#AT100 – Painel VI – Agroecologia e Resiliência às Mudanças Climáticas

Panel VI – Agroecología y Resiliencia a los Cambios Climáticos

Dia 15 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Eric Holt-Gimenez (Food First-USA); Luis Vazquez Moreno (Instituto de Investigaciones de Sanidad Vegetal – Cuba); Tomás León Sicard (Universidad Nacional de Colombia – Colômbia); Aldrin Pérez (INSA); Coordenadora: Clara Nicholls (SOCLA)

Arquivos:

Apresentação Aldrin Pérez

Apresentação Tomás León Sicard

Relato:

No dia 15 de Setembro de 2017 às 8:00, no Auditório Babaçu do Centro de Convenções Ulisses Guimarães foi realizado no âmbito do VI Congresso Latino-americano de Agroecologia, o X Congresso Brasileiro de Agroecologia o Painel - Agroecologia y Resiliência a los Câmbios Climáticos, promovido pela Sociedade Científica Latino Americana de Agroecologia - SOCLA, com a participação de: com a participação de Eric Holt-Gimenez, representando a Food First, organização Estado-Unidense; Tomás León Sicard da Universidad Nacional de Colômbia – Colômbia e  Aldrin Pérez, representando o Instituto Nacional do Semiárido - INSA do Brasil . O pesquisador Luis Vazquez Moreno do Instituto de Investigaciones de Sanidad Vegetal de Cuba não pode comparecer em função da passagem do furacão Irma, pelo Caribe.

Clara Nicholls, faz a abertura com uma breve apresentação dos participantes e do objetivo da mesa dentro do Congresso, focando na importância da discussão sobre o papel da agroecologia na construção da resiliência dos sistemas agrários no contexto das mudanças climáticas.

Aldrin Pérez - Instituto Nacional do Semiárido - INSA

Aldrin Perez inicia sua fala dizendo que a questão das terras secas no Nordeste Brasileiro tem relação com uma visão baseada um passado ruim, de um lado e, por outro lado, a uma perspectiva de futuro melhor. E completa “com as eleições de Lula e de Dilma se construiu uma perspectiva de futuro melhor em contraposição ao passado ruim e nesse momento essa perspectiva de futuro está em crise”.

Aldrin segue na sua apresentação, descrevendo como se deu a construção da proposta de pesquisa “Estratégias Agroecológicas e Sociais de adaptação a mudanças climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro” construída em parceria com a ASA.

Relata que construíram uma pesquisa popular com a ASA, para se estabelecer o estado da arte dentro das organizações de apoio aos agricultores para o desenvolvimento de estratégias de convivência com o semiárido. Identificaram uma série de indicadores estabelecidos com as famílias envolvidas na pesquisa. A partir da análise dos dados se construiu modelagens para entender as estratégias de convivência das famílias com o semiárido, incluindo as espécies mais utilizadas pelas famílias.

De acordo com Aldrin, a pesquisa identificou que as estratégias de captação e armazenamento de água permitiram a ampliação dos agro ecossistemas. Destaca que os sistemas de manejo de água no solo também se mostraram muito importantes, bem como a restauração das áreas de preservação permanente, reserva legal e arborização em geral de propriedades e o acesso a políticas públicas".

Aldrin ainda afirma que a pesquisa identificou também que todo o processo de desenvolvimento e disseminação de inovações para a convivência com o bioma tem uma profunda base cultural, associada ao funcionamento das organizações e ao fortalecimento das bases comunitárias de intercâmbio de conhecimentos e de aprendizagem. Por fim, diz que estão buscando identificar quais elementos devem ser potencializados para fortalecer esta perspectiva de construção de um futuro melhor.

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Eric Holt-Gimenez (Food First-USA)

Eric Holt-Gimenez inicia sua apresentação dizendo que a resiliência é uma questão em disputa e é uma prática social, que tanto pode contribuir para a ampliação das desigualdades, como para fundamentar processos emancipatórios. Fala ainda que gostaria de fazer uma propaganda de um livro chamado Terra fértil, que acabou de ser traduzido para o espanhol pela organização Food First, onde trabalha.

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Eric, retoma sua fala dizendo os intercâmbios são uma das práticas mais importantes do movimento campesino a campesino na América Central, por onde trabalhou durante mais de dez anos. Relata que começaram a perceber que as propriedades dos agricultores envolvidos no movimento, se recuperavam de forma muito mais rápida dos impactos de desastres climáticos como furacões, que são muito comuns na região da América Central, e estão se tornando cada vez mais intensos e recorrentes

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Em função dessas observações, Eric comenta que resolveram fazer um estudo envolvendo agricultores de quatro países da América Central sobre a resistência e resiliência dos sistemas de produção dos agricultores envolvidos no movimento. “Neste processo, percebemos uma relação profunda entre vulnerabilidade, resiliência e sustentabilidade. O estudo provocou um grande impacto, pois foi apresentado a governos e se buscou, a partir de seus resultados, estabelecer negociações para a construção de políticas públicas que fortalecessem as estratégias de reconstrução das propriedades em bases agroecológicas”, afirma.

O palestrante ressalta que, durante os processos de negociações, percebeu que há uma disputa com um conjunto de instituições que defendem uma visão capitalista de resiliência, que, de acordo com ele, tentam apagar todas as relações de poder e o aspecto político dos processos. “Essas organizações têm muito poder na definição das políticas públicas e muitas vezes propõem processos de reconstrução em que se nega o papel da agroecologia e de qualquer forma de agricultura, priorizando por exemplo estratégias de geração de emprego através da implantação de unidades industriais ao invés do fortalecimento dos processos de autonomia dos agricultores e suas famílias.

Eric comenta que, durante os processos de negociação, potencializados pela pesquisa, foram levantados os aspectos que podem diferenciar uma resiliência de uma resiliência industrial. “Dessa forma podem-se propor políticas que potencializam as estratégias de ampliação da organização e da autonomia dos agricultores e estratégias de reconstrução e desenvolvimento, assim como a ampliação da resiliência que reduzam as condições das famílias estabelecerem o sentido de suas trajetórias de vida” conclui.

Tomás León Sicard (Universidad Nacional de Colombia – Colômbia);

A apresentação do Prof. Tomás Sicard enfoca principalmente os aspectos teóricos que fundamentam as relações entre a agroecologia e o ambientalismo e sobre as mudanças climáticas e a agroecologia. “A partir do pensamento ambiental vamos fazer uma reflexão, resgatando o pensamento do Prof. Augusto Ángel Maya, que se perguntou se nós seres humanos ocupamos ou não um nicho nos ecossistemas da natureza?” questiona.

Prof. Tomás Sicard comenta que o Prof. Maya chegou à conclusão que não ocupamos um nicho, mas que, em todo o desenvolvimento da nossa espécie, a partir da linguagem e da inteligência, desenvolvemos um processo complexo de adaptação chamado de cultura. Constata que é um processo ambiental de adaptação da espécie humana aos ecossistemas e que todos os efeitos das interações entre cultura e natureza se dão de forma tal que produzem os impactos, as contaminações, as mudanças no clima, a deterioração dos ecossistemas, etc. Afirma que, dessa forma a agricultura também funciona como um processo de interação entre cultura e natureza.

Ainda em sua fala, o Prof. Sicard, comenta que na Colômbia se passa de inundações para secas todos os anos. Diz que, dependendo dos sistemas de medição, é possível identificar, de forma mais ou menos evidente, as mudanças de longo prazo dos ecossistemas. Diz que as mudanças e a variabilidade climática são dois aspectos do clima bem diferentes, mas que ambos são muito importantes para os camponeses. Afirma que se as mudanças de longo prazo são identificadas, é possível preparar-se, mas se não são identificadas, não é possível preparar-se para enfrentá-las. Ressalta que as mudanças de longo prazo são, em geral, associadas a processos profundos de mudanças culturais, que influenciam o desenvolvimento de sistemas de medição.

Sicard comenta que há muitos séculos se tem notícias de sistemas de manejo de água, como a construção de canais e sistemas de armazenamento. O povo Zenu, do oeste da Colômbia, chegou a manejar mais de 800 mil ha de áreas inundáveis, com terraços e canais. Este e outros, como as vilas em palafitas são sistemas de adaptação às condições ambientais das diferentes regiões, destaca o palestrante.

Ele afirma que, há algum tempo, as áreas ocupadas pelos povoados têm se tornado vulneráveis aos impactos das mudanças no clima. Apesar disso, ainda existem vários sistemas em desenvolvimento que retomam os conhecimentos tradicionais para a constituição de sistemas produção e ocupação adaptados a áreas críticas.

Por fim o prof. Sicard, pergunta para a plenária "O que é a resiliência?". E responde em seguida:  “Resiliência não é um conceito neutro, mas está enraizado em contextos políticos, culturais, técnicos e de poder”. E dá o exemplo de uma pesquisa no município da Colômbia, onde viviam los Panches, que identificou, entre outras coisas, que um aspecto muito importante da resiliência é o cultural.

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Clara Nicholls - Presidente da SOCLA / Coordenadora da mesa

Clara Nicholls faz uma apresentação síntese em que traz elementos globais sobre as questões das mudanças no clima. Diz para “não esquecermos quem são efetivamente os responsáveis pela emissão dos gases que provocam as mudanças e que a emissão destes gases tem relação direta com o modelo capitalista e de hiperconsumo que caracteriza nossa economia e sociedade”.

Alega que os "Trumpstas" ou negacionistas não creem e muito menos discutem as raízes dos processos de mudanças no clima. “Para se contrapor a esse tipo de atitude a pergunta que fazemos na Red Iberoamericana de Agroecologia para el Desarrollo de Sistemas Agrícolas Resilientes al Cambio Climatico - REDAGRES é se: podem as mudanças no clima afetar a produção de alimentos?  E a resposta a essa pergunta fica cada vez mais evidente que é sim”. A Prof. Nicholls apresenta um conjunto de exemplos que confiram a resposta, no México, em Bangladesh e na África.

Afirma que muitos agricultores ao redor do mundo passaram a desenvolver inovações para se adaptar às novas condições produzidas pelas mudanças no clima. Traz novos exemplos na Colômbia e dos que praticam a zai no sahel africano, que desenvolveram sofisticados sistemas de manejo da água no solo para garantir as suas colheitas.

A Prof. Nicholls, ainda faz uma nova pergunta chave: A tecnificação melhora a adaptação às mudanças climáticas? E comenta que, se não entendermos o viés militante das ciências e a sua parcialidade, não conseguiremos responder esta questão de forma correta.

Por fim em sua fala, a Prof. Nicholls afirma que há muitos caminhos para a construção da resiliência. Diz que esses caminhos podem ser emancipadores, ou apenas reformistas, de forma que não dialogam necessariamente com as raízes dos problemas que geram as vulnerabilidades dos sistemas de produção. Neste contexto, ela afirma que devemos estar atentos aos diferentes aspectos dos agro ecossistemas que contribuem para identificarmos sua resiliência, sua vulnerabilidade, a avaliação dos riscos a que estão submetidos e a sua capacidade de resposta.

Perguntas e comentários do público.

-“O termo resiliência não está desgastado? E quanto tempo durou a pesquisa realizada pelo INSA, apresentada por Aldrin? ”

- “Ano passado 600 mil ha de florestas foram consumidos pelo fogo e os bosques nativos protegeram as propriedades. As estratégias de restauração com bosques nativos não deveriam ser consideradas para a ampliação da resiliência dos sistemas de produção? ”

- “A Reforma Agrária na Colômbia não está estagnada após os processos de negociação de paz estabelecidos entre o governo e as FARC? ”

- “O termo resiliência não seria um campo em disputa e quem estaria ocupando os lugares nesta disputa? ”

- “Apesar de o capitalismo negar as mudanças climáticas, há um campo de oportunidades abertas em que as empresas tentam se posicionar, como por exemplo o mercado de carbono, e que teríamos que tomar cuidado com as falsas soluções”.

Respostas dos membros da mesa:

Aldrin, do INSA, diz que a pesquisa continua e que eles levaram três anos para a construção da proposta. Concorda com a questão do participante e afirma que o termo resiliência em grande parte é um conceito cooptado, e que no caso deles trabalham com o conceito de "convivência com o semiárido".

O Prof. Sicard, afirma que “para nós, toda a propriedade privada na América Latina é ilegal, pois há muitos questionamentos jurídicos colocando em cheque o Tratado de Tordesilhas. O acordo de paz com as FARC, que estabelece a perspectiva de destinação de 3 milhões de hectares a Reforma Agrária em 10 anos, não terá condições de promover uma verdadeira reforma agrária, mas sim uma estratégia de desenvolvimento rural integrada à indústria, como as próprias FARC já vem afirmando”.

Eric comenta sobre a questão da resiliência. Diz que, em uma reunião, uma representante de uma importante agência de cooperação foi questionada pelos agricultores porque ela não propunha projetos de ampliação da resiliência para as grandes empresas bananeiras multinacionais que atuam na América Central? “Ou seja, para os grandes capitalistas oferecem capital e para os pobres oferecem resiliência despolitizada” destaca. Ainda comenta que o capitalismo está lutando com todas as suas forças para sobreviver nas condições insustentáveis que criou: “A privatização das sementes e a privatização do carbono são falsas soluções para manter vivo este sistema que está acabando com a civilização”.

Por fim, a Prof. Clara Nicholls, afirma que é necessário deixar claro quais são as raízes e as causas por traz das mudanças do clima e que a resiliência tem relação com aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos e não apenas técnicos. Defende que os agricultores devem fazer suas opções por trilhar, caminhos que sejam reformistas, de transição ou transformadores.

E assim desfaz a mesa agradecendo aos participantes e aos palestrantes.

 

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#AT99 – Painel V – Educação em Agroecologia: Práticas e Saberes na perspectiva contra hegemônica

Panel V – Educación en Agroecología: Prácticas y Saberes en la perspectiva contra hegemónica

Dia 15 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Luciana Jacob (ABA); Marcos Sorrentino (ESALQ/USP); Coordenadora: Virginia Aguiar (UFPE)

Arquivos:

Apresentação Marcos Sorrentino

Créditos vídeo: João Pedro Novaes

Relato:

A coordenadora da mesa, Maria Virginia de Almeida Aguiar (UFPE), abriu a atividade convidando os palestrantes a comporem a mesa e saudando a todos os presentes. Para iniciar o painel fez uma contextualização do estado da arte da Educação em Agroecologia.

Segundo Virginia, a pauta agroecológica está cada vez se ocupando do tema educação como uma questão essencial para a construção do conhecimento agroecológico. Destacou os núcleos de agroecologia que foram formados nas universidades e que têm atuado como espaços de expressão e diálogo nos territórios. Para demonstrar a importância atual do tema da educação em agroecologia, destacou que no primeiro CBA, realizado em Porto Alegre-RS em 2003, foram apresentados 9 trabalhos sobre educação e que neste congresso temos mais de 140 trabalhos apresentados na temática. No âmbito do grupo de trabalho sobre educação da ABA várias discussões importantes vêm acontecendo, como a questão curricular, as diferentes pedagogias utilizadas, os cursos de graduação e pós-graduação, as interfaces da educação no campo, entre outros. Após essa leitura de contexto, passou a palavra para a primeira palestrante.

Luciana Jacob (ABA)  (síntese da fala da palestrante)

A temática do painel é extremamente relevante nesse momento, onde as disputas políticas estão em evidência. Para que seja possível fazer uma discussão sobre o que seria uma educação não hegemônica, é necessário retomar os conceitos que estão sendo tratados, o que entendemos por hegemonia e contra hegemonia. Essa vigilância epistemológica é importante pois não podemos correr o risco de a narrativa ser esvaziada.

Para conceituar hegemonia a palestrante fez referência ao filósofo italiano, Gramsci, que conceitua o termo como:

“a total realidade da experiência social em um dado momento histórico que satura profundamente a consciência da sociedade. Assim, hegemonia, para Gramsci, em qualquer período e em qualquer sociedade é constituída por um sistema central de práticas, significados e valores que podem ser chamados de dominantes e eficazes. Trata-se, portanto, de todo um conjunto de práticas e expectativas, do investimento de nossas energias, da compreensão cotidiana que se tem do mundo” (Luciana Jacob)

Esses valores são dominantes e eficazes, pois nos faz pensar que não existem alternativas.  A hegemonia não esta só na política e na economia, ela está presente também nas nossas formas de conhecer o mundo. A hegemonia se mantém por duas forças: a da violência e a produção de consenso.  A produção de consenso é ideológica. E as escolas e universidades contribuem para a manutenção disso.

Partindo então desse conceito de hegemonia e olhando para o tema agricultura, o agronegócio no Brasil hoje se constitui como a única forma possível e qualificada de se fazer agricultura. O agronegócio, embora se demonstre moderno e refinado, é impregnado por elementos coloniais, como os latifúndios, a monocultura, a exportação de matéria prima, a violência contra os povos do campo, a liquidação do conhecimento pelo assassinato das pessoas e a produção extensiva e simplificada dos ecossistemas.

A Revolução Verde, que promoveu a modernização do campo num momento de ditadura militar no Brasil, se estabeleceu às custas da subtração dos modos de produção dos povos do campo e do desmatamento. O latifúndio é permeado por formas coloniais de produção e continua se reproduzindo com o apoio da bancada ruralista.

O golpe de 2016 reforça isso, pois foi um golpe patriarcal, machista e capitalista, para desarticular a sociedade e principalmente as populações do campo. Os golpistas não queriam que estivéssemos aqui hoje.

Nesse cenário, o que é então a contra hegemonia?

Gramsci aponta que onde há uma hegemonia, existem valores que não enquadram. Dentre esses que não se enquadram, existem dois grupos, um que questiona o paradigma, mas que contribui para a continuidade do sistema (a hegemonia aceita isso) e o outro grupo, que é aquele que busca desconstruir o paradigma dominante.

Considerando que não existe agroecologia num sistema patriarcal, machista e capitalista, é necessário desconstruir o paradigma dominante. A agroecologia conseguiu se desenhar dentro de um sistema hegemônico dominante graças à preservação do conhecimento tradicional pelas populações do campo e aos diálogos estabelecidos entre essas populações e o meio científico.

No Brasil, a gênese da agroecologia não partiu somente da apropriação científica dos conhecimentos tradicionais dos agricultores, mas também através de diálogos dos movimentos sociais, das escolas e universidades. A agroecologia ganha traços da ecologia de saberes de Boaventura de Sousa Santos, pois trata-se de um campo de confluência solidário.

E qual o papel então da educação em agroecologia?

A hegemonia é constituída por força e consenso. O consenso é conquistado através da mídia e também das instituições educadoras. Se a hegemonia é conquistada dentro das escolas, é aí que podemos construir a contra hegemonia.

Nas universidades o conceito de agroecologia está em constante disputa, pois nesses espaços se constroem ideias e projetos de mundo. Hoje o agronegócio domina as universidades.

Do ponto de vista epistemológico, a manutenção do paradigma do agronegócio se dá por meio das tecnologias geradas na academia e levada ao campo, no contato duvidoso das universidades com as empresas transnacionais, na formação das pessoas e na produção de conhecimento. Esse conhecimento produzido é divulgado tanto na mídia, quanto na produção científica.

Hoje as universidades respondem a duas questões: as questões colocadas pelo agronegócio e as questões que ela mesma formula, dentro dos muros da universidade. Os agricultores e as agricultoras familiares ficam à margem da construção das pesquisas.

E o que significa pensar a agroecologia na universidade?

Significa trazer as vozes que foram violentadas e silenciadas por todo esse tempo. É necessário resignificar a extensão universitária, reposicionar o papel da extensão, para ser o centro do processo. Essa é a única ferramenta capaz de levar o pesquisador fazer as perguntas fortes.

Atualmente existem nas universidades professores militantes, mas que se sentem solitários. Essa é outra forma de desmobilização causada pelo paradigma dominante, nos fazer sentirmos sós, alternativos, quando na realidade lidamos com mais de 70% da população do campo.

Os Núcleos de Agroecologia permitem que a sociedade entre na universidade. É aí que está a chave, onde viramos o jogo. Parar de produzir conhecimento para, para produzir com. Os núcleos vêm se consolidando como esse lócus. O movimento contra hegemônico precisa ser globalizado, precisa se articular com outros movimentos.

Para finalizar, utilizou uma frase de Paulo Freire, que diz: “O mundo não é, o mundo está sendo”.

Marcos Sorrentino (ESALQ/USP) (síntese da fala do palestrante)

Agradeço a presença de todos. Como já foram contextualizados os conceitos e a temática, vou direto para a sugestão de propor e dialogar sobre uma agenda de transição educadora agroecológica e ambientalista.

São 4 aspectos da agenda que precisam ser considerados: a rebelião, o ideário, a educação e a potência de ação.

Sobre a rebelião, essa reflexão surgiu nos corredores do congresso, face ao contexto político atual. Nossa luta política imediata é pelo fora Temer e fora todos os corruptos e corruptores. Esse grupo de políticos precisa sair. Precisamos de uma constituinte democrática e soberana, agenda construída por pessoas comprometidas com a transformação social e isto não é impossível.

Sobre as transformações sociais necessárias, Montesquieu diz que o espírito das leis, nas sociedades democráticas e populares, deve ser o da frugalidade, o da simplicidade voluntária. Precisamos de um compromisso com o bem comum. Sem isso não conseguimos fazer leis democráticas e populares. Então, como construímos uma estratégia de transição para isso?

Só vamos enfrentar o aquecimento do planeta Terra se diminuirmos o consumo de carne. E como falamos isso para a sociedade brasileira, que tem esse hábito arraigado em sua cultura?

Temos que levar os nossos filhos para a cozinha. Crianças precisam ir para a cozinha. Toda a mudança precisa ser acompanhada por transformações estruturais. Não tem como encarar o mercado da carne sem passar pela reforma agrária e pela reforma urbana. Temos uma situação vergonhosa de ter 850 milhões de hectares, dos quais 200 milhões estão destinados à pecuária. Com uma simples mudança de técnica poderíamos reduzir isso para 100 milhões de ha, com o simples piqueteamento de pasto. Precisamos buscar uma equidade no consumo, consumindo menos e fazendo uma produção mais racional. Temos sim que defender e lutar por reforma agrária e por reforma urbana. Não há possibilidade de transformação agroecológica com essa iniquidade.

Sobre o ideário, o movimento agroecológico precisa dialogar com outras agendas que estão aí há 40 anos. O socialismo libertário, o ambientalismo, o movimento LGBT existem desde a década de 60 e precisamos visitar e conhecer isso, para formar as alianças necessárias com esses movimentos chamados novos movimentos sociais.

A educação é outro ponto que precisa ser discutido. Não podemos simplificar a educação como sinônimo de escola. Em relação à educação escolar, precisamos ocupar as escolas públicas. Temos que ocupar o espaço público e obrigar deputados e senadores a colocarem seus filhos na escola pública. Se não conhecermos o sistema público, não temos como influenciar.

Ocupar os espaços públicos é fundamental, mas não suficiente. O território educador é todo o território que vivemos. O processo educador tem que ser permanente, articulado. A educação acontece não só na escola, mas também nas igrejas, sindicatos e outros espaços, buscando agendas educadoras integradas.

Os conselhos municipais de educação precisam assumir a responsabilidade da educação de todos os munícipes. Nesses conselhos se pensam só nas escolas públicas. Precisamos pensar numa agenda educadora para todo o município. Todos os conselhos são espaços que podem aglutinar os atores para a agenda educadora, tendo o município como espaço de educação para sociedades sustentáveis.

Por fim, a potência de ação é outro ponto de destaque. Não podemos deixar que o pessimismo do pensamento massacre o otimismo da ação. Não podemos deixar a confusão nos confundir.

A quantidade de informação negativa é tão grande, que dá vontade de jogar a toalha, mas esse momento exige assertividade.

DEBATE COM A PLENÁRIA

1 – Docente da Faculdade de Educação da Unicamp pergunta para  Marcos sobre a ideia de priorizar o município como esfera de ação. “Isso na Espanha tem acontecido muito. O desafio no Brasil é que focamos no espaço federal.  Não vejo a perspectiva das pessoas se envolverem numa democracia que esta só aqui em Brasília, sendo que a realidade muitas vezes está a mais de 1000km daqui”.

2 – Pedro, doutorando em saúde coletiva Unicamp. “O quanto essa confusão de que a educação formal (alfabetização) é necessária para avançar nos espaços educadores está nos travando?”

3 – Geraldo, do Caparaó, Rede Capixaba de Educação Ambiental. “A agroecologia é a prática que nos falta na educação ambiental”.

4 – Eli Lino de Jesus - Professor do curso de Agroecologia, do Instituto Federal do Sudeste de MG. “ Os cursos de agroecologia enfrentam muitas dificuldades. Os cursos formais necessitam de apoio para aprofundamento. Os cursos têm enfrentado barreiras enormes, os conselhos de classe profissionais não querem registrar o título dos formados em agroecologia, os concursos não selecionam agroecólogos. O agroecólogo não pode ser menor que os agrônomos. A ABA não prioriza esse debate há muito tempo”.

5 – Tadeu –“Sou resultado das políticas públicas, dos pontos de cultura, das salas verdes, de todo esse processo. O espaço da educação não é só o espaço das escolas, é no nosso dia a dia no contato com os diferentes. Agradeço pelas falas, que inspiram e dão ânimo”.

6 – Tiago – Fórum Alternativo Mundial da Água – embora a atividade seja tão rica, ele nota que o paradigma dominante vai se apropriando dos discursos e tentando coexistências. “Na abertura do evento foi falado que a agroecologia pode conviver com o agronegócio. Como conseguimos fugir disso? Como resistimos a apropriação dos espaços?”

CONSIDERAÇÕES FINAIS E RESPOSTAS AOS QUESTIONAMENTOS

Luciana Jacob

Sobre a metodologia campesino-campesino – existe uma pluralidade de saberes. Quem escolhe os saberes importantes são os grupos dominantes, que muitas vezes dizem: é importante só ser alfabetizado.

Com relação à ABA, esclareceu que se trata de um espaço de debate, dinâmico e que só funciona com a participação das pessoas. O GT está aberto para acolher diversos pontos de vista. Fica o convite para quem está presente. A ABA acolhe e dinamiza discussões.

Marcos Sorrentino

Ressaltou a importância da mídia na revolução. Precisamos fortalecer as mídias alternativas.

Como atuamos a partir do município? Como enfrentamos o coronelismo instalado nos municípios? Uma ideia é a construção de círculos de cultura, que dialoguem sobre essa agenda. É necessário formar uma rede, uma malha de cultura, com espaços de encontro, onde se discuta teoria e se pratique ações coletivas, que vai desde plantar juntos até incidir em políticas públicas. A comunicação é fundamental para uma rede de diálogo.

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#AT65 – Painel IV – Campesinato e Soberania Alimentar na América Latina

Panel IV – Campesinato y Soberanía Alimentaria en América Latina

Dia 14 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Peter Rosset (ECOSUR – México); Frei Sérgio Görgen (MPA); Iridiani Seibert do Movimento do Mulheres Camponesas (MMC); Glaicon José Sell (agricultor). Coordenadora: Islândia Bezerra (ABA)

Relato:

Atividade de diálogo sobre Campesinato e Soberania Alimentar na América Latina. Composição da mesa: Peter Rosset da Via Campesina Internacional, Frei Sérgio Sérgio Görgen, do Movimento dos Pequenos agricultores,  Iridiani Seibert do Movimento do Mulheres Camponesas (MMC),Glaicon José Sell (agricultor litoral catarinense). Metodologia do debate: exposição de ideias dos palestrantes e abertura ao público para contribuições por escritos ou com microfone.

O diálogo trouxe contribuições importantes para o contexto histórico e político que o Brasil vive, evidenciando o papel transformador da juventude e mulheres na luta da classe do campesinato pela soberania nos territórios. Traz também a reflexão sobre o fortalecimento das relações entre o campo e a cidade para o enfrentamento das alianças do agronegócio com as forças políticas e internacionais que mudaram o contexto dos latifúndios.  Debateram também sobre as estratégias que são fundamentais para a massificação da agroecologia.

 Contribuição de Peter Rosset:

Peter, representante da Ecosur no México, apresentou de forma sistematizada sete teses para agroecologia e soberania alimentar, descritas abaixo:
1. Avanço do capitalismo e dos regimes de direita:  A nova conjuntura política enfrenta uma guerra pela terra, ampliando as alianças com a mineração, a construção e as grandes empresas que investem e buscam minimizar a força da agroecologia. O agronegócio, possui seus aliados dentro dos partidos políticos e são alinhados com o capital internacional, tais como os EUA, China e Canadá. Desta forma, controlam a mineração com forças repressivas e difícil enfrentamento. Autonomia e massificação da agroecologia é um elemento chave, pois ajuda a construir a conjuntura que enfrentamos. O crescimento da participação e do papel dos jovens e das mulheres é muito forte e fundamental.
2. Implicações para reforma agrária e para aliança campo-cidade: Uma chamada por uma nova reforma agrária popular, baseada em uma política de conciliação é necessária, pois o latifúndio atrapalha a aliança entre a classe camponesa do campo e a burguesia da cidade. A mineração e o agronegócio que destroem o meio ambiente são sistemas produtivos. O argumento de dizer que os latifúndios não produzem foi derrubado. Apelar por uma reforma de conciliação de classes é uma estratégia fraca por causa do novo poder do capital. 
3. Luta pela terra e pelo território: O capital passa por todas as terras: indígenas, de pequenos povos, pescadores e ribeirinhos. Precisamos ter uma visão territorialista para defender os territórios.
4. Hora de massificar a agroecologia: Do discurso para a prática. É necessário construir uma agroecologia mais intensificada e levá-la para uma larga escala.
5.Nova agroecologia de disputa: Qual agroecologia vamos massificar? Disputa real com o agronegócio, pois acabam com o solo, contribuem para as mudanças climáticas e realizam campanha de um agronegócio verde. 
6.Autonomia para as famílias campesinas: É o elemento chave. Permite melhorar a gestão e a produção com recursos agroecológicos.   
7. Forças às diversidades – Mulheres, Juventudes: Fenômeno muito forte está sendo o movimento das juventudes e o movimento feminista das camponesas populares. Estão lutando pelo fim de qualquer tipo de violência contra as mulheres, por reconhecimento e por autonomia nos espaços.

 Frei Sérgio Görgen (MPA)

Frei Sergio possui visão religiosa cristã, ex-deputado, agricultor e integrante do Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA. Afirmou, em sua exposição, que o agronegócio não é somente uma nova tecnologia de produção. O agronegócio vai além disso. É um novo pacto de poder e controle do capital pelo governo internacional e pelas empresas multinacionais

Por isso, traz um desafio novo para o campesinato: a luta pelo território. Este não enfrenta o latifúndio somente regional e sim uma dimensão internacional. Por isso, é necessário criarmos uma nova visão de mundo e diversas alianças. A disputa da agroecologia nas universidades é fundamental. Não pode se olhar somente com a visão urbana. A agroecologia não se faz somente com técnicos agrícolas, é necessário que envolva todas as profissões que se relacionam com esta temática.

O campesinato precisa estar organizado. É uma ciência de um novo paradigma, uma nova cosmovisão. Para isto é necessário inverter os olhares para transformar a realidade. Para fazer essa transição em massa é importante ver a agroecologia como uma nova visão de nação e de mundo. É importante impulsionar um projeto revolucionário alternativo, como a reforma agrária popular, que seja capaz de mudar as relações entre o campo e a cidade. A transformação é importante na sucessão rural, também, porque há o registro de patriarcalismo no campo. O novo camponês precisa da visão sistêmica e holística, sem moralismo religioso. A nova geração camponesa precisa ser revolucionária!!

 Islândia Bezerra:

Islândia é feminista com atuação no campesinato e acredita em sua atuação como sujeito histórico, que segue resistindo ao poder hegemônico. A palestrante afirma a necessidade de eliminar a desigualdade na classe do campesinato. Os povos (negros, indígenas e ribeirinhos) vieram resistindo e mostrando um pouco do olhar ecológico. Além da diversidade de etnias e povos, existe uma identidade comum da classe camponesa, que é a relação com a terra, a natureza e o alimento. No processo histórico, esses povos foram capazes de realizar o melhoramento e a domesticação dos cultivos, produzindo conhecimento antes mesmo dos laboratórios e as pesquisas científicas. Transmitiram conhecimento de geração a geração e isso caracteriza-se como agroecologia: um processo real e cotidiano dos camponeses. Aos poucos esses conhecimentos foram trazidos para os estudos e as pesquisas, contribuindo assim para a valorização das práticas.

A força do movimento social e sua articulação é fundamental. É claro a impossibilidade de convivência entre agroecologia e o modelo capitalista, pois são antagônicos. Agroecologia não é um negócio, não pode ser vista como uma forma de ter lucros e ser apropriada nas mãos de poucos.

A agroecologia possui visão de abundância e partilha do conhecimento. Não pode fechar os olhos para o massacre que os camponeses e indígenas enfrentam com conflitos no campo nessa conjuntura política. Não é uma luta só pelos recursos naturais, mas também pelas relações sociais de forma democrática.

 Glaicon José Sell

Glaicon é agricultor e presidente do Instituto Eco. Discursou sobre o exemplo claro da soberania alimentar como uma política pública capaz de realizar uma transformação para área rural, contribuindo para os benefícios do crédito ao agricultor. Hoje é possível ver no país inúmeras pessoas dispostas a contribuir e a construir esse movimento. Relata sua experiência como agricultor, com a venda dos seus produtos em uma feira com mais 21 anos em Florianópolis, onde há clientes fiéis e periódicos que conseguem contribuir muito mais do que a simples compra do produto.

A agroecologia possui um empoderamento que o agronegócio não é capaz. Em um litro de terra viva há uma quantidade de vida incontáveis e que são transferidas para o alimento de origem ecológica. É possível ter uma transformação!  A culpa das sementes geneticamente modificadas e dos inseticidas é de quem consome. Hoje o poder da juventude está se levantando com uma força tão grande, potencial de revolução, jovens que retornam para o campo sem vergonha. Não precisa ter medo, pois cabe a todos nós! A sociedade é capaz e deseja essa mudança, esse congresso é um exemplo disso.

“Viva como se fosse morrer amanhã e faça agricultura como se fosse viver para sempre”. Josan Clay – WWF

Contribuições do público participante:

-      Jovem diz que a produção orgânica não usa agroquímicos, mas também, muitas vezes não respeita princípios de conservação ambiental. Afirma a necessidade de fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia.

-    É claro que o estado burguês não quer reconstruir a soberania alimentar. O poder hegemônico constrói uma cortina de fumaça e agrega os dois termos: segurança alimentar e soberania, sendo que há grande diferença nos conceitos, não podem se apropriar da palavra.

-   Um estudo do Pronaf tinha a missão de inserir o campesinato no agronegócio e essa não é a saída!

-      O Frei Sérgio ao ser questionado sobre ideologias de gênero, diz seguir sua visão religiosa. Acredita no princípio do evangelho de amar uns aos outros, independente das definições de gênero. A sociedade como um todo, independente dos posicionamentos de ideologia, precisa de um novo encantamento com a natureza.

-       O camponês precisa se apropriar do campo, precisar revalorizar e mudar a ótica do campo. O que o capitalismo fez foi desvalorizar essa visão para ter massa trabalhadora a baixo custo nas indústrias urbanas e periurbanas. Dessa forma, ganhou espaço no campo para o latifúndio.

-  Na luta contra o golpe a juventude e as mulheres foram as maiores expressões com protagonismo em defesa da ocupação pública. Assim, diversidade sexual não pode ser discutida sem também discutir o perfil das mulheres e das relações raciais.

-    O preço mais alto dos produtos orgânicos considera as dimensões sociais e ambientais, que não são consideradas nos custos dos produtos convencionais.

 

Facilitação Gráfica:

Notícias:

http://agroecologia2017.com/campesinato-e-soberania-alimentar-na-america-latina-e-tema-de-debate-no-x-congresso-de-agroecologia

http://www.cloc-viacampesina.net/portugues/brasil-campesinato-e-soberania-alimentar-na-america-latina-e-tema-de-debate-no-x-congresso

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#AT64 – Painel III – Agrotóxicos, Transgênicos e Agrobiodiversidade

Panel III – Agrotóxicos, Transgénicos y Agrobiodiversidad

Dia 14 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Eckart Boege (Universidade Veracruzana – México); Karen Friedrich (FIOCRUZ); Gabriel Fernandes (ASPTA); Coordenadora: Maria Emília Pacheco (FASE)

Arquivo:

Apresentação Gabriel Fernandes

Relato: 

Maria Emília Pacheco, coordenadora do painel, inicia a atividade convidando os palestrantes Eckart Boege e Gabriel Fernandes e a palestrante Karen Friedrich para subirem ao palco. Em seguida, fala da importância do painel: é um convite para um debate sobre o impacto dos agrotóxicos e transgênicos que afeta toda a cadeia alimentar”. 

Eckart Boege traz para o debate “a coexistência impossível entre o patrimônio biocultural, centros de origem e diversificação genética do sistema alimentar do mundo, e os organismos geneticamente modificados”.

Segundo Eckart, o México é o quinto país do mundo com mais diversidade biocultural. Já o Brasil encontra-se na primeira posição. Ainda de acordo com o palestrante, os povos indígenas da Mesoamérica deixaram como legado para o mundo a domesticação de mais de 200 espécies do sistema alimentar.

Como exemplo desse legado, Eckart cita o sistema Milpa como o laboratório mais importante da domesticação Mesoamericana, “que é invisibilizado pelo Estado mexicano e pela investigação científica”, afirma. O palestrante enfatiza o fato do México todo ser um centro de origem e diversificação genética do milho.

Durante sua apresentação, Eckart pontua as teses centrais do patrimônio biocultural, dentre elas: 

- Os camponeses, indígenas e afrodescendentes são, na América Latina, os guardiões da grande maioria dos recursos genéticos que conformam a agrobiodiversidade mundial.
- Os conhecimentos tradicionais são a memória biocultural da humanidade.

O palestrante ainda destaca “os efeitos do totalitarismo tecnocientífico da agricultura industrial (organismos geneticamente modificados - OGM)”, dentre eles:

- Destruição dos sistemas agrícolas tradicionais.
- Desprezo dos conhecimentos tradicionais, da diversidade biológica e da agrobiodiversidade.
- Geração de situações ambientais irreversíveis.

De acordo com o palestrante, os organismos geneticamente modificados oferecem riscos aos milhos crioulos, como a contaminação genética, e é categórico: “não pode haver uma coexistência entre os OGM e os milhos crioulos”.

Ao tratar da agricultura agroecológica e da diversidade biocultural, Eckart mostra que os níveis de biodiversidade regulam o funcionamento de ecossistemas e proporcionam serviços ecossistêmicos de significado local e global e segurança alimentar local. “Além disso, os sistemas de produção de alimentos têm uma maior eficiência energética”, destaca.

Karen Friedrich inicia sua contribuição trazendo o paradigma da regulação dos agrotóxicos no Brasil. De acordo com a palestrante, este paradigma se baseia nas seguintes premissas:

1. Agrotóxicos são necessários para a produção de alimentos
2. Empresas tem direito à ampla defesa dos seus produtos
3. Ineficiência dos espaços de participação social
4. Assimetrias de informações
5. Hipervalorização da tecnologia e do poder econômico
6. Neutralidade da Ciência
7. Linearidade da dose efeito, assumindo que existem níveis seguros de exposição

De acordo com Karen, essas premissas “são muito trabalhadas pela indústria” e implicam em alguns problemas, tais como, pouco espaço para a defesa da vida, baixa participação social nos processos decisórios, valorização da tecnologia em detrimento dos saberes tradicionais e na falsa neutralidade da ciência.

Karen também fala sobre o paradigma da toxicologia – trata-se da linearidade da curva dose e efeito. Segundo este paradigma, há limites seguros e risco aceitável para o uso de agrotóxicos, afirma. Contudo, a palestrante pontua que: “quem define esse aceitável é um grupo muito pequeno de pessoas” e que “não existem limites seguros e não existe risco aceitável para o uso de agrotóxicos”.

(…) o câncer é uma doença para a qual não existe um nível seguro”

Dessa forma, os agrotóxicos causam danos ao sistema hormonal dos seres humanos e há grupos populacionais mais vulneráveis, como gestantes e crianças, enfatiza Karen.

(...)tanto quem trabalha quanto quem come.”

Segundo Karen, os agrotóxicos estão presentes no trabalho, na mesa, no ambiente, no campo e na cidade. E causam doenças, mortes e suicídios através da ingestão da água e de alimentos. Além disso podem ser absorvidos pela respiração, pele, pelo leite materno e na gravidez, enfatiza. 

A agroecologia é melhor prevenção das doenças causadas pelos agrotóxicos”.

Sobre os efeitos ambientais dos agrotóxicos, ela destaca a contaminação na água que se consome dos rios e aquíferos. 

Karen também pontua que “a utilização de sementes transgênicas resistentes ao glifosato também aumentou o uso desse herbicida no Brasil e em outros países”.

A palestrante ainda trata das limitações e fortalezas da regulação atual do uso de agrotóxicos. “Resultados de estudos apresentados pelas indústrias sendo avaliados pela ANVISA E IBAMA, testagem de um único agrotóxico pelas indústrias para determinar as quantidades que podem estar nos alimentos, na água e no ambiente”, são exemplos dessa limitação, afirma Karen. 

No que se refere às fortalezas, Karen afirma que “os municípios e estados podem ter leis mais restritivas e até proibir agrotóxicos permitidos no Brasil. ANVISA e IBAMA podem vetar registro”, dentre outros. Contudo, “o Projeto de Lei do veneno que defende a pulverização aérea de locais habitados para controle de arboviroses, quer acabar com as fortalezas da legislação”, pontua Karen.

Gabriel Fernandes complementa “as empresas e setores que falavam que precisávamos de agrotóxicos para combater a fome, são as mesmas e os mesmos que dizem que os transgênicos preservam a natureza”. 

De acordo com ele, a fome persiste e está aliada aos problemas decorrentes da má alimentação: “promessa feita lá atrás não se realizou e não teria como se realizar”.

O palestrante ainda destaca que a expansão dos transgênicos ocorreu na década de 1990, marcada pela mudança do contexto global e introdução de uma nova tecnologia. Além disso, o poder do Estado foi reduzido pela globalização neoliberal em detrimento do poder das empresas, afirma Gabriel. 

De acordo com ele “esse modelo neoliberal de globalização introduziu um regime global de proteção intelectual que o Brasil vai incorporando em sua legislação e depois criando suas próprias leis”. 

Esse modelo, destaca Gabriel, foi responsável pela revolução das relações sociais e de poder por meio das técnicas: “os genes se tornaram uma mercadoria”.

Facilitação Gráfica:

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#AT27 – Painel II – Memória da Agroecologia

Panel II – Memoria de la Agroecología

Dia 13 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Manuel González de Molina (Universidad Pablo de Olavide – Espanha); Víctor Manuel Toledo (Universidad Nacional Autónoma de México); Jean Marc von der Weid (ASPTA); Coordenador: Miguel Altieri (SOCLA – Chile)

Arquivos:

Apresentação Manoel Gonzalez de Molina – Memorias de la Agroecología

Artigo Jean Marc von der Weid

Relato:

Miguel Altieri, coordenador da mesa, abriu o painel saudando a todos os presentes e justificando a ausência de Fernando Funes Aguilar, da Estacion Indio Hatuey, de Cuba, ausente devido às consequências do furacão Irma, e do professor Victor Manuel Toledo, da Universidad Nacional Autônoma de México, por problemas de saúde.

A dinâmica do painel consistiu na apresentação de cada palestrante, seguido por um debate com a plenária. As apresentações seguiram a orientação de apresentação do contexto, origem da agroecologia, desafios, conquistas e caminhos a seguir.

Para iniciar o painel, Miguel Altieri fez um resgate do processo de construção da agroecologia na América Latina desde a década de 70, quando ainda se utilizava o termo agricultura alternativa. Nesse período as reflexões giravam em torno da necessidade de se estudar práticas de produção agrícola que fossem um contraponto ao modelo agroindustrial preconizado pela Revolução Verde que levasse em consideração, não apenas os aspectos produtivos, mas também os sociais, culturais e ecológicos que envolviam os campesinos da América Latina.

Essa perspectiva mais abrangente não encontrava respaldo político e científico, já que no contexto da ditadura militar, presente em diversos países da América Latina, as políticas governamentais tinham como foco a busca por propostas técnicas e pacotes tecnológicos que pudessem aumentar a produção no campo. Nas universidades, a agroecologia também não existia enquanto ciência. A agroecologia entrou nas universidades por meio dos estudantes e alguns professores, que foram buscar junto às organizações da sociedade civil e às ONGs, experiências práticas que vinham sendo desenvolvidas nesse campo. As pontes criadas entre os movimentos campesinos, as ONGs e a universidade ao longo dos anos até os dias atuais foi o que permitiu que a agroecologia entrasse na agenda política e na academia.

A agroecologia está hoje presente em cursos de mestrado e doutorado das universidades, onde se procura dialogar e valorizar o conhecimento campesino. A agroecologia é hoje reconhecida como um caminho fundamental nos debates sobre segurança e soberania alimentar, assim como na pauta atual das mudanças climáticas. O reconhecimento e a conquista de espaços são hoje os grandes resultados desse processo.

Intervenção da plenária - Sem Feminismo não há agroecologia! Mulheres da plenária organizaram a intervenção para protestar pela ausência de mulheres na mesa. Falar das memórias da agroecologia sem falar de mulheres, é falar de apenas metade da história.

Após o término da fala de Altieri, Manuel González de Molina Navarro (Universidad Pablo de Olavide, Espanha), apresentou um relato do histórico da agroecologia na Espanha, mais especificamente na região da Andaluzia.

Na década de 80, num contexto de destruição do emprego causada pela industrialização da agricultura, concentração de terras e baixa qualidade de vida da população, emerge na região de Andalucía uma confluência de correntes de pensamento e ação, que envolvia o movimento campesino, o movimento ecologista pacifista e grupos universitários unidos em torno do Andalucismo Politico e da luta pela soberania. Esse movimento gerou resultados, influenciando uma lei sobre reforma agrária e uma politica de combate ao desemprego.

Com a entrada da Espanha na OTAN, a esquerda espanhola e o movimento pacifista utilizam a oportunidade para mobilizar a opinião pública sobre a importância do meio ambiente e da paz. Paralelamente, um grupo de pesquisadores, de composição interdisciplinar - sociólogos, economistas, historiadores, entre outros - se articulam em torno da reflexão sobre o futuro do meio rural de Andalucía, elaborando propostas, de natureza política e ecológica, para a superação do subdesenvolvimento do meio rural andaluz. Nesse cenário, em que mais informações e experiências sobre agricultura orgânica e ecológica eram necessárias, se estreitaram os laços de cooperação com a América Latina.

Em 1996, apareceu a primeira edição do mestrado em Agroecologia na Universidade de Andaluzia, que se tornou ponto de encontro de formação da primeira geração de agroecólogos da Espanha. Hoje um desafio posto à agroecologia é o alcance de uma escala mais ampla de produção e consumo. Outro desafio é a necessidade de incorporar a agroecologia na agenda política, criando assim mecanismos para esse ganho de escala.

Jaime Morales Hernandes - Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, México.

O México é um país de uma grande diversidade ecológica e cultural, centro de origem de diversas plantas cultivadas. Por outro lado, é um país de muito conflito rural, tendo sido um dos primeiros países afetados pela revolução verde e por uma série de medidas neoliberais.

Nesse contexto, a discussão sobre a agroecologia emerge dentre alguns pesquisadores da área de ciências agrarias, que buscavam alternativas ao modelo agroindustrial e que achavam importante que fossem considerados os aspectos culturais, sociais e políticos da agricultura praticada pelos povos indígenas e populações campesinas.

Os movimentos campesinos no México foram o ponto e partida de onde nascem as experiências práticas em agroecologia. A partir daí começam as articulações entre as universidades e os movimentos sociais em torno da agroecologia. O processo de incorporação da agroecologia enquanto ciência nas universidades foi longo e exigiu esforço de superação, já que todo o paradigma agronômico estava pautado nas premissas da revolução verde.

Como resultados desse processo hoje as universidades vem formando uma série de agricultores, professores e consumidores. Além disso, a associação do movimento agroecológico aos movimentos sociais urbanos vem trazendo grande visibilidade à pauta agroecológica, sensibilizando consumidores sobre o papel político do consumo e da produção de alimentos saudáveis. Como caminhos futuros, o palestrante apontou a necessidade de se ampliar o dialogo científico interdisciplinar, a articulação entre os movimentos sociais, o fortalecimento da agricultura urbana e peri-urbana, assim como desenvolvimento de estudos técnicos que permitam uma melhor manejo dos agroecossistemas.

Eric Holt Gimenez – Food First

O movimento campesino é mais antigo que o movimento agroecológico e está presente em diversos países. Na Guatemala, assim como em diversos outros países, a história do campesinato é marcada pela opressão social, cultural e racial. Nas regiões das ladeiras guatemaltecas, os campesinos encontravam-se relegados a terras marginais, pequenas e com alta declividade, as ladeiras. Nesse contexto opressor, os campesinos trabalhavam para as fazendas produtoras de banana, e suas pequenas propriedades estavam entrando num ciclo de degradação, com perda de vegetação e de solo.

Nessas condições, um perito agrônomo e mestiço, comprou uma parcela degradada e começou a trabalhar, quando se deu conta de que os fatores limitantes da produção eram solo e agua. Foi a partir daí que se iniciou o dialogo com os campesinos da região, buscando resgatar sementes e práticas da agricultura indígena local. Com esse aprendizado, começou a desenhar tecnologias e a produzir cada vez melhor, sem o uso dos pacotes tecnológicos, tão utilizados por fazendeiros da região. Os conhecimentos gerados eram então compartilhados com seus vizinhos indígenas, que começaram a experimentar essas tecnologias. Esse foi o inicio da metodologia campesino-campesino, que posteriormente foi ampliada e difundida. Nessa metodologia de intercâmbio, o foco não é a troca de informações, mas sim o compartilhamento da cultura, da sabedoria de cada um, que gera como resultado uma nova informação, um novo conhecimento.

No processo de construção do conhecimento, a participação das mulheres foi fundamental, haja vista que elas eram as donas do quintal e detinham todo o conhecimento do manejo das espécies alimentares e medicinais. Eram nesses espaços que elas faziam suas experimentações e onde estava a inovação campesina.

Com o fortalecimento da produção, os homens deixaram de trabalhar fora e, junto com as mulheres, passaram a produzir seu próprio alimento.  Foi quando criaram uma cooperativa de produção, que a cada ano crescia. O espaço da cooperativa se converteu num centro de encontro social, seus sócios chegavam a caminhar 3 horas por dia para participar das reuniões, estimulados pelo processo social que acontecia. Diversificando a produção, passaram a produzir um café de alta qualidade, rivalizando com os cafeicultores locais. O sucesso da cooperativa gerou disputas locais, o que levou a destruição da mesma por grupos opositores. Esse ataque mobilizou o grupo, que passou a se articular a nível regional, com campesinos de outros países da América Latina.

Esse é o relato da experiência da metodologia campesino-campesino, que nasce dessa fronteira da opressão. Foi nessa articulação com outros países que tiveram contato com o termo agroecologia, e então descobriram que estavam praticando era a agroecologia.

Jean Marc Van Der Weid (ASPTA) iniciou sua trajetória na agroecologia entre os anos de 81 e 82, quando elaborou, juntamente com a Pastoral da Terra, o Projeto de Tecnologias Alternativas – PTA. A ideia era escrever um projeto ambicioso, que atendesse a todo o campesinato do país e não apenas à uma comunidade. Hoje, após 35 anos de trajetória profissional, ele identifica o forte crescimento da pauta agroecólogica, sendo esse congresso um exemplo disso, ao mobilizar cerca de 5000 pessoas.

Na sua análise identifica que o resultado mais significativo é a inserção da agroecologia no centro da agenda política dos movimentos sociais, como instrumento para viabilizar o projeto de reforma agrária e de protagonismo dos agricultores na construção de alternativas à produção. A agroecologia é um campo do conhecimento e uma prática que serve de alternativa ao sistema capitalista do agronegócio, no entanto só poderá se consolidar como alternativa se tiver as condições políticas adequadas. Outro resultado relevante foi a articulação com outros setores da sociedade, como os consumidores, nutricionistas, ambientalistas, profissionais de ciências agrárias, sociólogos e economistas.

A agroecologia entrou no vocabulário político dos agricultores e consumidores não apenas por meio do discurso, mas principalmente pela prática. O desafio era dar escala a essas práticas e facilitar a transição agroecologica dos agricultores familiares, já que muitas dessas experiências aconteciam de forma lenta e pouco eficiente, demandando um número grande de técnicos para atender poucas famílias. Foi daí que eles começaram a desenvolver e a testar metodologias participativas e puderam dar escala a esse tipo de ação. A experiência da AS-PTA na Paraíba foi onde conseguiram os maiores avanços com o uso de metodologias participativas e  efetivamente aprenderam a aprender com os agricultores e com seus próprios erros.

Para dar escala ao trabalho, outra estratégia adotada pela AS-PTA foi o diálogo com o Estado para a construção de políticas públicas. Esse trabalho, que foi iniciado ainda no governo Fernando Henrique, se ganhou força no governo Lula, com a criação do CONDRAF. A experiência de participar dessa instância de construção de políticas politicas foi ao mesmo tempo rica e frustrante, pois conseguiram muitos avanços na construção da política de ATER, mas não conseguiram muito resultados na adequação da política e crédito para a agricultura familiar, o PRONAF.

Na construção da política de ATER conseguiram pautar melhorias nas chamadas públicas, mas a forma de contratação e execução dos projetos engessa as organizações e não favorece uma dinâmica social e a participação dos agricultores.

Hoje o contexto político está complicado e os poucos avanços que foram feitos podem ser liquidados, haja vista a própria extinção do Ministério de Desenvolvimento Agráfio - MDA. Para reverter ou frear isso é necessário um esforço de mobilização forte para retomar as pautas no âmbito politico.

Por fim, ele finalizou sua palestra informando que se desvinculou da AS-PTA em julho do corrente ano, uma vez que a organização passa por uma crise financeira e que ele, enquanto profissional que atua na área de influência de politicas públicas, fica sem espaço de atuação nesse contexto político desfavorável. Irá se dedicar agora a escrever sobre sua trajetória na construção de metodologias participativas e influência em políticas públicas.

Abertura de diálogo com a plenária 

Bloco de perguntas e manifestações:

1 - Pergunta - Como se dá a valorização e o lugar da mulher dentro desse processo de construção da agroecologia?

2 - Manifestação - Os movimentos devem definir a educação do campo como um dos caminhos mais relevantes para a defesa e a preservação da memória da agroecologia. Fizeram uma carta de defesa à manutenção do PRONERA;

3 - Manifestação - a AS-PTA foi referência para toda uma geração que vem hoje trabalhando com a agroecologia. A crise da AS-PTA nesse contexto político desfavorável é preocupante. Hoje após o golpe, ela se pergunta por que não conseguimos alavancar a metodologia campesino-campesino no governo Lula, quando o contexto era mais favorável. Com isso não estamos tendo resiliência para enfrentar a falta de recursos e outros obstáculos.

4 - Pergunta - Sobre a metodologia campesino-campesino, qual o papel da organizações mediadoras (ONGs) nesse processo?

Eric Holt Gimenez

A respeito da pergunta 1 - A mulher já abriu espaços na luta. Quando começaram a trabalhar com a metodologia campesino-campesino,  as mulheres foram convidadas a participar, mas de início tiveram muita dificuldade em achar espaço. Com a participação das mulheres puderam aprender coletivamente que a mulher detinha o conhecimento do manejo da saúde familiar, do quintal, das hortaliças. Aos poucos isso foi sendo aceito pelos homens. A participação das mulheres foi fundamental para mudar o movimento de dentro para fora.

Jean Marc Van Der Weid

A respeito da pergunta 1- A experiência da ASPTA demonstra o papel crucial das mulheres na agroecologia, tanto no movimento quanto na produção.

A respeito da pergunta 4 - A AS-PTA absorveu muita coisa da metodologia campesino a campesino. No Brasil, as organizações mediadoras (ONGs) tem um papel preponderante, mas eles sempre buscaram o protagonismo dos pólos sindicais e das associações, pois a ideia é que um dia não seja mais necessária a presença da mediadora no território.

 

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#AT26 – Painel I – Sem Feminismo não há Agroecologia

Panel I – Sin Feminismo no hay Agroecología

Dia 13 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Emma Siliprandi (GT Mujeres, Agroecologia y Economia Solidária de CLACSO – Espanha); Sylvia Vidal (AMA-AWA); Sarah Luiza da Marcha Mundial das Mulheres; Larissa Henrique Nunes (REGA); Maria José Morais Costa  (Secretaria de Mulheres da Contag); Maria do Socorro Santana (representante das quebradeiras de coco – MA- PI- PA); Rosangela Piovizani (MMC-DF); Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE); Elisabeth Cardoso (CTA-ZM e GT de Mulheres da ANA) . Coordenadora: Laetícia Jalil (ABA)

Relato

Mística de abertura:

Apresentação da peça “Bendita dica” Companhia Burlesca;


Laetícia Medeiros Jalil - GT de gênero da ABA

Comunicou o ato que houve pela manhã, no Auditório Babaçu, a #AT27 Painel II – Memória da Agroecologia, em que mulheres se mobilizaram para fazer uma intervenção na atividade em que só havia homens brancos falando sobre a memória da agroecologia, sem representatividade de mulheres, da juventude, de grupos indígenas e quilombolas. As mulheres se dispuseram a fazer moção de repúdio à mesa branca, racista e machista, patriarcal e heterossexual, pela manhã.

Emma Siliprandi (GT - Mulheres agroecologia y economia solidaria de CLACSO - Espanha)

A palestrante começa sua fala pontuando a presença das mulheres em todas as áreas vinculadas à agroecologia: produção agrícola, comercialização, transmissão de conhecimentos, criação de animais, agroextrativismo, pesquisadoras, pecuária etc. Contudo, devido às atribuições de gênero na sociedade, as mulheres são invisibilizadas e têm que fazer um maior esforço para serem vistas, ouvidas, contempladas. Mesmo nessa condição, a maneira diferenciada pela estrutura de gênero com que as mulheres olham a terra, cuidam da terra, está em consonância com a diversidade, que é um princípio fundamental da agroecologia. Por que sem feminismo não há agroecologia? Porque o feminismo é nossa ferramenta teórica, que ajuda a entender como aceitamos determinadas inferioridades, e a entender a forma diferenciada com que a opressão generalizada se manifesta em diversas culturas. Um movimento agroecológico que não tem a visão feminista é incompleto.

Sylvia Papuccio de Vidal da AMA-AWA

Sylvia inicia sua fala pontuando o feminismo como uma corrente teórica e plural dos movimentos sociais, destacando o ecofeminismo como um projeto macro. Sempre que se fala em determinadas “atividades das mulheres” dentro da agroecologia, como buscar água, lenha, produção de alimentos, se está falando em feminismo. Em sua fala, sintetiza que existe uma semelhança entre projetos de dominação do capitalismo e das mulheres: a violência globalizada, a produção extrativista, o trabalho grátis e a degradação ambiental se convertem em questões feministas que nos ajudam a compreender os vínculos que existem entre a dominação delas e da natureza, pois o capitalismo precisa dessa estrutura para se manter. O feminismo não é visto como problemas entre os homens, e sim como problemas entre os homens e as mulheres. Enquanto a masculinidade é colocada como força, ação e determinação, os homens estão expostos a situações constantes de impotência, falta de emprego, precariedade, desarranjos comunitários, familiares, escassez de recursos, e não tem acesso a diversas formas de vida. Por isso, devemos combater a pedagogia da crueldade e substituí-la pela pedagogia do cuidado. Nesse ponto, afirmou Silvia, as mulheres têm muito para contribuir com a humanidade, a natureza, e uma vivência sustentável. É necessária uma discriminação positiva; incluir as mulheres nas práticas produtivas, comerciais. Já se sabe que são muitas, que fazem, estão em todas as áreas. As políticas agroecológicas devem incluir as demandas dos feminismos. O feminismo que reclama a agroecologia latino-americana não é um feminismo radicalizado, mas um feminismo que reconhece a violência entre mulheres e a natureza.

Sarah Luiza - Marcha Mundial das Mulheres

A palestrante inicia sua fala pontuando que a pactuação entre as lutas do feminismo e da agroecologia partem das experiências das mulheres nos seus lugares e territórios, mas também estão conectadas com análises anticapitalistas, antirracistas e antilesbofóbicas. Segue falando sobre como o capitalismo – crise e reestruturação, e novos mecanismos de controle sobre nossos corpos e territórios tem sido utilizados com o aumento de diferentes formas de violência e controle. Disse ainda que um deles foi um Golpe de estado que vários países estão vivendo, inclusive no Brasil – um grito de “FORA TEMER” surge na plateia. Diz ainda que as mulheres precisam ser ouvidas, ser reconhecida a contribuição para a história e a memória da agroecologia, para um mundo melhor, mais justo e mais igualitário. Luiza afirmou que não podemos admitir violência contra mulheres em lugar nenhum, é necessário haver um enfoque sistêmico de verdade, precisa-se considerar as dimensões ecológica, politica, ética, e não se pode acreditar nas estruturas estruturadas em bases desiguais de poder. A agroecologia não pode ameaçar a produção das mulheres quando elas saem para participar da política, estas não podem ser ameaçadas quando saem de casa para estudar, pensar, refletir, atuar, “não podem dar menos importância para o que falamos, pensamos”, não se pode aceitar que elas comam menos porque é esperado que elas cuidem dos outros e pensem menos nelas que nas famílias, a agroecologia precisa ver e ouvir todas as pessoas, ver e ouvir todas as mulheres; Por isso que SEM FEMINISMO, NÃO HÁ AGROECOLOGIA!

Finaliza convocando o público a cantar uma música:

“No batuque do tambor, a revolta social,

nós somos as mulheres da marcha mundial,

contra a pobreza e opressão do patriarcalismo patriarcal,

nós vamos provocar uma revolução mundial

Ê mulheres, mulheres, mulheres libertárias, ê mulheres feministas, revolucionárias”

Larissa Henrique Nunes da Rede do Grupos de Agroecologia (REGA - Rede dos Grupos de Agroecologia do Brasil):

Larissa começa relatando o espaço da REGA como um espaço de princípios da luta agroecológica (autogestão, autosoberania, anticapitalista) e, rememora o encontro que foi realizado ontem pelas mulheres do grupo. Tem a visão de que, se não houvesse feminismo dentro da agroecologia, esta seria um espaço ficcional, pontuando que a agroecologia é indissociável entre agroecologia, feminismo e a luta anticapitalista. Disse que se sem feminismo não há agroecologia, que é necessário entender as mulheres que compõem a agroecologia: estudantes, trabalhadoras, mulheres jovens e experientes, de todas as regiões do Brasil, a diversidade étnica, de classe. Larissa pergunta: Para fazer essa visão justa a todas as mulheres, pensamos o que a juventude e todas as mulheres precisam, tanto na esfera pessoal quanto na esfera coletiva? Pontua ainda a contribuição de mulheres negras na roda de conversa, para a fala e para não se construir a agroecologia como uma pauta universitária e branca. Para sair do ambiente ficcional de autogestão e autosoberania, diz ser necessário pensar a formação dos homens e das mulheres, a relação entre mulheres brancas, mulheres negras e mulheres indígenas, e toda essa estrutura é ignorada quando a gente fala em legitimar a fala das mulheres em um mesmo espaço. E a partir dessa real autogestão e autosoberania, levar essa prática para fora, para os ambientes institucionais.

Maria José Morais Costa da Secretaria de Mulheres da Contag:

A palestrante começa sua fala a partir da sua trajetória pessoal como testemunho da história da agroecologia: desde muito cedo começou a trabalhar como agricultora familiar, no interior do estado do Piauí, demorou para entender o papel da mulher como agricultora familiar e na agroecologia; não eram reconhecidas (mães, irmãs) e nem valorizadas. Quando muito, eram vistas como ajuda; a participação era na produção; na comercialização pouco participavam, mesmo sendo responsáveis pelas atividades dos produtos que geravam a renda. Nos sindicatos e associações não eram proibidas, mas também não eram incentivadas a trabalhar nessas instâncias. Maria José diz que sua experiência enquanto mulher mostra que são as mulheres que contribuem para os avanços da tecnologia, são as mulheres que são as defensoras e guardiãs da biodiversidade e as responsáveis pelas ervas medicinais. Acredita que a fala em feminismo e agroecologia passa sem dúvida por fortalecer a organização entre mulheres e visibilizar as contribuições individuais e coletivas. Há necessidade de manter as políticas públicas que as mulheres conquistaram e que estão sendo arrancadas, como pelo ministério do MDA, a própria SPM, reforma da previdência etc. Nessa hora, o público aplaude calorosamente o comentário de Mazé. Ela continua: “nessa escalada da retirada de direitos, não podemos recuar, temos que continuar firmes na luta, qual projeto de Brasil queremos? Todos esses golpes que têm acontecido, têm afetado diretamente a classe trabalhadora, sobretudo, nós mulheres trabalhadoras rurais, indígenas, quilombolas, que estão sofrendo tudo, esse desmonte que tem sido arrancado de nós; nem por isso estamos recuando, mas temos cada vez mais afirmado qual é o Brasil que queremos com agroecologia, com feminismo”

Maria do Socorro Santana – representante das quebradeiras de coco - MA- PI- PA

Inicia a fala com: “Nós somos as protagonistas da agroecologia de verdade! Somos nós que plantamos, conservamos e aguamos para ter o bem-viver, nós que somos as donas dessas atividades comprovadas”, e fala que as mulheres são discriminadas justamente por isso. “Porque eu quero pé de caju e meu marido quer plantar capim”. Diz que o gênero feminino é o mais forte que existe! Enfrentam grandes dificuldade com a presença do capitalismo que devora tudo que as mulheres plantam, “nós precisamos do feminismo para manter a agroecologia, e a vida porque somos nós mulheres que somos a metade da população, mas também somos a mãe do restante da outra metade, não tem nenhum fazendeiro, parlamentar, nem um toma tudo, ninguém que nasceu de outro homem, então, nós somos orgulhosas, companheiras! ”. “Vamos conquistar nossos direitos de volta! De plantar, produzir e colher, queira, ou não queiram os governantes, a agroecologia sempre existiu e sempre vai existir no campo, nas florestas, nas águas, por mulheres fortes que somos nós.”

Rosângela Piovizani – Movimento de Mulheres Camponesas (MCC)

A palestrante começa sua fala com uma saudação às mulheres, que mesmo em uma conjuntura e contexto de retrocessos, têm a capacidade de se unir, reunir e fazer luta. Acredita que é inconcebível um projeto de agroecologia que dialogue com agronegócio, chacina, violência doméstica, trabalho escravo ou qualquer forma de violência. Rosângela diz que foram as mulheres camponesas que introduziram a agricultura, que plantam as ervas medicinais, que sabem cuidar das sementes, que fizeram as primeiras modificações nelas, e que tem uma relação muito íntima com a terra, a água e a natureza. Convoca as mulheres para a luta, fala dos alcances da luta feminista, mas diz que a agroecologia deve sair das experiências locais para avançar como um projeto macro por territórios que se construam com respeito. E diz que embora tenham havido avanços, os direitos foram tirados do povo e retrocessos sofridos com o Golpe, a luta tem que continuar. “A gente precisa avançar no diálogo com as companheiras, a sociedade, trabalhadoras e trabalhadores, porque no campo estamos sofrendo com os avanços dos venenos e dos agrotóxicos...”. Convida ao grito de ordem: “Quando uma mulher avança, o machismo retrocede! ”. O público, empolgado, adere ao grito.

Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE)

Inicia sua fala fazendo uma análise do espaço das mulheres na política. Pontua que no governo Lula e Dilma houve um espaço de construção das políticas públicas, trazendo muita unidade das mulheres e, que hoje em dia os espaços construídos são os espaços de luta por novos espaços, que estão sendo construídos no Brasil, principalmente no Nordeste. Pontua a necessidade de entender a dimensão do espaço da vida rural, no campo, e pergunta: “Como essa vida se dá?”. É uma vida que não se separa do meio-ambiente, a comunidade que não se separa do ambiente, que a cerca; é um espaço onde as mulheres estão relacionadas ao cuidado de tudo que as cerca; à vida como um todo. Portanto, afirmou Verônica, falar de agroecologia é falar de recuperar todos esses saberes trazidos pela ancestralidade, e que a indústria alimentícia vem roubando. Outra pauta é a ameaça à terra que se constitui como uma ameaça direta à vida das mulheres; são todas discussões que não se dão de forma separada. Falta entender a agroecologia como um projeto de sociedade, de vida, onde se deve reconhecer o protagonismo político das mulheres que participam de todas as etapas dos processos de produção do trabalho e que devem tomar os espaços políticos e de tomadas de decisões. A construção das políticas de agroecologia e produção de orgânicos de 2012 deve entender o 1º desafio – pensar o crédito para as mulheres dentro do rural; cotas para as mulheres para ter de fato as políticas para as mulheres. Finaliza a fala fazendo um convite para o 4º Encontro Nacional de Agroecologia em Belo Horizonte em julho de 2018.

Elisabeth Cardoso (CTA - ZM e GT de mulheres da ANA) - Síntese:

Elisabeth fechou a mesa com uma síntese da fala das mulheres; pontuou a representatividade Representantes dos movimentos sociais e associações que trabalham com agroecologia e registrou um fato importante dizendo o Congresso Brasileiro de Agroecologia trouxe pela primeira vez a faixa “Sem feminismo não há agroecologia”, que fizeram um documento com o que queriam dizer e que até o ano de 2017 não mudou muita coisa (ela faz referência ao ato que houve pela manhã na mesa sobre a memória da agroecologia). Elizabeth entende que o feminismo é uma teoria crítica, um olhar de marco interpretativo que pode dar visibilidade às marcas do relacionamento opressivo entre homens e mulheres. A crítica feminista denuncia uma série de fatos que acontecem no campo e desmistifica a agroecologia. As pessoas tendem a pensar que a agroecologia é amor, que é uma coisa perfeita. Em alusão à expressão da Luísa (representante da REGA), diz que o feminismo ensina a agroecologia a não ser uma “Agroecologia de confetes”. A agroecologia acontece dentro da sociedade – ela não visibiliza, ela não ouve, não dá espaço, desqualifica as mulheres e não é só na agroecologia que existe machismo. “Aonde está o trabalho invisível das mulheres? Onde as mulheres estão sendo excluídas da assistência técnica? Das políticas públicas? Se a agroecologia quer ser coerente em desenhar um agrossistema, ela tem que ser feminista sim! Sem a gente romper com as estruturas, com nossos companheiros machistas, a agroecologia não acontece. ”. Finaliza a fala dizendo que se o feminismo não adentra a agroecologia, a agroecologia não se torna profunda, não rompe com as estruturas de poder que busca lutar contra. “É o mesmo que pesquisar indígenas sem ir à aldeia”.

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Feminismo, Agroecologia e a luta das mulheres norteiam os debates do 2º dia o X Congresso de Agroecologia

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