#AT31 – Juventude, Educação e Agroecologia: Desafios para a permanência das Juventudes no Campo e Sucessão Rural

Juventud, Educación y Agroecología: Desafíos para la permanencia de las Juventudes en el Campo y la Sucesión Rural

Dia 13 | 10h00 – 12h00 | GUEROBA | #Agroecologia2017

Responsável(is): Mônica Bufon Augusto (CONTAG); Elisa Guaraná de Castro (UFRRJ); Natália Faria de Moura (Prefeitura de Sete Lagoas-MG); Coordenador: Giuseppe Bandeira (GT de Juventudes da ANA)

Arquivos: 

Carta dos Movimentos de Juventude do Campo

Apresentação Natália Faria

Relato:

Atividade de exposição e discussão sobre Juventude, Educação e Agroecologia: panorama geral dos avanços e desafios existentes com jovens no campo e sua permanência. Fundamentou-se nessa mesa a importância da temática  devido ao contexto histórico de saída dos jovens do campo e a desvalorização das atividades rurais, sendo uma grande ameaça para a vida digna no campo.

Mesa composta por Guiseppe Bandeira, Elisa Guaraná, Natália Faria, Mônica Bufon e Diana Hahn. Compartilharam seus estudos, pesquisas e vivências com a juventude no campo e posteriormente abriram para troca com o público. A metodologia adotada inicialmente foi o “cochicho”, onde pequenos grupos (de até 10 pessoas) foram formados para diálogo do tema e, posteriormente, intervenções gerais dos participantes para todos os presentes.

Contribuição inicial de Guiseppe Bandeira:
Guiseppe Bandeira, integrante do GT de Juventude da ANA e ABA coordenador da mesa, deu abertura com a leitura da Carta dos Movimentos de Juventudes do Campo, das Florestas e das Águas, elaborada em 2016, em favor do direito da juventude construir nos territórios rurais suas vidas e o campo que se deseja. A carta ressalta pontos estratégicos para estruturação de um Plano Nacional de Juventude e Sucessão Rural que promova oportunidades de autonomia dos jovens na área rural, coerentes com suas demandas.


Natália Faria de Moura:
Natália, geógrafa, atua com a juventude rural do Estado de Minas Gerais e comunidade Quilombolas. Ela compartilha a sua experiência com a pesquisa desenvolvida, em 2015, em um local que vive uma transição agroecológica, na região norte da Zona da Mata (MG). O objetivo da pesquisa foi sistematizar reflexões sobre a permanência e protagonismos da juventude no campo. “Quais os motivos que levam os jovens a ficar? A maioria dos estudos se desenvolve a partir dos motivos de saída dos jovens e não o contrário” constata a pesquisadora.  Ela concedeu voz e escuta aos jovens para pontuar os fatores que os atraem ao campo. O que atraem os jovens, geralmente, também, é o que repulsa, as conclusões apontaram, de forma geral.

Os fatores predominantes da permanência são: alcance de autonomia financeira; autonomia para desenvolver os projetos no campo; oportunidades de vivenciar experiências de educação no campo; o acesso às políticas públicas e as formações em feminismo.

Os fatores predominantes de repulsa são: a falta de autonomia financeira e na propriedade; busca por outras formações profissionais; dominância da monocultura e falta de direito à terra. As mulheres possuem maior dificuldade de permanência, pois não há autonomia e condições de se manter no campo. Às vezes os jovens possuem vontade de permanecer no campo, mas com outros modelos de atuação que não sejam diretamente manejo da terra, mas se entendendo como sujeito do local capaz de transformações.

Elisa Guaraná:
Elisa, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRRJ), com experiência na área de sociologia e antropologia com ênfase rural. Inicia questionando o que é sucessão rural e seus desafios. Afirma a necessidade de se pensar um novo modelo de sociedade distinto do construído. Num panorama geral dos últimos 15 anos é perceptível a construção de uma juventude forte em que a atuação é um ato político. Houve, também, um processo de reconhecimento social da juventude rural com entendimento de juventude diversa, do campo das águas e das florestas.

Foram citados alguns marcos importantes nessa construção da juventude. Dentre eles alguns esforços que tiveram peso no governo Lula/Dilma, como o Planapo (Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica); Pronara (Programa Nacional para Redução do Uso de Agrotóxicos), REUNI (Reestruturaçao e Expansão das Universidades), Decreto de Educação do Campo, Plano Nacional de Juventude e Sucessão Rural e Decreto Nacional de Sucessão Rural.

Todo esse amadurecimento de 15 anos culminou em avanços significativos como reconhecimento social da juventude respeitando a diversidade de gênero, racial e de etnia com uma formação da primeira geração de jovens do campo como atores políticos, que devem se fortalecer e continuar a realizar essa luta.

Elisa reforça também os fatores negativos que não avançaram nesse período. Como o preconceito existente nas áreas urbanas com jovens que permanecem na área rural, o contexto histórico de formação dos pais desses jovens do campo, desvalorização por parte da família e da comunidade, ausência de autonomia e participação na gestão familiar, ausência de uma política integrada e nacional.

O desafio atual, após o golpe na política com redução drástica no orçamento para as políticas rurais, é avançar no reconhecimento social da agricultura familiar como uma estratégia para agroecologia.  

Mônica Bufon e Diana Hahn, Contag:
Monica Bufon, secretária de Jovens trabalhadores e trabalhadoras rurais e Diana Hahn Diretora de Juventude da Contag do Rio Grande do Sul. As duas como representantes da Contag fizeram uma apresentação em conjunto devido a uma limitação física de voz da palestrante Mônica.

Na exposição de ideais foi colocado que um dos desafios dos projetos de agroecologia é considerar a diversidade de etnias, povos tradicionais, regionalismo e também, a diversidade ambiental do país. A força da juventude do campo aponta desafios diferentes da agricultura familiar. Atualmente, há um interesse cada vez maior da juventude nos espaços de campos e nas políticas publicas.

Muitas barreiras são evidentes, barreiras que travam a efetivação das políticas, como exemplo, o Plano  Nacional de Juventude e Sucessão Rural que, apesar da existência, está paralisado. Há necessidade de retomá-la para sua consolidação.

Um novo modelo é capaz de influenciar a forma de produção e comercialização dos alimentos que seja protagonista em contraposição ao modelo dominante. Para atingir um grau de alcance e consciência dos jovens para a visão agroecológica deve-se investir nos processos de educação. Mesmo com o cenário atual de redução de orçamento, a juventude deve cobrar seus direitos, deve ser um canal de comunicação.

Uma estratégia seria promover a realização de campanhas de divulgação, congressos e espaços de diálogos entre as pessoas para alcance do reconhecimento social da agricultura familiar.


Dinâmica do Cochicho:
Nessa atividade houve formação de grupos com até 10 pessoas, para diálogos e compartilhamento de experiências. Foi perceptível uma grande interação do público. Não sendo possível compilar as trocas de todos os grupos. Abaixo segue relatos de pequenos trechos de alguns grupos.

Entre as contribuições dos pequenos grupos surgiram questionamentos:

- como conquistar a juventude do campo, levando em conta as dificuldades burocráticas e falta de recursos?

- como incidir e lutar pelos direito a terra, e no processo de empoderamento das comunidades?

Foi exposta a afirmativa de que a luta atual das jovens do campo e da cidade é pela sobrevivência

Entre as experiência compartilhadas segue o relato de uma jovem do Instituto Federal do Sul de Minas e membro do MST, filha de agricultores que cursou pedagogia, mas depois teve acesso ao movimento e hoje se entende como parte desse processo, optando por retornar aos estudos e cursar agronomia. Ainda sofre muito preconceito da comunidade, dos professores, sentindo resistência até mesmo dos pais que são agricultores que não possuem renda proveniente diretamente de sua terra e trabalham em outra fazenda para ter renda.

Também foi apresentada a experiência de uma pesquisadora que compartilha a solução aplicada com uma comunidade de agricultores do estado de Tocantins. A estratégia utilizada para acessar os jovens locais foi usar a comunicação, com estímulo para os jovens divulgarem as atividades agroecológicas realizadas na comunidade. Nesse processo houve o reconhecimento do valor das atividades no campo, valorização das origens, mesmo se a escolha for distinta.

Perguntas, reflexões e contribuições da Plenária:

- Experiência do Mato Grosso do Sul: “meus avós eram do meio rural e tiveram que vender a terra e os meus pais também foram pra cidade, mas há três anos voltou para o meio rural, e o jovem teve q sair para cidade tentar a vida, hoje é serralheiro, mas está desempregado, e o desejo é voltar para o campo, luta para comprar uma terra”.

- Jovem do Maranhão graduado em pedagogia da terra e educação do campo acredita que a ausência de uma educação contextualizada no campo construiu uma imagem de retrocesso dos camponeses. O essencial é construir uma imagem de pertencimento para fortalecer o novo modelo, respeitando a diversidade e pluralidade de ideias e aptidões no campo, com introdução de cultura, lazer e outros.

- Jovem do Acre, servidora do ICMBio,  acredita que saída do jovem para a cidade é um desafio mundial  deve-se lutar pelos espaços com tomada de decisão; o jovem é faixa etária com maior criatividade, com potencial de criar soluções e colocar em prática.

- O jovem necessita enfrentar a crise após o golpe, o governo cortou os recursos. Por isso, importante pensar formas criativas e cotidianas para além do estado e ampliar o diálogo entre todos.

-Participante questiona e provoca todos ao indagar: “cadê a luta da juventude? Não tenho visto os jovens fazer a diferença pelo futuro que desejam”.

- Em resposta a colocação anterior, uma jovem afirma que a juventude tem lutado, está ocupando os espaços que têm por direito, que provocações são necessárias para que os jovens levantem sua voz.

Em coro os jovens finalizam atividade com um grito de guerra e reafirmam sua luta: #Juventude e agroecologia! #Alutaétododia !

Foto da atividade:

 

Facilitação Gráfica:

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#AT26 – Painel I – Sem Feminismo não há Agroecologia

Panel I – Sin Feminismo no hay Agroecología

Dia 13 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Emma Siliprandi (GT Mujeres, Agroecologia y Economia Solidária de CLACSO – Espanha); Sylvia Vidal (AMA-AWA); Sarah Luiza da Marcha Mundial das Mulheres; Larissa Henrique Nunes (REGA); Maria José Morais Costa  (Secretaria de Mulheres da Contag); Maria do Socorro Santana (representante das quebradeiras de coco – MA- PI- PA); Rosangela Piovizani (MMC-DF); Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE); Elisabeth Cardoso (CTA-ZM e GT de Mulheres da ANA) . Coordenadora: Laetícia Jalil (ABA)

Relato

Mística de abertura:

Apresentação da peça “Bendita dica” Companhia Burlesca;


Laetícia Medeiros Jalil - GT de gênero da ABA

Comunicou o ato que houve pela manhã, no Auditório Babaçu, a #AT27 Painel II – Memória da Agroecologia, em que mulheres se mobilizaram para fazer uma intervenção na atividade em que só havia homens brancos falando sobre a memória da agroecologia, sem representatividade de mulheres, da juventude, de grupos indígenas e quilombolas. As mulheres se dispuseram a fazer moção de repúdio à mesa branca, racista e machista, patriarcal e heterossexual, pela manhã.

Emma Siliprandi (GT - Mulheres agroecologia y economia solidaria de CLACSO - Espanha)

A palestrante começa sua fala pontuando a presença das mulheres em todas as áreas vinculadas à agroecologia: produção agrícola, comercialização, transmissão de conhecimentos, criação de animais, agroextrativismo, pesquisadoras, pecuária etc. Contudo, devido às atribuições de gênero na sociedade, as mulheres são invisibilizadas e têm que fazer um maior esforço para serem vistas, ouvidas, contempladas. Mesmo nessa condição, a maneira diferenciada pela estrutura de gênero com que as mulheres olham a terra, cuidam da terra, está em consonância com a diversidade, que é um princípio fundamental da agroecologia. Por que sem feminismo não há agroecologia? Porque o feminismo é nossa ferramenta teórica, que ajuda a entender como aceitamos determinadas inferioridades, e a entender a forma diferenciada com que a opressão generalizada se manifesta em diversas culturas. Um movimento agroecológico que não tem a visão feminista é incompleto.

Sylvia Papuccio de Vidal da AMA-AWA

Sylvia inicia sua fala pontuando o feminismo como uma corrente teórica e plural dos movimentos sociais, destacando o ecofeminismo como um projeto macro. Sempre que se fala em determinadas “atividades das mulheres” dentro da agroecologia, como buscar água, lenha, produção de alimentos, se está falando em feminismo. Em sua fala, sintetiza que existe uma semelhança entre projetos de dominação do capitalismo e das mulheres: a violência globalizada, a produção extrativista, o trabalho grátis e a degradação ambiental se convertem em questões feministas que nos ajudam a compreender os vínculos que existem entre a dominação delas e da natureza, pois o capitalismo precisa dessa estrutura para se manter. O feminismo não é visto como problemas entre os homens, e sim como problemas entre os homens e as mulheres. Enquanto a masculinidade é colocada como força, ação e determinação, os homens estão expostos a situações constantes de impotência, falta de emprego, precariedade, desarranjos comunitários, familiares, escassez de recursos, e não tem acesso a diversas formas de vida. Por isso, devemos combater a pedagogia da crueldade e substituí-la pela pedagogia do cuidado. Nesse ponto, afirmou Silvia, as mulheres têm muito para contribuir com a humanidade, a natureza, e uma vivência sustentável. É necessária uma discriminação positiva; incluir as mulheres nas práticas produtivas, comerciais. Já se sabe que são muitas, que fazem, estão em todas as áreas. As políticas agroecológicas devem incluir as demandas dos feminismos. O feminismo que reclama a agroecologia latino-americana não é um feminismo radicalizado, mas um feminismo que reconhece a violência entre mulheres e a natureza.

Sarah Luiza - Marcha Mundial das Mulheres

A palestrante inicia sua fala pontuando que a pactuação entre as lutas do feminismo e da agroecologia partem das experiências das mulheres nos seus lugares e territórios, mas também estão conectadas com análises anticapitalistas, antirracistas e antilesbofóbicas. Segue falando sobre como o capitalismo – crise e reestruturação, e novos mecanismos de controle sobre nossos corpos e territórios tem sido utilizados com o aumento de diferentes formas de violência e controle. Disse ainda que um deles foi um Golpe de estado que vários países estão vivendo, inclusive no Brasil – um grito de “FORA TEMER” surge na plateia. Diz ainda que as mulheres precisam ser ouvidas, ser reconhecida a contribuição para a história e a memória da agroecologia, para um mundo melhor, mais justo e mais igualitário. Luiza afirmou que não podemos admitir violência contra mulheres em lugar nenhum, é necessário haver um enfoque sistêmico de verdade, precisa-se considerar as dimensões ecológica, politica, ética, e não se pode acreditar nas estruturas estruturadas em bases desiguais de poder. A agroecologia não pode ameaçar a produção das mulheres quando elas saem para participar da política, estas não podem ser ameaçadas quando saem de casa para estudar, pensar, refletir, atuar, “não podem dar menos importância para o que falamos, pensamos”, não se pode aceitar que elas comam menos porque é esperado que elas cuidem dos outros e pensem menos nelas que nas famílias, a agroecologia precisa ver e ouvir todas as pessoas, ver e ouvir todas as mulheres; Por isso que SEM FEMINISMO, NÃO HÁ AGROECOLOGIA!

Finaliza convocando o público a cantar uma música:

“No batuque do tambor, a revolta social,

nós somos as mulheres da marcha mundial,

contra a pobreza e opressão do patriarcalismo patriarcal,

nós vamos provocar uma revolução mundial

Ê mulheres, mulheres, mulheres libertárias, ê mulheres feministas, revolucionárias”

Larissa Henrique Nunes da Rede do Grupos de Agroecologia (REGA - Rede dos Grupos de Agroecologia do Brasil):

Larissa começa relatando o espaço da REGA como um espaço de princípios da luta agroecológica (autogestão, autosoberania, anticapitalista) e, rememora o encontro que foi realizado ontem pelas mulheres do grupo. Tem a visão de que, se não houvesse feminismo dentro da agroecologia, esta seria um espaço ficcional, pontuando que a agroecologia é indissociável entre agroecologia, feminismo e a luta anticapitalista. Disse que se sem feminismo não há agroecologia, que é necessário entender as mulheres que compõem a agroecologia: estudantes, trabalhadoras, mulheres jovens e experientes, de todas as regiões do Brasil, a diversidade étnica, de classe. Larissa pergunta: Para fazer essa visão justa a todas as mulheres, pensamos o que a juventude e todas as mulheres precisam, tanto na esfera pessoal quanto na esfera coletiva? Pontua ainda a contribuição de mulheres negras na roda de conversa, para a fala e para não se construir a agroecologia como uma pauta universitária e branca. Para sair do ambiente ficcional de autogestão e autosoberania, diz ser necessário pensar a formação dos homens e das mulheres, a relação entre mulheres brancas, mulheres negras e mulheres indígenas, e toda essa estrutura é ignorada quando a gente fala em legitimar a fala das mulheres em um mesmo espaço. E a partir dessa real autogestão e autosoberania, levar essa prática para fora, para os ambientes institucionais.

Maria José Morais Costa da Secretaria de Mulheres da Contag:

A palestrante começa sua fala a partir da sua trajetória pessoal como testemunho da história da agroecologia: desde muito cedo começou a trabalhar como agricultora familiar, no interior do estado do Piauí, demorou para entender o papel da mulher como agricultora familiar e na agroecologia; não eram reconhecidas (mães, irmãs) e nem valorizadas. Quando muito, eram vistas como ajuda; a participação era na produção; na comercialização pouco participavam, mesmo sendo responsáveis pelas atividades dos produtos que geravam a renda. Nos sindicatos e associações não eram proibidas, mas também não eram incentivadas a trabalhar nessas instâncias. Maria José diz que sua experiência enquanto mulher mostra que são as mulheres que contribuem para os avanços da tecnologia, são as mulheres que são as defensoras e guardiãs da biodiversidade e as responsáveis pelas ervas medicinais. Acredita que a fala em feminismo e agroecologia passa sem dúvida por fortalecer a organização entre mulheres e visibilizar as contribuições individuais e coletivas. Há necessidade de manter as políticas públicas que as mulheres conquistaram e que estão sendo arrancadas, como pelo ministério do MDA, a própria SPM, reforma da previdência etc. Nessa hora, o público aplaude calorosamente o comentário de Mazé. Ela continua: “nessa escalada da retirada de direitos, não podemos recuar, temos que continuar firmes na luta, qual projeto de Brasil queremos? Todos esses golpes que têm acontecido, têm afetado diretamente a classe trabalhadora, sobretudo, nós mulheres trabalhadoras rurais, indígenas, quilombolas, que estão sofrendo tudo, esse desmonte que tem sido arrancado de nós; nem por isso estamos recuando, mas temos cada vez mais afirmado qual é o Brasil que queremos com agroecologia, com feminismo”

Maria do Socorro Santana – representante das quebradeiras de coco - MA- PI- PA

Inicia a fala com: “Nós somos as protagonistas da agroecologia de verdade! Somos nós que plantamos, conservamos e aguamos para ter o bem-viver, nós que somos as donas dessas atividades comprovadas”, e fala que as mulheres são discriminadas justamente por isso. “Porque eu quero pé de caju e meu marido quer plantar capim”. Diz que o gênero feminino é o mais forte que existe! Enfrentam grandes dificuldade com a presença do capitalismo que devora tudo que as mulheres plantam, “nós precisamos do feminismo para manter a agroecologia, e a vida porque somos nós mulheres que somos a metade da população, mas também somos a mãe do restante da outra metade, não tem nenhum fazendeiro, parlamentar, nem um toma tudo, ninguém que nasceu de outro homem, então, nós somos orgulhosas, companheiras! ”. “Vamos conquistar nossos direitos de volta! De plantar, produzir e colher, queira, ou não queiram os governantes, a agroecologia sempre existiu e sempre vai existir no campo, nas florestas, nas águas, por mulheres fortes que somos nós.”

Rosângela Piovizani – Movimento de Mulheres Camponesas (MCC)

A palestrante começa sua fala com uma saudação às mulheres, que mesmo em uma conjuntura e contexto de retrocessos, têm a capacidade de se unir, reunir e fazer luta. Acredita que é inconcebível um projeto de agroecologia que dialogue com agronegócio, chacina, violência doméstica, trabalho escravo ou qualquer forma de violência. Rosângela diz que foram as mulheres camponesas que introduziram a agricultura, que plantam as ervas medicinais, que sabem cuidar das sementes, que fizeram as primeiras modificações nelas, e que tem uma relação muito íntima com a terra, a água e a natureza. Convoca as mulheres para a luta, fala dos alcances da luta feminista, mas diz que a agroecologia deve sair das experiências locais para avançar como um projeto macro por territórios que se construam com respeito. E diz que embora tenham havido avanços, os direitos foram tirados do povo e retrocessos sofridos com o Golpe, a luta tem que continuar. “A gente precisa avançar no diálogo com as companheiras, a sociedade, trabalhadoras e trabalhadores, porque no campo estamos sofrendo com os avanços dos venenos e dos agrotóxicos...”. Convida ao grito de ordem: “Quando uma mulher avança, o machismo retrocede! ”. O público, empolgado, adere ao grito.

Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE)

Inicia sua fala fazendo uma análise do espaço das mulheres na política. Pontua que no governo Lula e Dilma houve um espaço de construção das políticas públicas, trazendo muita unidade das mulheres e, que hoje em dia os espaços construídos são os espaços de luta por novos espaços, que estão sendo construídos no Brasil, principalmente no Nordeste. Pontua a necessidade de entender a dimensão do espaço da vida rural, no campo, e pergunta: “Como essa vida se dá?”. É uma vida que não se separa do meio-ambiente, a comunidade que não se separa do ambiente, que a cerca; é um espaço onde as mulheres estão relacionadas ao cuidado de tudo que as cerca; à vida como um todo. Portanto, afirmou Verônica, falar de agroecologia é falar de recuperar todos esses saberes trazidos pela ancestralidade, e que a indústria alimentícia vem roubando. Outra pauta é a ameaça à terra que se constitui como uma ameaça direta à vida das mulheres; são todas discussões que não se dão de forma separada. Falta entender a agroecologia como um projeto de sociedade, de vida, onde se deve reconhecer o protagonismo político das mulheres que participam de todas as etapas dos processos de produção do trabalho e que devem tomar os espaços políticos e de tomadas de decisões. A construção das políticas de agroecologia e produção de orgânicos de 2012 deve entender o 1º desafio – pensar o crédito para as mulheres dentro do rural; cotas para as mulheres para ter de fato as políticas para as mulheres. Finaliza a fala fazendo um convite para o 4º Encontro Nacional de Agroecologia em Belo Horizonte em julho de 2018.

Elisabeth Cardoso (CTA - ZM e GT de mulheres da ANA) - Síntese:

Elisabeth fechou a mesa com uma síntese da fala das mulheres; pontuou a representatividade Representantes dos movimentos sociais e associações que trabalham com agroecologia e registrou um fato importante dizendo o Congresso Brasileiro de Agroecologia trouxe pela primeira vez a faixa “Sem feminismo não há agroecologia”, que fizeram um documento com o que queriam dizer e que até o ano de 2017 não mudou muita coisa (ela faz referência ao ato que houve pela manhã na mesa sobre a memória da agroecologia). Elizabeth entende que o feminismo é uma teoria crítica, um olhar de marco interpretativo que pode dar visibilidade às marcas do relacionamento opressivo entre homens e mulheres. A crítica feminista denuncia uma série de fatos que acontecem no campo e desmistifica a agroecologia. As pessoas tendem a pensar que a agroecologia é amor, que é uma coisa perfeita. Em alusão à expressão da Luísa (representante da REGA), diz que o feminismo ensina a agroecologia a não ser uma “Agroecologia de confetes”. A agroecologia acontece dentro da sociedade – ela não visibiliza, ela não ouve, não dá espaço, desqualifica as mulheres e não é só na agroecologia que existe machismo. “Aonde está o trabalho invisível das mulheres? Onde as mulheres estão sendo excluídas da assistência técnica? Das políticas públicas? Se a agroecologia quer ser coerente em desenhar um agrossistema, ela tem que ser feminista sim! Sem a gente romper com as estruturas, com nossos companheiros machistas, a agroecologia não acontece. ”. Finaliza a fala dizendo que se o feminismo não adentra a agroecologia, a agroecologia não se torna profunda, não rompe com as estruturas de poder que busca lutar contra. “É o mesmo que pesquisar indígenas sem ir à aldeia”.

Foto da atividade:

Facilitação Gráfica:

Mais informações

Feminismo, Agroecologia e a luta das mulheres norteiam os debates do 2º dia o X Congresso de Agroecologia

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#AT20 – Encontro internacional de guardiões e guardiãs de sementes crioulas

Encuentro internacional de guardianes de semillas criollas

Dia 12 | 14h00 – 18h00 | PACARI  | #Agroecologia2017

Responsável(is): Javier Carrera (Equador); Flávia Londres (ANA); Gilberto Afonso Schneider (MPA); Irajá Ferreira Antunes (Embrapa Clima Temperado); Coordenadoras: Terezinha Dias (Embrapa) e Tadzia Maya (REGA).

Relato:

(Relatora: Luisa Corrêa)

A atividade se debruçou sobre a importância dos guardiões e guardiãs de sementes crioulas no contexto de preservação da agrobiodiversidade. O foco foi delinear ideias, experiências e estratégias para o fortalecimento dos guardiões e guardiãs de sementes. A fala dos seis participantes foi seguida de uma atividade chamada "Aquário", para que todos os participantes pudessem integrar a discussão delineada pela pergunta: Como podemos fortalecer nossa comunidade de guardiões e guardiãs de sementes? As estratégias e propostas foram discutidas e transformadas em produtos visuais ilustrados pelas imagens abaixo.

Javier Carrera: 

Javier Carrera, fundador da rede de Guardiões de Sementes do Equador e permacultor, iniciou sua fala indagando os participantes acerca da importância de se criar uma rede de guardiões de sementes crioulas. Sua ideia, inicialmente voltada a intenção de guardar sementes, se transformou em uma rede que abarca mais de 100 famílias guardiãs em todo o Equador e que trabalham a nível local através de associações e cooperativas voltadas à produção e preservação de sementes crioulas.

Javier também levantou um debate acerca da interação entre os camponeses guardiões de semente e a sociedade, trazendo como exemplo a iniciativa de comercializar variedades de arroz não convencionais ao invés de produzi-lo apenas para autoconsumo dos camponeses. O crescimento da demanda pelas variedades de arroz crioulo levantou novos problemas aos produtores e guardiões, como a criação de um mercado e especialmente como lidar com as tecnologias não adequadas à diversidade dos produtos. Resultado disso é que a diversidade crioula acaba por endossar experimentos e novas técnicas criadas coletivamente pelos guardiões e camponeses e a fortalecer alternativas práticas e reais que gerem autonomia para os camponeses.

Javier também destacou a luta dos guardiões contra o processo de certificação e de exclusividade de registro das sementes pelo Estado, que tendem a excluir os camponeses e a comprometer sua "autonomia autêntica" enquanto produtores e conhecedores das sementes crioulas. Frisou, ainda, que por mais que haja interesse de amplos segmentos em preservar as sementes simultaneamente às pesquisas acadêmicas, a preocupação de cuidar das sementes crioulas é central para os camponeses e guardiões, que devem ser valorizados nesse processo, muito embora a rede funcione a mais de 15 anos sem apoio ou financiamento algum.

Javier finalizou sua fala caracterizando os guardiões de sementes e as pessoas que se envolvem com a preservação das sementes crioulas como "pessoas que querem mudar o mundo" e que cuidar das sementes é desenhar nosso próprio destino.
Javier Carrera – Rede de Guardiões de Sementes do Equador
Red de Guardianes de Semillas
Gilberto Afonso Schneider:
 
Gilberto Afonso Schneider, integrante do Movimento de Pequenos Agricultores (MPA), expôs a experiência de resgate de sementes crioulas pelo movimento no Oeste Catarinense desde a década de 1990. O trabalho de resgate e cuidado com as sementes crioulas na região se originou de uma preocupação inicial acerca do desaparecimento das sementes após a Revolução Verde, em especial relacionada à vulnerabilidade dos agricultores que se endividaram comprando sementes industriais. Schneider apontou para a importância dos guardiões de sementes que resistiram a esse processo e frisou a importância das sementes crioulas não apenas como seres vivos, mas , como material histórico, como patrimônio que tem ancestralidade. Mais do que isso: salientou a agroecologia demanda necessariamente o controle das sementes e que os sistemas camponeses são inviáveis sem as sementes crioulas, fundamentais para a manutenção da agrobiodiversidade em um cenário em que a utilização das sementes modificadas vem acompanhada por pacotes químicos diversos que ameaçam a autonomia dos agricultores.

Isto posto, Schneider fez uma reflexão acerca da importância do resgate de conhecimentos tradicionais e aliá-los aos conhecimentos científicos e de questionar os instrumentos jurídicos que protegem as grandes indústrias e passam por cima das organizações de guardiões de sementes. Quais seriam, então, possíveis estratégias para a valorização e resgate dos guardiões e das sementes crioulas? Para isso, a ação do MPA no Oeste catarinense, segundo Schneider, se estrutura em três níveis: na unidade produtiva, incentivando todas as famílias camponesas a produzir e cuidar de suas sementes e encontros, feiras e trocas como forma de dificultar o desaparecimento de sementes na comunidade camponesa - segundo Schneider, é com os agricultores perderem variedades que podem resgatar nos encontros, bancos e trocas. A ação ainda se volta para a determinação de um guardião de sementes em cada unidade produtiva, "um agricultor diferenciado"  que assume o compromisso de manter e cuidar de pelo menos uma semente crioula, uma espécie de "adoção de um filho". O "certificado de adoção" de uma semente pela unidade produtiva visa, igualmente, valorizar aquela família enquanto guardiã daquela semente.

Outro nível de ação se volta para criação de formas diversas que possibilitem a disponibilidade das sementes tanto entre os agricultores como entre grupos diferenciados que se interessam em dispor das sementes crioulas, como um público urbano que planta em pequenos espaços e não tem conhecimento e tempo para produzir as sementes em casa. A criação de bancos e casas de sementes viram espaços, portanto, também de abastecimento de grupos diversos, além de se transformarem em casas de informação onde se dispõe de planilhas e apoio técnico. O terceiro nível  de atuação do MPA se originou das festas de sementes e pela luta pelos programas de comercialização, com vistas a atuar em nível macro e a comercializar sementes em largas escalas com o intuito de distribui-las em locais onde não há presença de sementes crioulas. Schneider frisou a importância desse tipo de ação para a agroecologia e para a autonomia dos camponeses, colocando as sementes como ponto fundamental de atuação.


Terezinha Dias:

Terezinha Dias trabalha há cerca de 40 anos com pesquisa voltada ao cuidado de sementes crioulas e na articulação entre a Embrapa e comunidades indígenas. Iniciou sua fala apontando como ideia central a "ampliação do conceito de guardião e guardiã de sementes", como forma de incluir nesse grupo todos aqueles que se preocupam e trabalham com a preservação das sementes, como pesquisadores e técnicos. Terezinha frisou a importância da criação e da  manutenção de um germoplasma que seja público. Segundo ela, a aproximação desse sistema de coletas e bancos dos cuidadores de sementes é uma ação fundamental de preservação e reintrodução de sementes perdidas em diversos locais. Um exemplo disso foi à articulação entre a Embrapa e a FUNAI com o objetivo de entregar sementes crioulas perdidas em comunidades indígenas, aproximando o sistema de conservação público das comunidades tradicionais. Para isso a pesquisadora apontou que deve haver uma articulação entre a conservação local com uma rede de troca e preservação maior, o que chamou de "integração de estratégias on farm com bancos de sementes". Apontou ainda para a importância da organização frequente de feiras da agrobiodiversidade e troca de sementes, além de ações que  reconheçam os guardiões e a criação de protocolos comunitários de uso da biodiversidade. Muitas dessas ações foram ilustradas por exemplos reais de atuação da Embrapa, de forma a evidenciar a importância dos pesquisadores de sistemas públicos de conservação de sementes. Como apontou Terezinha, o material crioulo conservado em locais públicos, em muitos casos, foi reintroduzido em comunidades sem contaminação por transgênicos. Muitas vezes materiais perdidos pela comunidade puderam ser resgatados em articulação com os sistemas de preservação público.

Irajá Ferreira Antunes:

"O que é ser um melhorista de plantas?", questionou-se Irajá Ferreira Antunes, pesquisador da Embrapa. No contexto da década de 1960, Irajá apontou que o melhoramento de sementes visava, em especial, produzir em larga escala para "encher barriga de pobre" e servir aos princípios produtivistas da Revolução Verde, em que a questão da qualidade se sobrepujou a questão da quantidade. Trazendo esse questionamento para os dias atuais e para o contexto de discussão acerca da importância das sementes crioulas, o pesquisador frisou que "todo ser vivo tem um princípio de sobreviver porque ele é parte de uma espécie de que ter estratégias de sobrevivência", e que buscar a sobrevivência das plantas é buscar a sobrevivência do próprio Homem. Apontou, ainda, que cada ser tem uma habilidade específica para uma determinada atividade, e que um guardião tem a vocação de cuidar das sementes, sendo assim uma figura central para frear o processo de erosão genética.

Irajá destacou a ampla variedade como uma característica central das sementes crioulas. Considera que a variedade genética é fundamental para o processo evolutivo, ao contrário da uniformização, que gera permanente vulnerabilidade para a sobrevivência. De acordo com ele,  as sementes crioulas e seus guardiões representam, portanto, a própria variedade genética. Irajá afirma que "deve-se te um olhar cuidado em torno dos guardiões, que em muitos casos se encontram frágeis e vulneráveis, de forma a protegê-los e fortalecê-los através não apenas da coletividade e criação de associações de guardiões, mas incentivando também a formação de "guardiões mirins" e criando certificados para os guardiões de sementes de forma a serem valorizados pela comunidade e pela sociedade". Por fim, Irajá frisou que a semente crioula, diferentemente da semente de germoplasma, tem uma história e cultura, e que a manutenção da biodiversidade não pode ocorrer apenas com a preservação em bancos de sementes, mas sim distribuindo as sementes para os agricultores, de forma a diminuir a vulnerabilidade genética, alimentar e de renda.

Tadzia Maya:

Tadzia Maya, integrante do REGA (Rede de Grupos de Agroecologia do Brasil) mostrou inicialmente em sua fala uma preocupação específica com a formação de uma rede horizontal e descentralizada focada na figura dos guardiões e guardiãs de sementes de forma a a garantir seus locais enquanto sujeitos. Frisou que a criação de uma rede de guardiões é uma rede de pessoas e não de instituições e que, portanto, se baseia em ações práticas e cotidianas dos guardiões. Tadzia, assim, enfatizou a importância dos espaços de debates e dos encontros, como o Congresso Latino Americano de Agroecologia, para se refletir coletivamente sobre a construção do futuro dos guardiões e guardiãs de sementes crioulas.

Chamou atenção, ainda, para a questão da terra: "em quais terras esses guardiões trabalham e vivem?" e como os conflitos fundiários e outras diversas dificuldades afetam suas vidas, trazendo uma reflexão em torno de uma questão ligada a impossibilidade de garantia da terra dos guardiões. A conservação do território, para Tadzia, é um elemento fundamental para a continuidade do trabalho dos guardiões, o que envolve discutir estratégias legais que se voltem para a permanência de sua existência e seu trabalho. Da mesma forma, frisou a importância de garantia à comercialização de sementes como instrumento gerador de renda para os agricultores e agricultoras e de pulverização e circulação das sementes crioulas simultaneamente a um reconhecimento dos guardiões e guardiãs com pesquisadores e investigadores enquanto estratégias  de fortalecimento e valorização de guardiões.
Tadzia Maya – REGA
Ao final Tadzia , compartilhou sua fala com dois integrantes do coletivo Ciclovida (Ceará), que expuseram rapidamente suas experiências de busca e resgate de sementes no sertão do Ceará e a integração de sua ação à luta pela água como elemento central de preservação das sementes crioulas,  que se concretizou pela criação de uma estrutura de cisternas que permitiu que o grupo preservasse sementes crioulas na região e que foram expostas fisicamente ao longo de sua fala.
Guardiã e Guardião de Sementes – Ciclovida (Ceará)
Flávia Londres:

Flávia Londres começou o encontro questionando: “Por que as sementes crioulas resistem, mesmo após o cenário longo de erosão genética fomentada pela Revolução Verde?”.

Essa foi a pergunta inicial de Flávia Londres no encontro. A lei de sementes da década de 1960 não apenas considerou ilegais as sementes crioulas como induziu seu desaparecimento ao considerar sementes apenas aquelas que sofreram melhoramento genético pela ciência agronômica. A assistência técnica, os programas de distribuição de sementes, a propaganda e as políticas de crédito desvalorizaram amplamente as sementes crioulas nas últimas décadas. Mas, por que elas resistem? Questionou.

E frisou como elemento central a forte relação das sementes crioulas com a cultura e identidade dos povos e comunidades, sua ampla adaptabilidade e resistência frente às condições biológicas, sua relação direta com a condição de autonomia dos agricultores e, em especial, a articulação e trabalho em rede voltado à preservação de sementes. Disse ainda que o avanço das políticas públicas e a movimentação social em torno da defesa das sementes crioulas nos governos passados gerou pressão para que as sementes crioulas voltassem a ser valorizadas no atual contexto. A Lei de sementes de 2003, que reconhece as sementes crioulas como sementes, não exige seu registro, e permite sua livre circulação e troca entre agricultores - em redes, associações e cooperativas - evidencia essa conquista em torno da valorização das sementes crioulas, conclui.

De acordo com Flávia, a consequência positiva desse cenário foi: a criação do PAA sementes, que fortaleceu trabalhos locais e regionais voltados à produção e preservação de sementes crioulas; os programas de distribuição de sementes varietais pelo governo anterior; a inclusão, na Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, de ações voltadas para a preservação de sementes; a criação de uma subcomissão temática e a criação do Programa Sementes do Semiárido, voltada para a criação e estruturação de bancos de sementes.

Ao final, considerou que, apesar dos avanços para a garantia da resistência de articulações e redes voltadas à preservação das sementes crioulas, esse conjunto de ações encontra sua continuidade ameaçada no atual governo. “O atual cenário político de retrocessos demanda uma postura de resistência e uma maior articulação das redes no sentido de manter minimamente as conquistas dos últimos anos”.
Flávia Londres (ANA)
Atividade

Paulo Passos, biólogo, e Valéria Porto, engenheira agrônoma e mestranda da UNB, da equipe de mobilização do Congresso, organizaram uma dinâmica de discussão conhecida como “Aquário”, onde uma pergunta problematizadora é lançada para o público, organizado em uma roda. Seis cadeiras são colocadas no centro do grupo e quem se disponibilizar a contribuir para o debate pode ocupá-las temporariamente e falar ao microfone. Enquanto isso, quem permanece no círculo externo pode participar escrevendo propostas de ações em tarjetas, que serão expostas posteriormente.

A pergunta discutida foi: Como podemos fortalecer nossa comunidade de guardiões e guardiãs de sementes?

Depois de uma conversa produtiva sobre a questão, três propostas foram apresentadas: 

    - um encontro nacional de guardiões de sementes; 

    - uma forma de identificação;

    - certificado para guardiões e guardiãs e

    - a construção de bancos de sementes. 

As ideias foram debatidas por três grupos distintos de pessoas e transformadas em produtos expressos em tarjetas e colados em um mural. As proposições têm, necessariamente, um grupo de pessoas que deve executá-las, em um prazo definido.

As imagens abaixo ilustram os produtos do debate e as estratégias delineadas pelos grupos.

Relatores: Luisa Corrêa e Bernardo Oliveira

Fotos da atividade:

Facilitação Gráfica:

Notíciashttps://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/27030096/evento-reune-guardioes-de-sementes-crioulas-do-brasil-e-america-latina

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#AT11 – Plenária das Juventudes da América Latina pela Agroecologia

Plenaria de las Juventudes de América Latina por la Agroecología

Dia 12 | 14h00 – 18h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Taina Mie (REGA); Mariana Pontes (REGA); Makeda Dyese (Trinidad e Tobago/SERTA – REGA). Coordenador: Hércules Gonzales (REGA)

Relato:

Rede de Grupos de Agroecologia que organizou a plenária

O grupo responsável pela atividade utilizou a metodologia participativa denominada Café Mundial. Os coordenadores da plenária chamaram o público ao palco e apresentaram quatorze temas de discussão que foram agrupados da seguinte forma: Movimento estudantil e Educação; Luta pela terra, lutas anticapitalistas e saúde; Permacultura, agricultura urbana e comunicação; Comunidades tradicionais e cultura; Feminismo; Transição agroecológica e sementes crioulas; e Bem-viver. Compunham o público pessoas de diversas origens, nacionalidades, entidades e movimentos: Colômbia, Uruguai, Holanda, Institutos Federais, UnB, Federação dos Estudantes de Agronomia do Brasil (FEAB), Quilombo Abacatal, UFRA (Universidade Federal Rural da Amazônia), UFSC, UFRJ, UFPE, UFG, Unesp, UFMT, Uniminuto (Colômbia), Associação Brasileira de Estudantes de Engenharia Florestal(ABEEF), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), UFPA (Universidade Federal do Pará), MST, UFF, UFV/Movimento de Ocupação, CONTRAF, CONAQ, UFPel (Universidade Federal de Pelotas, Udelar (Uruguai/Colômbia), IFAM-Tefé (AM), GAE, DANU, Universidade Estadual de Goiás (UEG), CETRA (Ceará), Ctur, FURG, IKPENG (Mato Grosso), CPT (Univasf), REGA (GO).



Apenas o tema Bem-viver não agrupou pessoas para uma discussão. Contudo, 6 grupos se formaram e duas perguntas geradoras serviram de estímulo para que propostas e desafios fossem discutidos, são elas:

1. Quais são os principais desafios que envolvem o tema?

2. Como podemos nos organizar coletivamente frente aos desafios relatados em cada tema?

Ao final do período de discussão, uma síntese de cada grupo foi apresentada da seguinte forma:

Educação e movimento estudantil:

Desafios: educação emancipadora a serviço da transformação; defesa da Educação Pública porque está sendo desestruturada. Houve corte de 80% (10 milhões para 2 milhões) dos recursos do PRONERA, o que interfere na permanência dos estudantes que vem do campo; metodologias inadequadas por parte das Universidades.

Propostas: educação popular; mais diversidade dentro das universidades; elaboração de manifesto carta política e abaixo-assinado da juventude brasileira e latinoamericana; 

Luta pela terra, lutas anticapitalistas e saúde:

Desafios: conscientização e valorização das pessoas; reconhecimento da luta pelo acesso a terra via Reforma Agrária; manipulação a grande mídia; incentivo a atividades de mineração e das hidrelétricas vem crescendo e estão se apropriando das terras dos índios, comunidades tradicionais e outros; a intoxicação por agrotóxicos.

Propostas: pensar em parcerias da comunidade, de organizações, movimentos e articulações; dar prioridade de pensar no coletivo; comunicação na luta pela terra; saber o que cada um está fazendo no seu território (comunicação); construção de SAFs; plantar sem desmatar; práticas agroecológicas na conquista pelo território; pautar a volta do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA);lutar por políticas públicas; continuar na luta mesmo sem políticas públicas; mobilizar o trabalho de base para mostrar o que a gente faz; construir uma mídia do campo (comunicação popular); importância do encontro presencial e do reconhecimento do outro; valorização das metodologias participativas.

Transição agroecológica e Sementes Crioulas;

Desafios: acesso às sementes crioulas (legislação não facilita o acesso ao pequeno produtor).

Propostas: reconhecimento institucional da transição agroecológica; extensão rural; inclusão da juventude rural nas arenas de conhecimento para a geração de oportunidades e poder de escolha; desenvolver a comunicação que explique: o que são as sementes crioulas? De onde elas vêm?; Economia solidária: troca de sementes crioulas ao invés de venda; feira de trocas como forma de transmissão de conhecimento; ações jovens: juventude como promotora do futuro.

Permacultura, agricultura urbana e comunicação;

Desafios: Agricultura urbana possui o papel social de construir um novo sistema; agricultura urbana como formadora de uma nova geração diversa e multidisciplinar; papel de disseminação da juventude e o não acesso à educação; a cidade trouxe vários problemas para o campo; disseminação do estilo agroecológico; entrelace entre agricultura a soberania alimentar - como pensar em agricultura e no lugar que a gente vive com o crescimento das cidades cada vez mais concreto?

Propostas: organização dos jovens para disseminar os espaços e a Agroecologia; jardinagem de guerrilha como forma de ocupação dos espaços.

Cultura e comunidades tradicionais

Foi discutido nesse GT as culturas indígenas e quilombolas; a fala foi realizada por um homem indígena de uma etnia do Mato Grosso do Sul.

Desafios: desrespeito ao meio e às tentativas de denúncias; a adesão da geração mais jovem ao português em detrimento do dialeto local (a cultura era mais forte quando não havia predominância da língua do branco); comida e merenda escolar não diferenciada; influência das novas tecnologias e fenecimento da cultura comunitária e intergeracional; inimigos no poder; luta pela terra; grilagem.

Propostas: parar de comprar comida do branco, proximidade entre as gerações (mais novos e mais velhos), comida dos brancos com a transição da terra depois da demarcação, voltar ao movimento de roça de toco, reunir a comunidade para a prática da roça de toco, reunir os mais jovens com adultos, juventude indígena como elo da ligação entre as sociedades quilombolas, indígenas, todos, pela união se consegue mais respeito e a preservação da cultura da sociedade.


Feminismo e Agroecologia

Desafio: dificuldades da discussão do feminismo na Agroecologia; dependência financeira das mulheres e a impossibilidade de  autonomia financeira; mulheres como agente aglutinador; protagonismo e visibilidade; desafio de lutar contra o patriarcado na esfera pessoal e macro (superestrutura; desafios dentro de casa, diálogo intergeracional entre mulheres; como tornar o diálogo entre mulheres de segmentos diversos de luta de modo que se possa discutir como é o feminismo para diferentes classes, diferentes idades e culturas; reunir os diversos feminismos para que eles não percam as especificidades e também para que não se fragmentem.

Propostas: valorização do conhecimento dos sujeitos sociais enquanto debate; organização política das mulheres; articulação em redes, somar sem perder as diversidades; autonomia econômica através de geração de renda; políticas públicas específicas para mulheres; ampliar instrumentos de combate à violência e ao machismo nas esferas privadas, públicas e mais formais.

Foto da atividade:

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