#AT88 – Memórias das Mulheres da Agroecologia no Brasil

Memorias de las Mujeres de la Agroecología en Brasil

Dia 14 | 14h00 – 18h00 | LOBO GUARÁ  | #Agroecologia2017

Responsável(is): Elisabeth Cardoso (CTA-ZM e GT de Mulheres da ANA); Ana Paula Ferreira (Direitos das Mulheres da Action Aid); Graciete Santos (Casa da Mulher do Nordeste); Coordenadora: Laetícia Jalil (UFRPE / ABA)

Responsáveis pela atividade: estamos ansiosos para publicar seus materiais aqui, mas precisamos de sua permissão. Basta enviar para o endereço eletrônico  relatosagroecologia2017@itbio3.org a mensagem:

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#AT71 – Mulheres e agroecologia: avanços na economia feminista e solidária

Mujeres y agroecología: avances en la economía feminista y solidaria

Dia 14 | 10h00 – 12h00 | AUDITÓRIO PEQUI | #Agroecologia2017

Responsável(is): Aymara Llanque Zonta (AGRUCO – UMSS, Bolívia); Liber Soé Puro (Agricultora e representante da Amazônia Boliviana);  Alicia Sarmiento (Agricultura Grupo Vicente Guerrero – México). Mediadora: Juliana Merçon (Universidad Veracruzana – México)

Relato:

Cleudes Pessoa (Universidade Livre Feminista):

Cleudes inicia sua fala colocando o protagonismo das mulheres na economia solidária e no cuidado. Ela diz que, pela divisão de gênero na sociedade, esse papel foi sempre pertencente as mulheres. Por outro lado, a mesma divisão que lega seu protagonismo, leva também à sua invisibilidade, afirma. As mulheres não são representantes das políticas públicas, enfatiza.  Cita o projeto Brasil Local Feminista, que buscou o olhar sobre a economia solidária feminista a partir da autonomia financeira das mulheres e também o exemplo da Feira Fértil, com o qual finaliza sua fala. A Feira é uma experiência que começou há mais de um ano, com Mônica Carapaços, do Sítio Nós na Teia, onde a troca entre os produtos é mediada por uma moeda social. Ela traz a questão: para que e por que precisamos de dinheiro? “Isso permite com que as mulheres visibilizem seus talentos ao descobrirem serviços que podem prestar e fontes geradoras de troca. Isto nos volta a uma economia da satisfação e não do “não ter”, da política da escassez e do acúmulo”. No final, há uma plataforma online para registro das experiências não citada pela palestrante.

Alicia Sarmiento Sanchez (agricultora Grupo Vicente Guerrero – México)

A palestrante é originária da comunidade de Vicente Guerrero, em Tlaxcala, no México. Campesina com orgulho de ser campesina, formada na metodologia de campesino a campesino, mãe de família e defensora, também é assessora e facilitadora em práticas agroecológicas, plantas medicinais, resgate da alimentação tradicional, etc. Tem uma visão da agroecologia como uma forma de vida integral que compreende diversos âmbitos – o econômico, o social, o ambiental e o político. Não gosta de falar em ‘feminismo’ porque sente que ainda não se apropriou completamente do termo, mas entende que faz um trabalho de gênero por meio dos grupos compartilhados e que é uma defensora de todos, homens e mulheres. A comunidade VG, em Tlaxcala, trabalha pelo resgate de costumes tradicionais e pela recuperação das sementes nativas. Conta com trabalhos mistos focados na agroecologia e soberania alimentar. Afirma que as mulheres se veem como empreendedoras, transformadas e mais bem preparadas como cuidadoras da vida. Trabalham por um pagamento justo nos mercados alternativos, defendem as sementes nativas e os recursos naturais, afirma. Contudo, enfatiza os desafios na representatividade pública: na formação de mulheres como lideranças políticas, a luta pelo reconhecimento das mulheres indígenas e campesinas, etc.

Liber Soe Puro (Agricultora e representante da Amazônia boliviana):

A palestrante inicia sua fala com uma saudação calorosa ao público e à Amazônia boliviana e afirma ser também proveniente de uma comunidade campesina.  Compartilha um pouco do processo histórico das mulheres e povos indígenas pela consolidação do direito ao território. Em 1996, começou a luta contra quem tinha concentração de terra nas mãos, os chamados “barraqueiros”. Foi o começo das marchas pela terra onde as mulheres desempenharam um papel muito importante, destaca. Com as marchas pela terra que ocorreram em 1994, 1999 e 2000, as “ex-barracas” que se dedicavam à extração de gomas e castanhas são tituladas em favor da comunidade e dos povos indígenas originários dos campos. A Lei INRA regula a função da terra. No ano de 2008, muda a lei da constituição política do estado e se reconhece a integralidade do território indígena, que inclui o direito à terra, ao uso e aproveitamento exclusivo dos recursos naturais renováveis. A titularidade da terra é em favor das mulheres, independentemente do seu estado civil. A palestrante finaliza sua apresentação dizendo que dez minutos é muito pouco para apresentar uma luta com anos de história.

Em seguida, abre-se para perguntas da plateia, que giram em torno de um eixo comum: como lidar/chamar os homens para o movimento do feminismo. Algumas estratégias são comentadas pelas palestrantes – não falar em feminismo, falar em igualdade – outras pontuaram que a presença dos homens na luta pelas questões do campo e da economia solidária é fundamental. Afirmam que não há como fazer uma luta somente de mulheres e que a adesão das próprias mulheres ainda vem com muita resistência. Uma pergunta relativa à Academia e à luta do campesinato é lançada. Cleudes Pessoa responde que o espaço acadêmico ainda não tem acessibilidade para mulheres pretas e de periferia. Sarmiento responde que se sente muito feliz de poder compartilhar seus saberes no espaço acadêmico, mas sugere aos pesquisadores e pesquisadoras que pensem também como mães, como mulheres, como lideranças comunitárias e não somente como Academia.

Juliana Merçon (Universidad Veracruzana – México)

A mediadora propõe uma atividade em grupo com a seguinte pergunta geradora: como podemos, de maneira muito prática, concreta e pontual fortalecer os vínculos entre mulheres, economia solidária e agroecologia?

Os grupos discutem o tema durante dez minutos. Em seguida, cada grupo resume as ações discutidas em frases curtas ou palavras chaves:

Mercados alternativos; fortalecer potencial das mulheres e o autoconhecimento; envolver a juventude de modo a garantir a formação; criar grupos, incentivar nas comunidades e mapear os já existentes; unir cultura, arte e artesanato na feira da agricultura; reivindicar políticas públicas específicas; criar discussão ampla de economia valorizando o nível micro e macro de produção; fortalecer articulação política das mulheres para lograr políticas públicas; novas escolas comunitárias para educação alternativa; formação desde as crianças até o nível superior na temática do painel; identificar valor agregado por meio de uma certificação de gênero nos produtos; resgate dos conhecimentos tradicionais (rezadeiras, parteiras, agricultoras); unir momento de formação agroecológica para mulheres com gênero e raça; intercâmbio de experiências entre as mulheres; passar da lógica do preço para o apreço; adoção de novas formas de governança; desmantelamento do patriarcado; estímulo do cuidado entre mulheres;    trabalho compartilhado e equitativo entre homens e mulheres; criar ferramentas de controle de violência machista em espaços criativos como o tempo de fala; CSA com mulheres agricultoras; auto-organização das mulheres em coletivos; titularidade das terras para as mulheres; criação de ferramentas para inclusão digital; reforma agrária para mulheres.

A atividade é finalizada com uma síntese propositiva sobre o tema da atividade. As falas citam a necessidade de ações simultâneas em diferentes escalas: desde práticas cotidianas pequenas – família, escola – seguindo para o plano comunitário, até a incidência em políticas públicas. Reforçam a necessidade de aumentar a intensidade de ações em todas as escalas, de forma transversal. De acordo com a síntese realizada por uma das participantes, as propostas devem responder às questões: como a gente constrói o processo de auto-organização das mulheres (fundamentais para a autonomia)?; b) como construir alianças com outros grupos – relação com comercialização, educação, processo de formação; e c) como construir alianças em uma perspectiva anticapitalista e antirracista

Foto da atividade:

Facilitação Gráfica:

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#AT47 – Reunião AMA-AWA

Reunión AMA-AWA

Dia 13 | 14h00 – 16h00 | EMA | #Agroecologia2017

Responsável(is): Coordenadora: Helda Morales (SOCLA)

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#AT32 – Reunião do GT Gênero da ABA

Reunión del GT Género de ABA

Dia 13 | 10h00 – 12h00 | CALIANDRA | #Agroecologia2017

Responsável(is): Coordenadora: Laetícia Jalil (GT Gênero da ABA)

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#AT26 – Painel I – Sem Feminismo não há Agroecologia

Panel I – Sin Feminismo no hay Agroecología

Dia 13 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Emma Siliprandi (GT Mujeres, Agroecologia y Economia Solidária de CLACSO – Espanha); Sylvia Vidal (AMA-AWA); Sarah Luiza da Marcha Mundial das Mulheres; Larissa Henrique Nunes (REGA); Maria José Morais Costa  (Secretaria de Mulheres da Contag); Maria do Socorro Santana (representante das quebradeiras de coco – MA- PI- PA); Rosangela Piovizani (MMC-DF); Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE); Elisabeth Cardoso (CTA-ZM e GT de Mulheres da ANA) . Coordenadora: Laetícia Jalil (ABA)

Relato

Mística de abertura:

Apresentação da peça “Bendita dica” Companhia Burlesca;


Laetícia Medeiros Jalil - GT de gênero da ABA

Comunicou o ato que houve pela manhã, no Auditório Babaçu, a #AT27 Painel II – Memória da Agroecologia, em que mulheres se mobilizaram para fazer uma intervenção na atividade em que só havia homens brancos falando sobre a memória da agroecologia, sem representatividade de mulheres, da juventude, de grupos indígenas e quilombolas. As mulheres se dispuseram a fazer moção de repúdio à mesa branca, racista e machista, patriarcal e heterossexual, pela manhã.

Emma Siliprandi (GT - Mulheres agroecologia y economia solidaria de CLACSO - Espanha)

A palestrante começa sua fala pontuando a presença das mulheres em todas as áreas vinculadas à agroecologia: produção agrícola, comercialização, transmissão de conhecimentos, criação de animais, agroextrativismo, pesquisadoras, pecuária etc. Contudo, devido às atribuições de gênero na sociedade, as mulheres são invisibilizadas e têm que fazer um maior esforço para serem vistas, ouvidas, contempladas. Mesmo nessa condição, a maneira diferenciada pela estrutura de gênero com que as mulheres olham a terra, cuidam da terra, está em consonância com a diversidade, que é um princípio fundamental da agroecologia. Por que sem feminismo não há agroecologia? Porque o feminismo é nossa ferramenta teórica, que ajuda a entender como aceitamos determinadas inferioridades, e a entender a forma diferenciada com que a opressão generalizada se manifesta em diversas culturas. Um movimento agroecológico que não tem a visão feminista é incompleto.

Sylvia Papuccio de Vidal da AMA-AWA

Sylvia inicia sua fala pontuando o feminismo como uma corrente teórica e plural dos movimentos sociais, destacando o ecofeminismo como um projeto macro. Sempre que se fala em determinadas “atividades das mulheres” dentro da agroecologia, como buscar água, lenha, produção de alimentos, se está falando em feminismo. Em sua fala, sintetiza que existe uma semelhança entre projetos de dominação do capitalismo e das mulheres: a violência globalizada, a produção extrativista, o trabalho grátis e a degradação ambiental se convertem em questões feministas que nos ajudam a compreender os vínculos que existem entre a dominação delas e da natureza, pois o capitalismo precisa dessa estrutura para se manter. O feminismo não é visto como problemas entre os homens, e sim como problemas entre os homens e as mulheres. Enquanto a masculinidade é colocada como força, ação e determinação, os homens estão expostos a situações constantes de impotência, falta de emprego, precariedade, desarranjos comunitários, familiares, escassez de recursos, e não tem acesso a diversas formas de vida. Por isso, devemos combater a pedagogia da crueldade e substituí-la pela pedagogia do cuidado. Nesse ponto, afirmou Silvia, as mulheres têm muito para contribuir com a humanidade, a natureza, e uma vivência sustentável. É necessária uma discriminação positiva; incluir as mulheres nas práticas produtivas, comerciais. Já se sabe que são muitas, que fazem, estão em todas as áreas. As políticas agroecológicas devem incluir as demandas dos feminismos. O feminismo que reclama a agroecologia latino-americana não é um feminismo radicalizado, mas um feminismo que reconhece a violência entre mulheres e a natureza.

Sarah Luiza - Marcha Mundial das Mulheres

A palestrante inicia sua fala pontuando que a pactuação entre as lutas do feminismo e da agroecologia partem das experiências das mulheres nos seus lugares e territórios, mas também estão conectadas com análises anticapitalistas, antirracistas e antilesbofóbicas. Segue falando sobre como o capitalismo – crise e reestruturação, e novos mecanismos de controle sobre nossos corpos e territórios tem sido utilizados com o aumento de diferentes formas de violência e controle. Disse ainda que um deles foi um Golpe de estado que vários países estão vivendo, inclusive no Brasil – um grito de “FORA TEMER” surge na plateia. Diz ainda que as mulheres precisam ser ouvidas, ser reconhecida a contribuição para a história e a memória da agroecologia, para um mundo melhor, mais justo e mais igualitário. Luiza afirmou que não podemos admitir violência contra mulheres em lugar nenhum, é necessário haver um enfoque sistêmico de verdade, precisa-se considerar as dimensões ecológica, politica, ética, e não se pode acreditar nas estruturas estruturadas em bases desiguais de poder. A agroecologia não pode ameaçar a produção das mulheres quando elas saem para participar da política, estas não podem ser ameaçadas quando saem de casa para estudar, pensar, refletir, atuar, “não podem dar menos importância para o que falamos, pensamos”, não se pode aceitar que elas comam menos porque é esperado que elas cuidem dos outros e pensem menos nelas que nas famílias, a agroecologia precisa ver e ouvir todas as pessoas, ver e ouvir todas as mulheres; Por isso que SEM FEMINISMO, NÃO HÁ AGROECOLOGIA!

Finaliza convocando o público a cantar uma música:

“No batuque do tambor, a revolta social,

nós somos as mulheres da marcha mundial,

contra a pobreza e opressão do patriarcalismo patriarcal,

nós vamos provocar uma revolução mundial

Ê mulheres, mulheres, mulheres libertárias, ê mulheres feministas, revolucionárias”

Larissa Henrique Nunes da Rede do Grupos de Agroecologia (REGA - Rede dos Grupos de Agroecologia do Brasil):

Larissa começa relatando o espaço da REGA como um espaço de princípios da luta agroecológica (autogestão, autosoberania, anticapitalista) e, rememora o encontro que foi realizado ontem pelas mulheres do grupo. Tem a visão de que, se não houvesse feminismo dentro da agroecologia, esta seria um espaço ficcional, pontuando que a agroecologia é indissociável entre agroecologia, feminismo e a luta anticapitalista. Disse que se sem feminismo não há agroecologia, que é necessário entender as mulheres que compõem a agroecologia: estudantes, trabalhadoras, mulheres jovens e experientes, de todas as regiões do Brasil, a diversidade étnica, de classe. Larissa pergunta: Para fazer essa visão justa a todas as mulheres, pensamos o que a juventude e todas as mulheres precisam, tanto na esfera pessoal quanto na esfera coletiva? Pontua ainda a contribuição de mulheres negras na roda de conversa, para a fala e para não se construir a agroecologia como uma pauta universitária e branca. Para sair do ambiente ficcional de autogestão e autosoberania, diz ser necessário pensar a formação dos homens e das mulheres, a relação entre mulheres brancas, mulheres negras e mulheres indígenas, e toda essa estrutura é ignorada quando a gente fala em legitimar a fala das mulheres em um mesmo espaço. E a partir dessa real autogestão e autosoberania, levar essa prática para fora, para os ambientes institucionais.

Maria José Morais Costa da Secretaria de Mulheres da Contag:

A palestrante começa sua fala a partir da sua trajetória pessoal como testemunho da história da agroecologia: desde muito cedo começou a trabalhar como agricultora familiar, no interior do estado do Piauí, demorou para entender o papel da mulher como agricultora familiar e na agroecologia; não eram reconhecidas (mães, irmãs) e nem valorizadas. Quando muito, eram vistas como ajuda; a participação era na produção; na comercialização pouco participavam, mesmo sendo responsáveis pelas atividades dos produtos que geravam a renda. Nos sindicatos e associações não eram proibidas, mas também não eram incentivadas a trabalhar nessas instâncias. Maria José diz que sua experiência enquanto mulher mostra que são as mulheres que contribuem para os avanços da tecnologia, são as mulheres que são as defensoras e guardiãs da biodiversidade e as responsáveis pelas ervas medicinais. Acredita que a fala em feminismo e agroecologia passa sem dúvida por fortalecer a organização entre mulheres e visibilizar as contribuições individuais e coletivas. Há necessidade de manter as políticas públicas que as mulheres conquistaram e que estão sendo arrancadas, como pelo ministério do MDA, a própria SPM, reforma da previdência etc. Nessa hora, o público aplaude calorosamente o comentário de Mazé. Ela continua: “nessa escalada da retirada de direitos, não podemos recuar, temos que continuar firmes na luta, qual projeto de Brasil queremos? Todos esses golpes que têm acontecido, têm afetado diretamente a classe trabalhadora, sobretudo, nós mulheres trabalhadoras rurais, indígenas, quilombolas, que estão sofrendo tudo, esse desmonte que tem sido arrancado de nós; nem por isso estamos recuando, mas temos cada vez mais afirmado qual é o Brasil que queremos com agroecologia, com feminismo”

Maria do Socorro Santana – representante das quebradeiras de coco - MA- PI- PA

Inicia a fala com: “Nós somos as protagonistas da agroecologia de verdade! Somos nós que plantamos, conservamos e aguamos para ter o bem-viver, nós que somos as donas dessas atividades comprovadas”, e fala que as mulheres são discriminadas justamente por isso. “Porque eu quero pé de caju e meu marido quer plantar capim”. Diz que o gênero feminino é o mais forte que existe! Enfrentam grandes dificuldade com a presença do capitalismo que devora tudo que as mulheres plantam, “nós precisamos do feminismo para manter a agroecologia, e a vida porque somos nós mulheres que somos a metade da população, mas também somos a mãe do restante da outra metade, não tem nenhum fazendeiro, parlamentar, nem um toma tudo, ninguém que nasceu de outro homem, então, nós somos orgulhosas, companheiras! ”. “Vamos conquistar nossos direitos de volta! De plantar, produzir e colher, queira, ou não queiram os governantes, a agroecologia sempre existiu e sempre vai existir no campo, nas florestas, nas águas, por mulheres fortes que somos nós.”

Rosângela Piovizani – Movimento de Mulheres Camponesas (MCC)

A palestrante começa sua fala com uma saudação às mulheres, que mesmo em uma conjuntura e contexto de retrocessos, têm a capacidade de se unir, reunir e fazer luta. Acredita que é inconcebível um projeto de agroecologia que dialogue com agronegócio, chacina, violência doméstica, trabalho escravo ou qualquer forma de violência. Rosângela diz que foram as mulheres camponesas que introduziram a agricultura, que plantam as ervas medicinais, que sabem cuidar das sementes, que fizeram as primeiras modificações nelas, e que tem uma relação muito íntima com a terra, a água e a natureza. Convoca as mulheres para a luta, fala dos alcances da luta feminista, mas diz que a agroecologia deve sair das experiências locais para avançar como um projeto macro por territórios que se construam com respeito. E diz que embora tenham havido avanços, os direitos foram tirados do povo e retrocessos sofridos com o Golpe, a luta tem que continuar. “A gente precisa avançar no diálogo com as companheiras, a sociedade, trabalhadoras e trabalhadores, porque no campo estamos sofrendo com os avanços dos venenos e dos agrotóxicos...”. Convida ao grito de ordem: “Quando uma mulher avança, o machismo retrocede! ”. O público, empolgado, adere ao grito.

Verônica Santana (Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste MMTR-NE)

Inicia sua fala fazendo uma análise do espaço das mulheres na política. Pontua que no governo Lula e Dilma houve um espaço de construção das políticas públicas, trazendo muita unidade das mulheres e, que hoje em dia os espaços construídos são os espaços de luta por novos espaços, que estão sendo construídos no Brasil, principalmente no Nordeste. Pontua a necessidade de entender a dimensão do espaço da vida rural, no campo, e pergunta: “Como essa vida se dá?”. É uma vida que não se separa do meio-ambiente, a comunidade que não se separa do ambiente, que a cerca; é um espaço onde as mulheres estão relacionadas ao cuidado de tudo que as cerca; à vida como um todo. Portanto, afirmou Verônica, falar de agroecologia é falar de recuperar todos esses saberes trazidos pela ancestralidade, e que a indústria alimentícia vem roubando. Outra pauta é a ameaça à terra que se constitui como uma ameaça direta à vida das mulheres; são todas discussões que não se dão de forma separada. Falta entender a agroecologia como um projeto de sociedade, de vida, onde se deve reconhecer o protagonismo político das mulheres que participam de todas as etapas dos processos de produção do trabalho e que devem tomar os espaços políticos e de tomadas de decisões. A construção das políticas de agroecologia e produção de orgânicos de 2012 deve entender o 1º desafio – pensar o crédito para as mulheres dentro do rural; cotas para as mulheres para ter de fato as políticas para as mulheres. Finaliza a fala fazendo um convite para o 4º Encontro Nacional de Agroecologia em Belo Horizonte em julho de 2018.

Elisabeth Cardoso (CTA - ZM e GT de mulheres da ANA) - Síntese:

Elisabeth fechou a mesa com uma síntese da fala das mulheres; pontuou a representatividade Representantes dos movimentos sociais e associações que trabalham com agroecologia e registrou um fato importante dizendo o Congresso Brasileiro de Agroecologia trouxe pela primeira vez a faixa “Sem feminismo não há agroecologia”, que fizeram um documento com o que queriam dizer e que até o ano de 2017 não mudou muita coisa (ela faz referência ao ato que houve pela manhã na mesa sobre a memória da agroecologia). Elizabeth entende que o feminismo é uma teoria crítica, um olhar de marco interpretativo que pode dar visibilidade às marcas do relacionamento opressivo entre homens e mulheres. A crítica feminista denuncia uma série de fatos que acontecem no campo e desmistifica a agroecologia. As pessoas tendem a pensar que a agroecologia é amor, que é uma coisa perfeita. Em alusão à expressão da Luísa (representante da REGA), diz que o feminismo ensina a agroecologia a não ser uma “Agroecologia de confetes”. A agroecologia acontece dentro da sociedade – ela não visibiliza, ela não ouve, não dá espaço, desqualifica as mulheres e não é só na agroecologia que existe machismo. “Aonde está o trabalho invisível das mulheres? Onde as mulheres estão sendo excluídas da assistência técnica? Das políticas públicas? Se a agroecologia quer ser coerente em desenhar um agrossistema, ela tem que ser feminista sim! Sem a gente romper com as estruturas, com nossos companheiros machistas, a agroecologia não acontece. ”. Finaliza a fala dizendo que se o feminismo não adentra a agroecologia, a agroecologia não se torna profunda, não rompe com as estruturas de poder que busca lutar contra. “É o mesmo que pesquisar indígenas sem ir à aldeia”.

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Feminismo, Agroecologia e a luta das mulheres norteiam os debates do 2º dia o X Congresso de Agroecologia

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#AT12 – Feminismo e agroecologia: mulheres em luta contra a Violência sexista, o capitalismo e o patriarcado

Feminismo y agroecología: mujeres en lucha contra la violencia sexista, el capitalismo y el patriarcado

Dia 12 | 14h00 – 18h00 | BARBATIMÃO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Miriam Nobre (SOF – Sempre Viva Organização Feminista e MMM – Marcha Mundial das Mulheres); Maria Verônica Santana (MMTR-NE); Luiza Cavalcante – REGA; Verónica Vazquez – COLPOS/AMA-AWA; Michela Calaça (MMP); Coordenadora: Sarah Luiza de Souza Moreira

Relato:

Quem de nós, a cada instante, na rua, em casa não se sente violentada?”
Luiza Cavalcante, REGA e CBA-17

Michela Calaça - MMP inicia sua contribuição apresentando dados sobre a violência contra a mulher no Brasil: “a cada uma hora 503 mulheres são agredidas, 13 mulheres são assassinadas por dia e de 3 a 5 jovens dizem ter sofrido violência a cada 24 horas”.

Ela pontua que esses são dados importantes para dar visibilidade ao que acontece com as mulheres: “Contudo, quando se trata da mulher do campo, esses dados dizem pouco: as mulheres do campo não estão representadas nesses números.” E segue destacando que a violência contra a mulher não é um fato isolado, é uma violência sistêmica e funcional a forma da sociedade - capitalista. “As dimensões da violência contra a mulher podem ser percebidas na não valorização da produção das mulheres, na destruição dos territórios, na construção de barragens. Dessa forma, é importante entender o sistema capitalista para enfrentar a violência”.

De acordo com ela, no caso da destruição dos territórios, a primeira vida que muda é a das mulheres. “Atingir o território atinge diretamente o corpo e a vida das mulheres: estupro, prostituição, patriarcado e racismo estão imbricados no sistema capitalista. O papel da agroecologia é superar as contradições que esse sistema nos tem imposto.”

O enfrentamento ao capitalismo é cotidiano.

Michela destaca que o momento atual no Brasil é “temeroso para as mulheres” e que “o golpe foi contra todas as mulheres”. Ela afirma que o exemplo disso foi o fechamento da SPM (Secretaria de Politicas para Mulheres) que paralisou o enfrentamento à violência. E no que se refere ao impacto do golpe no campo, pontua que “as reformas trabalhista e previdenciária inviabiliza a existência de mulheres no campo”.

E a conversa continuou com Verônica Santana, agricultora agroecológica que trouxe a experiência do MMTR-NE no enfrentamento da violência contra a mulher. Antes de falar da atuação do movimento neste enfrentamento, a palestrante, em diálogo com o tema da mesa, pontua que o avanço do neoliberalismo vem precarizando a vida e levanta o seguinte questionamento a todas as pessoas presentes:  “se a vida no neoliberalismo não é uma coisa importante, imagina a vida de uma mulher”?

Ela também pontua que a culpabilização da mulher em torno da violência é muito forte e afirma que na maioria dos casos a companheira não denuncia, não chama a polícia. Para mudar o quadro de silenciamento cita a necessidade de: apostar na construção de políticas públicas, união com outros movimentos sociais, cobrar o orçamento público e ir para as ruas.

Em relação à aposta na construção de políticas públicas, ela lança uma problemática: “Não há estatísticas sobre a violência no meio rural. Dessa forma, é preciso dar o olhar do rural para as políticas públicas. Além disso, há de se pensar em outras estratégias de enfrentamento. Uma delas e muito importante, é o fortalecimento das mulheres a partir de rodas de compartilhamento de experiências e relatos. Lá as mulheres constroem seus questionamentos e passam a não se culpabilizar nem apontar outras mulheres pela violência sofrida. Dessa forma, é preciso discutir as dimensões da violência: a violência também estar na desvalorização do trabalho das mulheres....Temos que enfrentar muitas armadilhas”, como exemplo: colocar a causa da violência na outra, a mesma coisa é pensar que “ se eu não apanho, não sofro violência...”

Verônica Santana encerra sua fala dizendo que “nós mulheres precisamos cuidar umas das outras” e que “enfrentar o patriarcado é enfrentar a violência todos os dias”.

“A nossa luta/É todo dia/Somos mulheres/E não mercadoria”. Sarah Luiza

Verônica Vázquez, mulher, mexicana, feminista e acadêmica. Trouxe para a roda o caso da construção do Aeroporto Internacional da cidade do México. Mostra que essa grande obra, como todas, veio acompanhada da expropriação de terras, controle sobre os territórios e sobre os corpos principalmente das mulheres e meninas. 

Sobre a violência contra as mulheres, Miriam Nobre destaca que é preciso pensar sobre a espetacularização dessa violência na mídia e nas redes sociais e sobre como estabelecer processos de cura de todas nós: “o corpo é da mulher que vive uma situação de violência, mas todas nós sentimos”.

Ainda, segundo a palestrante, o capitalismo aliado ao patriarcado, racismo e colonialismo, é o fundador de uma lógica desigual e hierárquica que anula o outro. Ela afirma que o sistema capitalista desestrutura as comunidades para abrir os seus territórios para o capital. E conclui dizendo que a agroecologia vem como uma forma de tecer as comunidades e vínculos para defender os territórios.

“A violência contra a mulher não é o mundo que a gente quer/ Se tem violência contra mulher a gente mete a colher.” Sarah Luiza

Luiza Cavalcante, mulher, negra, agricultora agroecológica e feminista. É assim que ela inicia sua contribuição, dando luz à máxima de que o fundamentalismo religioso é um elemento importante que vem aplaudindo a violência. Fala também de uma violência sutil apresentada em espaços públicos em que os homens ditam os espaços das mulheres. Ela ressalta ainda que as mulheres do campo são as que sofrem mais violência acadêmica. Justifica que elas têm seu conhecimento sistematizado e arrebatado pela academia e instituições, sem o devido retorno.  Em seguida ela encerra dizendo que o papel da agroecologia é desmantelar e desestruturar o capitalismo e o patriarcado.

Em seguida, Sara Luiza pede para as pessoas ficarem de pé, darem as mãos e cantar:

Pisa ligeiro/Pisa ligeiro
Quem não pode com as mulheres não assanha o formigueiro

Depois desta mística, a coordenadora da mesa abre o espaço para perguntas, colocações, compartilhamento de experiências e relatos. 

Relatoras: Maires Barbosa e Domênica Rodrigues

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Feminismo é tema de debate no X Congresso de Agroecologia

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