materiais em espanhol e maiores trocas de experiências; criação da Red Colaborar.

- Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) de Rondônia: vinculação da agricultura familiar a agroecologia; projeto de padre para incentivo a agroecologia; articulação de agroecologia.

- Universidade Federal de Lavras (UFLA), MG: integra o Comitê da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida; disputa dentro de uma instituição de educação voltada para o agronegócio; documentário sobre uso inseguro de agrotóxicos (também em espanhol) - “Uso seguro de agrotóxicos”; conversão agroecológica baseada no método camponês a camponês; fundação de um CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura).

- Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz): tem como missão a informação para promoção da saúde, particularmente no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS); representações em várias instâncias, inclusive na Campanha; mestrado profissional em Saúde, Ambiente e Trabalho; formação em Saúde, Campo, Floresta e Água; cooperação com o Ministério da Saúde.

- Ponto de Cultura Alimentar: oferece alimento 100% natural – direto de aldeias e quilombos – sem veneno nem transgênico; Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida; atuação pelo projeto de lei para financiamento para pontos de cultura alimentar.

- Centro ecológico IPE: atua desde o início dos anos 1980; participação no Fórum Nacional de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e na Rede Ecovida; campanha por um brasil livre de transgênicos; atualmente presta assessoria em agroecologia

- Rede TECLA: avaliação previa dos impactos das novas tecnologias, como transgênicos; busca agregar mais participantes da América Latina.

- Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) da Bahia: apoio a agroecologia e a certificação participativa de produção orgânica; realização de campanha contra o câncer de mama.

- Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Núcleo de Agroecologia: atuação em áreas de reforma agrária.

- Associação Biodinâmica (ABD), em Botucatu, SP: resgate de sementes crioulas e atuação contra os transgênicos; rede de CSA; Articulação Paulista de Agroecologia; frente parlamentar de agroecologia, liderada pela Deputada Estadual Ana do Carmo, de São Paulo; perspectiva de aprovação da Política Estadual de Produção Orgânica e Agroecologia de São Paulo ainda em 2017. 

- Escolas do Rio Grande do Norte: horta escolar – desde adubação até o consumo; agrotóxicos e todas as suas consequências – alimento → cidade.

- Centro de Ação Cultural na Paraíba, parte da Articulação do Semiárido Paraibano (ASA PB): atuação na Campanha; formações em sindicatos e associações; feiras agroecológicas usando materiais da Campanha; plano estadual de segurança alimentar e nutricional; direitos humanos e alimentação, via Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA).

- Agência Estadual de Defesa do Pará (Adepara): fiscalização das casas agropecuárias; produtores de soja que estão entrando na Amazônia; informe de região com monocultura de pimenta do reino; educação sanitária – palestras sobre os prejuízos causados pelos agrotóxicos

- Núcleo de Estudos Ambientais e Saúde do Trabalhador (Neast) – Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Mato Grosso (ISC/UFMT): avaliação ambiental: água, peixe, sangue, urina de trabalhadores; trabalho em conjunto com Secretaria da Saúde – Sindicato dos Professores; pressão política contra as pesquisas.

- Federação Agrícola Familiar do Piauí (PI): agroecologia e permanência do jovem do campo; núcleo de agroecologia com jovens; atender demanda de produtos agroecológicos em feiras; novo curso de agroecologia; promover a produção e comercialização de produtos agroecológicos.

- Secretaria de Meio Ambiente de Aracruz: conselho de desenvolvimento sustentável – atuação em comunidades tradicionais e unidades de conservação.

- Curso de Nutrição da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC): pautar o tema na nutrição, não indicando o uso de transgênicos na nutrição; linha de pesquisa em agrotóxicos e transgênicos na pós-graduação.

- Fórum Catarinense de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos (SC): trabalhos com agricultores, consumidores e nutricionistas; observatório da alimentação saudável – produção de materiais educativos; denúncia de transgênicos não rotulados.

- Núcleo de agroecologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA): linhas de financiamento para pesquisa em técnicas não convencionais em manejo vegetal.

- Universidade Federal da Paraíba (UFPB): Bacharelado em Agroecologia; criação de Grupo de Trabalho (GT) em Saúde do Trabalhador; ensino: agrotóxicos, impactos a saúde e ao meio ambiente; pesquisa sobre relatos de intoxicação em agricultores – percepção de perigo; controle vetorial – agentes de endemias; implantação de horta nas escolas; apoio a “Sementes da paixão”.

- Fiocruz (unidade do Mato Grosso do Sul): projetos de monitoramento – comparação entre escolas rurais e urbanas; projeto para o Ministério Público Federal – contaminação do leite materno em duas etnias indígenas no entorno de Dourados, MS; agrotóxicos contrabandeados – identificação de substâncias não permitidas; integra GT Saúde da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

- Fórum Nacional do Ministério Público: busca por representação nos Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA).

- Curso de Nutrição da Universidade Federal de Viçosa (UFV): mestrado em agroecologia; exposição dos agricultores aos agrotóxicos; trabalhos de conscientização dos agricultores; impactos à saúde das mulheres – feminismo, aborto, infertilidade, má formação.

- Movimento dos Pequenos Agricultores de Santa Catarina (MPA – SC): alerta que os temas agrotóxicos e biotecnologia não podem ser tratado separadamente.


 Ao final, os mediadores agradeceram a participação de todos e uma pessoa da plateia pediu apoio à iniciativa de inclusão do Cerrado e da Caatinga como patrimônio natural do Brasil.

Foto da atividade:

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#AT84 – ESPAÇO DE CO-CRIAÇÃO: perspectivas e estratégias de resistências para a Agroecologia

ESPACIO DE CO-CREACIÓN: perspectivas y estrategias de resistencias para la Agroecología

Dia 14 | 14h00 – 17h00 | SALÃO VEREDAS | #Agroecologia2017

ATIVIDADE CANCELADA 

 

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#AT52 – A inteligência da floresta aplicada ao manejo de agroecossistemas: revoluções no campo e nas pessoas

La inteligencia del bosque aplicada al manejo de agroecosistemas: revoluciones en el campo y en las personas

Dia 13 | 14h00 – 17h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Ernst Götsch (Agenda Götsch); Namastê Messerschmidt (Projeto Agroflorestar); Kelli Cristine de Oliveira Mafort (MST); Walter Steenbock (ICMBio); José Cristóvão (Produtor Rural).  Mediadoras: Sofia Carvalho (ASPROSAFS) e Denise Amador (Mutirão Agroflorestal). Relatores: Diego Blum e Juliana Carceres

Continuaçao…. Acompanhe Ao VIVO a palestra do precursor da Agrofloresta no Brasil. Ernest Gostch no Congresso de Agroecologia 2017 em Brasília#agroflorestadofuturo #congressoagroecologia2017 #xcongressobrasileirodeagroecologia #agroecologia2017 #agriculturasintrópica #sintropiaagroflorestal #ErnestGostch

Posted by Agrofloresta do Futuro on Wednesday, September 13, 2017

Créditos do vídeo: Agrofloresta do Futuro

Arquivo: Apresentação Walter Steenbock 

Relato:

Auditório absolutamente lotado, pessoas ocupando até mesmo os corredores e laterais das escadas. Assim inicia a atividade, com as boas vindas das mediadoras, que falam sobre a importância do tema e passam a palavra para o primeiro palestrante.

Namastê Messerschmidt

Apresentou os projetos de agrofloresta que vêm sendo desenvolvidos em assentamentos da reforma agrária em São Paulo e no Paraná, como fruto do importante trabalho que Ernst Götsch desenvolveu no início. Apesar de não planejada previamente, iniciou-se uma parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) que se consolidou de forma natural, afirmou.

De acordo com Namastê, foram implantados pequenos módulos agroflorestais para servir de modelo e funcionar como uma semente para então irradiar ao resto da área do lote. O desenho dos plantios foi inspirado no trabalho do Juã Pereira (Sítio Semente), com verduras, bananeiras e árvores. O palestrante ressaltou que tiveram bons resultados ao perceberem que “as famílias não têm mais agrofloresta – as propriedades se tornaram um organismo agroflorestal”.

Destacou que outro fator importante para o sucesso foi a forma de comercialização, citando como exemplo o caso do Assentamento Mário Lago, em Ribeirão Preto. Após um estudo do MST detectar que apenas 4% dos alimentos do município eram produzidos ali, buscaram trazer os consumidores como parceiros através do sistema de vendas de cestas. Cada consumidor paga uma taxa mensal e recebe uma cesta de alimentos frescos por semana, além de ter possibilidade de visitar os lotes onde os alimentos são cultivados. Passaram também a incluir nomes de árvores na descrição da lista de alimentos (alface-jequitibá, rabanete-gliricídia etc.), buscando conquistar clientes: se comprassem as verduras, ajudariam os agricultores a plantar árvores.

Namastê explicou que não há como determinar quanto se produz num Sistema Agroflorestal. A renda de cada lote com área de 800 m² variou de R$ 500 a R$ 8.000 num período de 6 meses. Para ilustrar isso citou um agricultor do projeto que disse: “uma agrofloresta tem a cara do seu dono”.

Ao final, o palestrante mencionou que o mais importante é empoderar as famílias para replicarem o modelo nos lotes e na vizinhança. Citou outro agricultor, o qual disse que a melhor coisa dos últimos anos foi o casamento do MST com a agrofloresta.


Kelli Mafort (MST)

A palestrante iniciou saudando todas e todos e expôs sua alegria em ver a mesa mediada por duas grandes mulheres. Disse ainda ver com satisfação o auditório cheio, o que demonstra que o tema deve ser multiplicado.

Antes de abordar agrofloresta em si, Kelli falou sobre a escassez e a abundância. Ela ressaltou que a abundância, a qual o ser humano vem buscando há muito tempo,  só pode ser alcançada numa condição de liberdade: “quando há subordinação, a capacidade máxima humana fica comprometida e não é exercida”. Mencionou a importância do processo de cooperação.

“Neste contexto de capacidades humanas restringidas e aprisionadas nas sociedades de classe, chegou-se num ponto em que o sistema está muito doente”, constata Keli. Ela denomina isto como crise sistêmica do capital – diferentemente do que seria uma crise econômica, na qual apenas se criam condições para o capital se recompor. “O que vivemos é algo bem mais profundo: uma crise estrutural sem controle, cujos efeitos são sentidos no próprio corpo”.

Em seguida, Kelli afirmou que a reforma agrária foi perdendo espaço no campo brasileiro, sendo aparentemente uma página virada da história brasileira. Entretanto, povos em luta trazem de volta esta página, afirma. Perceberam que a luta por reforma agrária não pode ser apenas distribuição da terra, apesar de sua importância para o desenvolvimento de qualquer país.

A palestrante citou que em 2014, por ocasião do 6º Congresso Nacional do MST, foi desenvolvido um novo conceito norteador: uma reforma agrária popular, que remete à organização dos trabalhadores sem-terra voltada à construção de espaços conquistados que constituam territórios, comunidades de resistência, onde produzam a própria vida, com uma nova forma de lidar com os bens naturais, sem machismo, sem LGBTfobia e sem analfabetismo (APLAUSOS DA PLATEIA).

Kelli continuou dizendo que nesta nova concepção seguem a luta pela reforma agrária popular. Mas foram ampliando a visão e entendimento de que esse fazer do campo era a mesma luta dos indígenas, dos quilombolas, dos pequenos produtores, das quebradeiras de coco e das demais comunidades tradicionais. Desta forma, afirma que o MST atualmente possui visão mais ampla, onde mobiliza diferentes sujeitos do campo com bandeiras distintas, mas que se encontram na mesma perspectiva de enfrentamento contra coisas que mantém esse sistema tão doente.

A palestrante disse que o casamento do MST com a agrofloresta se relaciona com esta visão da reforma agrária popular e que a agroecologia está há muito tempo no movimento, fomentando várias experiências neste sentido. A agrofloresta representa síntese teórica e filosófica do MST e a necessidade concreta das famílias quando se deparam com essa conquista.

Kelli disse que seu assentamento (Mário Lago - Ribeirão Preto - SP) inicialmente foi colocado na dita capital do agronegócio, com a cidade empurrando o campo para mais longe, após muito embate. Mencionou que diziam ter “conquistado uma derrota”, pois não seria possível viver plantando em 1,5 ha de terra. Alguns agricultores insistiram e acabaram cometendo erros plantando monoculturas e só então perceberam que não daria certo.

A palestrante contou que quando a agrofloresta chegou havia muita crise e desesperança. Vieram os amigos da agrofloresta (neste momento Keli pediu uma salva de palmas ao Ernst Götsch pois o MST é muito grato por sua contribuição). Kelli, ao descrever o que agrofloresta representa na vida das pessoas assentadas, destaca que das 120 mil famílias que estão acampadas e das 350 mil famílias ligadas ao MST, há cerca de mil pessoas diretamente envolvidas na rede de agrofloresta na reforma agrária popular. Ressaltou que a ideia é expandir cada vez mais “mesmo neste momento de diversos ataques por parte do governo, como a medida do presidente golpista de autorizar venda dos lotes de reforma agrária”, afirma Kelli (neste momento, plateia manifesta FORA TEMER).

A palestrante ressaltou ainda que nesse projeto de agroecologia e agrofloresta, é necessário envolvimento e compromisso não só dos consumidores, mas também de toda a sociedade. Acrescentou os benefícios do projeto: melhoria na alimentação do agricultor e de sua família, ganhos na saúde e nas questões sociais – voltaram a se animar, fazer festas, se organizar.

Kelli destacou dois sujeitos como essenciais: os jovens e as mulheres. Ressaltou a importância de experiências concretas na produção e principalmente na comercialização – com destaque para a participação das mulheres nesse sistema.

Finalizou pedindo mais apoio para que esse modelo contagie mais gente e consiga fazer essa semente germinar (momento de muitos aplausos da plateia).

 
Walter Steenbock (ICMBio)

Iniciou a fala dizendo que Marx previu que os empreendimentos familiares acabariam tanto no meio urbano quanto rural. “Contudo, a agricultura familiar no meio rural não acabou, pelo contrário, ela só cresceu”, ressalta, afirmando que maioria dos alimentos que comemos vem da agricultura familiar. Em seguida, mostrou os resultados do Projeto Agroflorestar. A pesquisa realizada pelo projeto priorizou a percepção sobre o que é uma boa agrofloresta em vez de resultados produtivos dos SAFs. As respostas foram múltiplas – uma boa agrofloresta é aquela que “tem cheiro de tatu, que tem terra fofa, que deixa a terra boa para o cultivo, que tem envolvida amor, carinho e afeto, aquelas que é um sistema de vida que aproxima a comunidade”. O pesquisador também avaliou dados quantitativos sobre o sistema: 1) índice de PH da terra com cobertura vegetal de capim seco (2013-2014) que passou de 4,73 CAcl2 para 6,27Cacl2; 2) quantidade de fósforo; 3) densidade média de espécies - cerca de 7.231/ha em uma agrofloresta e entre 3.000 e 4.000 em floresta nativa; 4) indivíduos da mesofauna - 10.781 indivíduos - lesmas, aranhas, etc., sendo que em uma floresta sem manejo a média é de 7500 indivíduos. Walter fez menção a outros dados que se encontram no material de apresentação disponível nesse blog. O palestrante ressaltou ainda a forte diminuição dos gastos das famílias agrofloresteiras com mercado. Citou o caso de um agricultor que, apesar de ter uma boa qualidade de alimentação, seria considerado miserável pelo censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) devido à baixa renda financeira.


José Cristóvão (Produtor Rural)

O palestrante iniciou sua fala com saudações a Ernst e mostrou pesquisa realizada na fazenda Monte Líbano, em Campinápolis, Mato Grosso, na mesma latitude de Brasília com condições de terra e clima semelhantes. Ele mostrou o problema da alimentação do gado nas pastagens no período de seca. O gado emagrece e as indústrias tentam supri-lo com insumos e rações, enquanto a própria natureza poderia contribuir para a solução desse problema, afirma. José mostrou como solução um experimento de cobertura de solo com capim em alternância com o eucalipto, o maracujá e a mucuna. O palestrante mencionou que agrofloresta não tem apenas apelo social e ecológico, mas também econômico, e declarou: “Se não quer agrofloresta pelo social nem pelo ecológico, faça pelo dinheiro pois proteger a natureza é lucrativo”.


Ernst Götsch (Agenda Göstch)

Ernst iniciou sua fala trazendo uma visão filosófica do ser humano enquanto uma espécie dentro de um macroorganismo. A partir de um verso de Lao Tse “As coisas não são para se fazer, elas estão sempre feitas” ele entende como mensagem fundamental que tudo que aparece tem uma função específica, serve a algo. “Nessa lógica, cada indivíduo de cada geração, de cada espécie vem equipado para sua função, equipados para comunicar-se com todos os outros; e eles fazem isso” defende Ernst. Disse que é irônico que o Homo sapiens tenha essa denominação e fundamentou com alguns dados. Em 76, quando chegou ao Brasil, terras nordestinas da caatinga e terras no Paraná produziam três colheitas anuais de milho ou de feijão. Hoje em dia, nenhuma terra no Brasil produz mais de três colheitas, afirma. “O ser humano é a única espécie que gasta dinheiro, cinquenta por cento dos seus esforços (polícias, legisladores) para matar seus irmãos. Não existe espécie com comportamento tão idiota” declara Ernst. Para ele, isso equivale a ser bactérias bucais e intestinais com comportamento desarmonioso e danoso em um macro-organismo. Com base nessas ideias, Ernst propõe duas inversões. Geralmente, a economia decide o que fazer com os ecossistemas e a tecnologia; ele propõe que o ecossistema saiba o que fazer com as tecnologias e a economia. E propõe que a filosofia (a ciência da sabedoria, em sua opinião) pense o ser humano e o que fazer com o social, a economia e a agricultura. Ele afirmou que essas áreas estão interligadas e no centro delas está o agricultor que deve ser o primeiro a ser consultado porque ele é o primeiro a saber se há algo errado. Ernst concluiu sua fala dizendo que o universo inteiro é baseado no amor incondicional e na cooperação e não na concorrência e na competição fria: “enquanto não entendermos isso, não teremos paz”. Para finalizar contou uma história a partir da mitologia grega: “ Os homens começaram um dia a pensar e fazer suas próprias leis, desobedecendo as leis universais. Então, começaram a brigar e Cronos, desceu do Olimpo no ímpeto de matá-los. Mas quando olhou os homens mudou de ideia. Deixou-os viver dizendo que o castigo do homem seria buscar sua outra parte sem poder encontrá-la: ‘as leis do macroorganismo cuja parte tu és são dadas, nem a nós, deuses do Olimpo, cabe fazer nossas leis’ ”. O palestrante agradeceu e pediu para “sermos úteis nos comportando bem e vivendo conforme as leis universais, meio pelo qual voltaremos a ser seres queridos pelo planeta Terra e assim voltaremos a viver no Paraíso”.


Participação da plateia 

Pergunta para Kelli: “Agrofloresta em larga escala resulta em trabalho assalariado? Isso pode colocar em risco a reforma agrária popular”? Kelli respondeu que quer colocar pimenta no assunto de larga escala. Busca-se pela agrofloresta nem sempre pensando somente no lote individual, mas em toda a área, afirma. Ressalta que se aprendem lições com a larga escala da Fazenda da Toca e do José Cristóvão. Declara que “sobre os direitos, medidas de antes e depois do golpe aceleram as coisas contra os territórios, o que se observa com o aumento dos assassinatos no campo pela questão agrária e ambiental”. Agrofloresta é também uma forma de contrapor esse modelo que chamam de agronegócio, conclui.

Pergunta para Ernst: “Nos pampas, que nunca foram floresta, e sim pastagens nativas, como praticar a agricultura sintrópica”? Ernst respondeu que a pergunta tem um erro – “os campos nativos também se originaram pelo homem, que tocava fogo para ter mais pasto para veados, assim como búfalos em outros locais da América. A medida que você tira o piromaníaco dos pampas, ali tende a voltar a ser floresta”. Ao comentar sobre eventual descaracterização de alguns ecossistemas (tais como o cerrado) devido à aplicação de seus princípios, Ernst disse: “onde trabalho descaracterizo o ambiente. O Saara vira savana, o cerrado vira floresta... essa é a única forma de sobreviver. ”

Pergunta para Ernst: Qual fonte de recursos seria correta do ponto de vista ético? Qual visão de mundo o levou a fazer parcerias com transnacionais? Ernst respondeu que não possui restrições para trabalhar para que as leis universais sejam atingidas. Disse ainda que todo mundo que faz uma coisa boa em favor da vida no planeta pode ajudar. “A divisão entre o bem e o mau, faz parte daquele grande problema que sofremos naquela parábola” afirma. Conclui que não existe bem e mal – existe função. Completou: “Olhe primeiro para você e depois tudo está bem feito”.

Pergunta para Ernst: em um Sistema Agroflorestal (SAF) sem animais em que frutas são retiradas constantemente, como recompor minerais? Ernst respondeu: “Não precisa ler livro para isso, só pensando mesmo. Como você pode se explicar que durante centenas e centenas de milhares de anos pode-se ter sistemas fortes em locais íngremes, com vento levando pra baixo, água, nutrientes lixiviados e mesmo assim sempre tem vegetais disponíveis? As coisas não estão para fazer - estão sendo feitas. O planeta não está errado...”

Pergunta para Ernst: “Como melhorar índice de sucesso de projetos de restauração ecológica e desenvolver ‘áreas de inclusão permanente’”? Resposta de Ernst: “Leis impositivas não funcionam, tem que ser incentivadoras e gratificantes para o agricultor. Agrofloresta é muito mais benéfica do que uma regeneração natural.”

Pergunta para Ernst: A concentração de terras não é um desrespeito às leis universais? Resposta de Ernst: “Toda sociedade que esgotou seus recursos passou pela fase de concentração de terras. Acho que a pergunta já está respondida.” (risos da plateia)

Fotos da atividade:

 

Facilitação gráfica:

 

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#AT33 – Agroecologia, agrobiodiversidade e valoração das funções ecossistêmicas

Agroecología, agrobiodiversidad y valoración de las funciones ecosistémicas

Dia 13 | 10h00 – 12h00 | AUDITÓRIO JATOBÁ | #Agroecologia2017

Responsável(is): Gloria Guzman Casado (Universidad Pablo de Olavide – Espanha); Santiago Sarandón (Universidad Nacional de La Plata – Argentina); Georgina Catacora (SOCLA – Bolivia); Coordenador: Walter Pengue (The Economics of Ecosystems and Biodiversity –TEEB / Intergov

Arquivos:

Apresentação de Gloria Guzman Casado

Apresentação de Santiago Sarandón

Relato:

Esta atividade contou com apresentações orais dos quatro convidados. Ao final, foi aberta a participação da plateia para comentários e perguntas. Abaixo, destacamos os principais pontos de cada etapa da atividade.

1ª apresentação, de Walter Pengue, com o tema "Agroecologia, agrobiodiversidade e valoração das funções ecossistêmicas":

- Afirma que a humanidade precisa dos recursos naturais para obter todos os bens que consome, os quais têm sua origem a partir do solo, água, biodiversidade e serviços ambientais.

- Problematiza os impactos negativos da agricultura industrial, como a expressiva perda de biodiversidade, mudanças climáticas e danos aos ciclos hidrológicos e de nutrientes, entre outros.

- Ressalta o drástico aumento populacional nos últimos séculos, com estimativas de alto crescimento para as próximas décadas, especialmente a parcela urbana.

- Constata que enquanto o modelo da economia marrom desconsidera os limites ambientais para o crescimento econômico, o da economia verde propõe um desacoplamento entre o aumento do bem-estar humano com a demanda de recursos e impactos ambientais (ver arquivo da apresentação).

- Afirma que a obesidade causa mais danos do que o cigarro e os conflitos armados.

- Afirma que os efeitos dos agroquímicos custam 167 bilhões de dólares por ano.

- Ressalta a importância de se pensar metabolicamente.

- Diz que há alta demanda por recursos de base.

- Aponta que os intangíveis ambientais - solo e água virtual - não são valorados economicamente.

- Diz que há terra arável disponível somente nos países em desenvolvimento.

- Defende a necessidade de se mudar a visão para reparar os danos ambientais.

- Aponta os fluxos visíveis e invisíveis da produção agrícola entre sistemas humanos, agroalimentares e ecossistêmicos.

- Defende o papel da Economia Ecológica para dar visibilidade e valoração aos serviços ecossistêmicos e da biodiversidade, negligenciados em outras abordagens econômicas tradicionais.

- Destaca a importância da participação dos campesinos e populações tradicionais

- Finaliza dizendo que é hora de agir para resolver os problemas socioambientais.


 


2ª Apresentação, de Gloria Guzman Casado, com o tema "Aplicação do Metabolismo Social Agrário à valoração das funções ecossistêmicas das variedades tradicionais".

- Diz que a investigação é muito útil para compreender, recuperar e manter os serviços ecossistêmicos que as propriedades podem prestar.

- Afirma que o metabolismo social agrário estuda fluxos de energia e materiais que constituem o funcionamento do agroecossistema. Estes fluxos devem satisfazer as necessidades da sociedade e também manter a qualidade dos elementos de fundo, como biodiversidade, solos e outros. Isso requer diminuir os insumos de origem fóssil e fortalecer os fluxos internos - leguminosas e reciclagem de resíduos.

- Destaca que o escopo do estudo é a comparação entre uma variedade tradicional e outra moderna de trigo em diferentes sistemas de manejo - tradicional (agroecológico) e moderno.

- Esclarece que variedades são consideradas componentes estruturais dos agroecossistemas pois modificam seu funcionamento, afetando os elementos fundo e consequentemente os serviços ecossistêmicos associados.

- Afirma que a variedade tradicional sob manejo tradicional apresentou produtividade de biomassa (palha, grãos e raiz) 53% maior. Mais palha permite incorporar mais biomassa ao solo, interessante em especial para regiões semiáridas.

- Aponta os serviços ecossistêmicos e benefícios da variedade tradicional de trigo sob manejo agroecológico em regiões semiáridas: maior aporte de proteína à sociedade; aumento do sequestro de carbono; melhora da fertilidade do solo com menores perdas de nitrogênio por lixiviação; levam à diminuição da biomassa de plantas espontâneas e ao aumento de sua diversidade.

3ª apresentação, de Santiago Sarandón, com o tema "Agrobiodiversidade, Agroecologia e Agricultura Sustentável. Valoração e importância em sistemas extensivos"

- Afirma que a agrobiodiversidade presta diversos serviços ecossistêmicos.

- "Sou engenheiro agrônomo e na faculdade nunca me contaram nada sobre biodiversidade", disse Santiago Sarandón.

- Mostra imagens de quando se busca na internet o termo 'biodiversidade' aparecem animais selvagens, plantas, insetos e flores. Logo em seguida, mostra imagens de quando se busca o termo 'sistemas agrícolas' aparecem grandes áreas de monoculturas (ver arquivo da apresentação).

- Afirma que há três níveis de biodiversidade: genética, de espécies e de ecossistemas.

- Considera a biodiversidade fundamental para a agricultura como provedora de recursos biológicos (genes) e serviços ecológicos.

- Resssalta que na conservação ex-situ de agrobiodiversidade (como os silos de sementes no Ártico), apenas genes são protegidos - ou seja, apenas um dos três níveis de biodiversidade.

- Constata que a agricultura é a atividade que mais impacta ecossistemas, já que metade dos ecossistemas terrestres são agroecossistemas.

- Diz que 90% da demanda por calorias no mundo é obtida pelo cultivo de 15 plantas.

- Aponta que dois terços da alimentação humana atual é provido por apenas três espécies: arroz, milho e trigo.

- Diz que há forte redução do número de variedades cultivadas. Grande quantidade de variedades de milho foram perdidas em apenas um século. Monocultivos simbolizam a uniformidade da agricultura moderna.

- Indica os níveis de agrobiodiversidade: espécies, lotes, propriedades e regiões.

- Apresenta os componentes da diversidade biológica agrícola ou agrobiodiversidade:
a. recursos genéticos para alimentação e agricultura
b. serviços ecológicos proporcionados
c. fatores abióticos
d. dimensões socioeconômicas e culturais.

- Constata que a biodiversidade parece ser a base ecológica de outro modelo de agricultura menos baseada em insumos.

- Afirma que apesar de seu conhecimento poder ser comum, científico ou teórico, sua aplicação é local, situada e empírica.

- Apresenta os serviços ecológicos que a agrobiodiversidade proporciona: ciclagem de nutrientes, regulação de pragas e doenças, polinização, manutenção e melhora da fauna e flora silvestres e os habitats locais em suas paisagens; manutenção do ciclo hidrológico; controle de erosão; regulação do clima e absorção do carbono. "Quantos engenheiros se preocupam com isso?", questionou Santiago Sarandón.

- Destaca as dimensões da diversidade biológica em um agroecossistema: genética, espécies, vertical, horizontal, estrutural, funcional, temporal - ressalta a relevância da diversidade funcional.

- Diz que há diferentes escalas para avaliar se um agroecossistema tem boa biodiversidade.

- Aponta as práticas para aumentar a biodiversidade na propriedade: manejo da biodiversidade cultivada (consórcios); ambientes seminaturais (reservas de biodiversidade).

- “Ao se analisar indicadores de agrobiodiversidade, não devemos nos prender aos números em si e sim à ideia, já que cada bioma e ecossistema apresenta um grau diferente de riqueza de espécies” afirma Santiago Sarandón.

- Afirma que o 'valor' da biodiversidade é intrínseco, utilitário, de opção, e funcional. Exemplo citado por Sarandón: um estudo sobre a relação entre a proporção de terreno sem cultivo de colza e rentabilidade mostrou que 32,7% do terreno deve ficar sem plantio pois a colza precisa de inseto para polinizar e dar semente. Logo, não vale a pena plantar em toda a área disponível.

- Defende que a biodiversidade tem que ser conservada in-situ para que mantenha suas funções ecológicas, diferentemente do que papel desempenhado por bancos de germoplasma.

- Conclui que: a biodiversidade é essencial para agricultura; a agricultura moderna gera um impacto negativo sobre a agrobiodiversidade e biodiversidade; é necessário detectar os principais componentes da agrobiodiversidade responsáveis pelas funções ecológicas e compreender os impactos que os diversos usos da terra têm sobre estes componentes; compreender que o valor da biodiversidade supera amplamente o preço de alguns de seus elementos.


 


4ª apresentação, de Georgina Catacora, com o tema "Agrobiodiversidade e sua valoração desde o aporte alimentar - análises de resultados e aspectos metodológicos":

- Aborda a dimensão mais social da agrobiodiversidade.

- Compreende que agrobiodiversidade é a diversidade biológica silvestre e domesticada relevantes para a alimentação e agricultura.

- Diz que há múltiplas funções da agrobiodiversidade.

- Aponta que a caracterização da agrobiodiversidade em diferentes sistemas de cultivo mostra que o agroecológico é o mais biodiverso nos parâmetros analisados.

- Estudo demonstra que quanto maior a agrobiodiversidade, maior a produtividade e a colheita de nutrientes (quantidade e diversidade).

- Resgata as definições de segurança alimentar ao longo do tempo: disponibilidade (década de 70); acesso físico e econômico (década de 80); acesso físico, social e econômico (década de 90).

- Destaca os componentes da segurança alimentar: disponibilidade, acesso, estabilidade e utilização.

- Afirma que o foco no 'acesso' das primeiras concepções de segurança alimentar levou à busca pela produtividade e especialização agrícola.

- Conclui que: os sistemas agrobiodiversos são mais eficientes em termos de produtividade e aporte de nutrientes; produtividade de cultivos é insuficiente para valoração adequada de sistemas produtivos a partir da perspectiva alimentar; o atual enfoque de segurança alimentar é limitado para valorar o aporte real dos sistemas agroecológicos.


 


Participação do público gerou as seguintes questões e comentários:

- Santiago Sarandón acrescenta que a agrobiodiversidade está muito ligada à cultura - e não somente ao físico e biológico. Destaca o conhecimento dos agricultores. Diz que quando os agricultores são perguntados sobre quais plantas possuem na propriedade, eles não mencionam as espécies que não são comercializadas.

- Plateia pergunta para Gloria Casado: como considerar escala temporal nas pesquisas? R: "Três anos é pouco para avaliar o fator tempo (...) mas agora fico motivada em buscar registros históricos para realizar este tipo de análise."

- Plateia pergunta para Santiago Sarandón: quais medidas de agrobiodiversidade são mais robustas? R: "É difícil agregar muitos indicadores e citou o PRB (potencial de regulación biótica), formado por 15 indicadores."

- Membro da plateia ressaltou a importância da defesa do território frente a modelos degradantes e destacou que boa parte de seu país está tomado pela mineração.

- Plateia pergunta para Georgina Catacora-Vargas: além da quantidade, foi estudada a qualidade nutricional dos alimentos na sua pesquisa? R: "Em segurança alimentar e nutricional há os seguintes aspectos: quantidade, diversidade e qualidade. Eles caminham juntos”. Cita um estudo sobre análise composicional de tomates agroecológicos e convencionais no qual constatou-se que os primeiros eram mais nutritivos. “Qualidade não é só nutriente, há também a questão dos resíduos, questões esotéricas e espirituais. Aprendi de uma chef de cozinha que a relação sentimental com o alimento e sua memória se dá pelo olfato. Ainda não estamos considerando os aromas e possíveis relações com valores culturais e emocionais. Sempre nos sentimos felizes ao sentir o cheiro e comer comida de vó. Há que se considerar o que está por trás do prato e como aquele alimento foi produzido." (Aplausos da plateia).

 -Giordano Viola, membro da plateia, pergunta para Gloria Casado: Como a variedade tradicional de trigo consegue colocar mais nutrientes no grão? Houve uma abordagem genética? Estudou-se qual enzima faz isso? R: "Não entramos no nível genético não por falta de relevância, mas por não ser prioridade da nossa pesquisa." O membro da plateia replica levantando a possibilidade da menor concentração de nutrientes no grão de trigo da variedade moderna ser proposital, como uma estratégia do mercado para obrigar as pessoas a consumirem mais. Ressalta ainda a importância da agroecologia em estudar isto mais a fundo.

Foto da atividade:

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