#AT99 – Painel V – Educação em Agroecologia: Práticas e Saberes na perspectiva contra hegemônica

Panel V – Educación en Agroecología: Prácticas y Saberes en la perspectiva contra hegemónica

Dia 15 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Luciana Jacob (ABA); Marcos Sorrentino (ESALQ/USP); Coordenadora: Virginia Aguiar (UFPE)

Arquivos:

Apresentação Marcos Sorrentino

Créditos vídeo: João Pedro Novaes

Relato:

A coordenadora da mesa, Maria Virginia de Almeida Aguiar (UFPE), abriu a atividade convidando os palestrantes a comporem a mesa e saudando a todos os presentes. Para iniciar o painel fez uma contextualização do estado da arte da Educação em Agroecologia.

Segundo Virginia, a pauta agroecológica está cada vez se ocupando do tema educação como uma questão essencial para a construção do conhecimento agroecológico. Destacou os núcleos de agroecologia que foram formados nas universidades e que têm atuado como espaços de expressão e diálogo nos territórios. Para demonstrar a importância atual do tema da educação em agroecologia, destacou que no primeiro CBA, realizado em Porto Alegre-RS em 2003, foram apresentados 9 trabalhos sobre educação e que neste congresso temos mais de 140 trabalhos apresentados na temática. No âmbito do grupo de trabalho sobre educação da ABA várias discussões importantes vêm acontecendo, como a questão curricular, as diferentes pedagogias utilizadas, os cursos de graduação e pós-graduação, as interfaces da educação no campo, entre outros. Após essa leitura de contexto, passou a palavra para a primeira palestrante.

Luciana Jacob (ABA)  (síntese da fala da palestrante)

A temática do painel é extremamente relevante nesse momento, onde as disputas políticas estão em evidência. Para que seja possível fazer uma discussão sobre o que seria uma educação não hegemônica, é necessário retomar os conceitos que estão sendo tratados, o que entendemos por hegemonia e contra hegemonia. Essa vigilância epistemológica é importante pois não podemos correr o risco de a narrativa ser esvaziada.

Para conceituar hegemonia a palestrante fez referência ao filósofo italiano, Gramsci, que conceitua o termo como:

“a total realidade da experiência social em um dado momento histórico que satura profundamente a consciência da sociedade. Assim, hegemonia, para Gramsci, em qualquer período e em qualquer sociedade é constituída por um sistema central de práticas, significados e valores que podem ser chamados de dominantes e eficazes. Trata-se, portanto, de todo um conjunto de práticas e expectativas, do investimento de nossas energias, da compreensão cotidiana que se tem do mundo” (Luciana Jacob)

Esses valores são dominantes e eficazes, pois nos faz pensar que não existem alternativas.  A hegemonia não esta só na política e na economia, ela está presente também nas nossas formas de conhecer o mundo. A hegemonia se mantém por duas forças: a da violência e a produção de consenso.  A produção de consenso é ideológica. E as escolas e universidades contribuem para a manutenção disso.

Partindo então desse conceito de hegemonia e olhando para o tema agricultura, o agronegócio no Brasil hoje se constitui como a única forma possível e qualificada de se fazer agricultura. O agronegócio, embora se demonstre moderno e refinado, é impregnado por elementos coloniais, como os latifúndios, a monocultura, a exportação de matéria prima, a violência contra os povos do campo, a liquidação do conhecimento pelo assassinato das pessoas e a produção extensiva e simplificada dos ecossistemas.

A Revolução Verde, que promoveu a modernização do campo num momento de ditadura militar no Brasil, se estabeleceu às custas da subtração dos modos de produção dos povos do campo e do desmatamento. O latifúndio é permeado por formas coloniais de produção e continua se reproduzindo com o apoio da bancada ruralista.

O golpe de 2016 reforça isso, pois foi um golpe patriarcal, machista e capitalista, para desarticular a sociedade e principalmente as populações do campo. Os golpistas não queriam que estivéssemos aqui hoje.

Nesse cenário, o que é então a contra hegemonia?

Gramsci aponta que onde há uma hegemonia, existem valores que não enquadram. Dentre esses que não se enquadram, existem dois grupos, um que questiona o paradigma, mas que contribui para a continuidade do sistema (a hegemonia aceita isso) e o outro grupo, que é aquele que busca desconstruir o paradigma dominante.

Considerando que não existe agroecologia num sistema patriarcal, machista e capitalista, é necessário desconstruir o paradigma dominante. A agroecologia conseguiu se desenhar dentro de um sistema hegemônico dominante graças à preservação do conhecimento tradicional pelas populações do campo e aos diálogos estabelecidos entre essas populações e o meio científico.

No Brasil, a gênese da agroecologia não partiu somente da apropriação científica dos conhecimentos tradicionais dos agricultores, mas também através de diálogos dos movimentos sociais, das escolas e universidades. A agroecologia ganha traços da ecologia de saberes de Boaventura de Sousa Santos, pois trata-se de um campo de confluência solidário.

E qual o papel então da educação em agroecologia?

A hegemonia é constituída por força e consenso. O consenso é conquistado através da mídia e também das instituições educadoras. Se a hegemonia é conquistada dentro das escolas, é aí que podemos construir a contra hegemonia.

Nas universidades o conceito de agroecologia está em constante disputa, pois nesses espaços se constroem ideias e projetos de mundo. Hoje o agronegócio domina as universidades.

Do ponto de vista epistemológico, a manutenção do paradigma do agronegócio se dá por meio das tecnologias geradas na academia e levada ao campo, no contato duvidoso das universidades com as empresas transnacionais, na formação das pessoas e na produção de conhecimento. Esse conhecimento produzido é divulgado tanto na mídia, quanto na produção científica.

Hoje as universidades respondem a duas questões: as questões colocadas pelo agronegócio e as questões que ela mesma formula, dentro dos muros da universidade. Os agricultores e as agricultoras familiares ficam à margem da construção das pesquisas.

E o que significa pensar a agroecologia na universidade?

Significa trazer as vozes que foram violentadas e silenciadas por todo esse tempo. É necessário resignificar a extensão universitária, reposicionar o papel da extensão, para ser o centro do processo. Essa é a única ferramenta capaz de levar o pesquisador fazer as perguntas fortes.

Atualmente existem nas universidades professores militantes, mas que se sentem solitários. Essa é outra forma de desmobilização causada pelo paradigma dominante, nos fazer sentirmos sós, alternativos, quando na realidade lidamos com mais de 70% da população do campo.

Os Núcleos de Agroecologia permitem que a sociedade entre na universidade. É aí que está a chave, onde viramos o jogo. Parar de produzir conhecimento para, para produzir com. Os núcleos vêm se consolidando como esse lócus. O movimento contra hegemônico precisa ser globalizado, precisa se articular com outros movimentos.

Para finalizar, utilizou uma frase de Paulo Freire, que diz: “O mundo não é, o mundo está sendo”.

Marcos Sorrentino (ESALQ/USP) (síntese da fala do palestrante)

Agradeço a presença de todos. Como já foram contextualizados os conceitos e a temática, vou direto para a sugestão de propor e dialogar sobre uma agenda de transição educadora agroecológica e ambientalista.

São 4 aspectos da agenda que precisam ser considerados: a rebelião, o ideário, a educação e a potência de ação.

Sobre a rebelião, essa reflexão surgiu nos corredores do congresso, face ao contexto político atual. Nossa luta política imediata é pelo fora Temer e fora todos os corruptos e corruptores. Esse grupo de políticos precisa sair. Precisamos de uma constituinte democrática e soberana, agenda construída por pessoas comprometidas com a transformação social e isto não é impossível.

Sobre as transformações sociais necessárias, Montesquieu diz que o espírito das leis, nas sociedades democráticas e populares, deve ser o da frugalidade, o da simplicidade voluntária. Precisamos de um compromisso com o bem comum. Sem isso não conseguimos fazer leis democráticas e populares. Então, como construímos uma estratégia de transição para isso?

Só vamos enfrentar o aquecimento do planeta Terra se diminuirmos o consumo de carne. E como falamos isso para a sociedade brasileira, que tem esse hábito arraigado em sua cultura?

Temos que levar os nossos filhos para a cozinha. Crianças precisam ir para a cozinha. Toda a mudança precisa ser acompanhada por transformações estruturais. Não tem como encarar o mercado da carne sem passar pela reforma agrária e pela reforma urbana. Temos uma situação vergonhosa de ter 850 milhões de hectares, dos quais 200 milhões estão destinados à pecuária. Com uma simples mudança de técnica poderíamos reduzir isso para 100 milhões de ha, com o simples piqueteamento de pasto. Precisamos buscar uma equidade no consumo, consumindo menos e fazendo uma produção mais racional. Temos sim que defender e lutar por reforma agrária e por reforma urbana. Não há possibilidade de transformação agroecológica com essa iniquidade.

Sobre o ideário, o movimento agroecológico precisa dialogar com outras agendas que estão aí há 40 anos. O socialismo libertário, o ambientalismo, o movimento LGBT existem desde a década de 60 e precisamos visitar e conhecer isso, para formar as alianças necessárias com esses movimentos chamados novos movimentos sociais.

A educação é outro ponto que precisa ser discutido. Não podemos simplificar a educação como sinônimo de escola. Em relação à educação escolar, precisamos ocupar as escolas públicas. Temos que ocupar o espaço público e obrigar deputados e senadores a colocarem seus filhos na escola pública. Se não conhecermos o sistema público, não temos como influenciar.

Ocupar os espaços públicos é fundamental, mas não suficiente. O território educador é todo o território que vivemos. O processo educador tem que ser permanente, articulado. A educação acontece não só na escola, mas também nas igrejas, sindicatos e outros espaços, buscando agendas educadoras integradas.

Os conselhos municipais de educação precisam assumir a responsabilidade da educação de todos os munícipes. Nesses conselhos se pensam só nas escolas públicas. Precisamos pensar numa agenda educadora para todo o município. Todos os conselhos são espaços que podem aglutinar os atores para a agenda educadora, tendo o município como espaço de educação para sociedades sustentáveis.

Por fim, a potência de ação é outro ponto de destaque. Não podemos deixar que o pessimismo do pensamento massacre o otimismo da ação. Não podemos deixar a confusão nos confundir.

A quantidade de informação negativa é tão grande, que dá vontade de jogar a toalha, mas esse momento exige assertividade.

DEBATE COM A PLENÁRIA

1 – Docente da Faculdade de Educação da Unicamp pergunta para  Marcos sobre a ideia de priorizar o município como esfera de ação. “Isso na Espanha tem acontecido muito. O desafio no Brasil é que focamos no espaço federal.  Não vejo a perspectiva das pessoas se envolverem numa democracia que esta só aqui em Brasília, sendo que a realidade muitas vezes está a mais de 1000km daqui”.

2 – Pedro, doutorando em saúde coletiva Unicamp. “O quanto essa confusão de que a educação formal (alfabetização) é necessária para avançar nos espaços educadores está nos travando?”

3 – Geraldo, do Caparaó, Rede Capixaba de Educação Ambiental. “A agroecologia é a prática que nos falta na educação ambiental”.

4 – Eli Lino de Jesus - Professor do curso de Agroecologia, do Instituto Federal do Sudeste de MG. “ Os cursos de agroecologia enfrentam muitas dificuldades. Os cursos formais necessitam de apoio para aprofundamento. Os cursos têm enfrentado barreiras enormes, os conselhos de classe profissionais não querem registrar o título dos formados em agroecologia, os concursos não selecionam agroecólogos. O agroecólogo não pode ser menor que os agrônomos. A ABA não prioriza esse debate há muito tempo”.

5 – Tadeu –“Sou resultado das políticas públicas, dos pontos de cultura, das salas verdes, de todo esse processo. O espaço da educação não é só o espaço das escolas, é no nosso dia a dia no contato com os diferentes. Agradeço pelas falas, que inspiram e dão ânimo”.

6 – Tiago – Fórum Alternativo Mundial da Água – embora a atividade seja tão rica, ele nota que o paradigma dominante vai se apropriando dos discursos e tentando coexistências. “Na abertura do evento foi falado que a agroecologia pode conviver com o agronegócio. Como conseguimos fugir disso? Como resistimos a apropriação dos espaços?”

CONSIDERAÇÕES FINAIS E RESPOSTAS AOS QUESTIONAMENTOS

Luciana Jacob

Sobre a metodologia campesino-campesino – existe uma pluralidade de saberes. Quem escolhe os saberes importantes são os grupos dominantes, que muitas vezes dizem: é importante só ser alfabetizado.

Com relação à ABA, esclareceu que se trata de um espaço de debate, dinâmico e que só funciona com a participação das pessoas. O GT está aberto para acolher diversos pontos de vista. Fica o convite para quem está presente. A ABA acolhe e dinamiza discussões.

Marcos Sorrentino

Ressaltou a importância da mídia na revolução. Precisamos fortalecer as mídias alternativas.

Como atuamos a partir do município? Como enfrentamos o coronelismo instalado nos municípios? Uma ideia é a construção de círculos de cultura, que dialoguem sobre essa agenda. É necessário formar uma rede, uma malha de cultura, com espaços de encontro, onde se discuta teoria e se pratique ações coletivas, que vai desde plantar juntos até incidir em políticas públicas. A comunicação é fundamental para uma rede de diálogo.

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#AT85 – Agroecologia, saúde e alimentação

Agroecología, salud y alimentación

Dia 14 | 14h00 – 17h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Bela Gil (chef de cozinha); Bel Coelho (chef de cozinha); Neide Rigo (nutricionista); Clara Brandão (nutróloga); Coordenadora: Mariane Vidal (Embrapa Hortaliças)

Arquivos:

#AoVivo Mesa Agroecologia, Saúde e Alimentação, composta por cinco mulheres incríveis: Bela Gil, Bel Coelho, Neide Aparecida dos Santos Rigo, Clara Brandão e Mariane Vidal. ACOMPANHE!VI Congresso Latino-Americano de Agroecologia, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.

Posted by Mídia Ninja on Thursday, September 14, 2017

Vídeo1: Bela Gil. Fonte: Mídia Ninja

#AoVivo Mesa Agroecologia, Saúde e Alimentação, composta por cinco mulheres incríveis: Bela Gil, Bel Coelho, Neide Aparecida dos Santos Rigo, Clara Brandão e Mariane Vidal. ACOMPANHE!VI Congresso Latino-Americano de Agroecologia, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.

Posted by Mídia Ninja on Thursday, September 14, 2017

Vídeo 2: Bel Coelho, Clara Brandão, Neide Rigo. Fonte: Mídia Ninja

Relato:  Este texto é resultado da compilação do relato elaborado pelos voluntários Diego Blum e Domênica Rodrigues dos Santos Silva com a matéria original da jornalista da Embrapa Irene Santana.  

Bela Gil

A apresentadora de TV e chef de cozinha natural Bela Gil entende que uma alimentação saudável “É o que faz bem para o nosso corpo físico, mental e espiritual e respeita a natureza, o meio ambiente e valoriza o trabalho daqueles que colocam a comida no nosso prato”. Ela também compreende a alimentação como ato político, desde que se tenha a opção de escolher o que comer.

Bela afirma que só a agroecologia, com sua visão de mundo mais ético, justo, sustentável, pode colocar comida no prato de todo mundo. “Mas só com o apoio da sociedade civil, com uma boa educação no campo e com repartição de terra. Ou seja, a gente precisa de reforma agrária já” defende Bela, ovacionada pelo público. Ela fundamentou sua fala em informações publicadas pelo relatório da FAO/ONU no início de 2017. 

A apresentadora reforça que enquanto poucos estiverem controlando a produção e a distribuição de alimentos no mundo, haverá fome no mundo. “Fome não é um problema técnico, mas político”, enfatiza. Diz que seus oponentes são a bancada ruralista, os oligopólios das empresas de venenos e sementes transgênicas e a publicidade abusiva “que induz uma sociedade de consumo achar normal comprar alimentos danosos à saúde”.

Bela Gil recomenda evitar alimentos ultraprocessados, que, em sua maioria, são provenientes de monoculturas de soja, milho, trigo.  “Eliminando estes produtos da dieta, deixamos de causar impacto negativo no meio ambiente”. Além disso, esclarece que esses alimentos são a base da dieta monótona atual (de baixa diversidade de alimentos), que causa problemas na saúde.

Ela relaciona a diversidade no prato à diversidade no campo, que por sua vez ajuda na biodiversidade do Planeta. “Precisamos pensar no que a gente coloca no nosso prato, o que escolhemos hoje define o futuro da humanidade”.


Bel Coelho

É muito parecido o que pensa a chef de cozinha Bel Coelho, dona dos premiados restaurantes Dui (fechado em 2013) e Clandestino, ambos expoentes da cozinha criativa brasileira. “Gosto de buscar a origem dos produtos que sirvo, quem são as pessoas por trás dos alimentos”, afirma. Bel disse que a sua luta tem sido incentivar as pessoas a consumirem coisas nativas e a diversificarem a dieta. Ela lembrou que 75% do que comemos vem da agricultura familiar.

 “A solução está no campo. Não é tão difícil, basta ter vontade política que ela pode acontecer. Transformar o agricultor familiar no mais próximo possível da produção orgânica é mais fácil do que convencer os grandes monocultores, que não nos dão alimento, mas ração”, afirmou Bel Coelho. “Quero lutar para que o Brasil não seja só um país de commodities. Temos que começar a beneficiar os nossos produtos, vender não só o café e o cacau, mas o chocolate com uma característica brasileira, tropical”, afirmou, ovacionada pelo público.


Clara Brandão

Para a nutróloga Clara Brandão, criadora da famosa multimistura (uma farinha composta por farelo de arroz, pó de folhas verdes, sementes e casca de ovo, responsável pela recuperação nutricional de inúmeras crianças em todas as regiões do País) a má alimentação pode afetar o cérebro tanto quanto as drogas. “O maior problema não é a falta de alimento, é a falta de qualidade, a chamada fome oculta”, afirmou a médica.

Dra. Clara alerta que o processo de desnutrição, principalmente entre jovens e crianças, acontece devido ao alto consumo de alimentos industrializados, nos últimos vinte anos. Ela citou algumas das principais deficiências nutricionais dos brasileiros, como a de vitaminas do complexo B e cálcio, e falou dos benefícios da multimistura na complementação alimentar. A nutróloga também relacionou a violência à má alimentação, capaz de, segundo ela, causar mudanças no comportamento e no aprendizado. “Não adianta colocar polícia na rua, temos é que melhorar a alimentação do planeta (...) a alimentação saudável preserva o patrimônio genético”, disse.

A médica defende a alimentação inteligente, simples e acessível, a partir de produtos locais baratos e abundantes. Deu ainda alguns exemplos práticos de como obter mais nutrientes dos alimentos, tais como: moer folha de mandioca, pois multiplica por cinco a concentração dos nutrientes; consumir physalis todos os dias para não desenvolver catarata - os índios a usam para o fígado; comer um ramo de coentro ou cebolinha no almoço e no jantar e consumir os matos comestíveis.

 
Neide Rigo

Autora do blog Come-se e colunista do caderno O Paladar do Estadão, a nutricionista Neide Rigo iniciou a sua fala afirmando que há muitos remédios escondidos nas plantas, mas muitas pessoas ainda preferem ir até a farmácia atrás das drogas. Nascida na periferia de São Paulo, Rigo disse que sempre carregou consigo o ser rural e agrícola que ela acredita que todos são. “Eu acredito que a gente nasce sabendo plantar e cozinhar. Mas tudo isso é tolhido desde a infância”.

Contrária à indústria alimentícia, ela encontrou no blog “Come-se” uma maneira de retomar o que fazia desde criança que é descobrir tudo o que existe para se comer. “O blog serve para mostrar um pouquinho o que existe no Brasil, o que as pessoas comem, resgatar um pouco da cultura alimentar e ao mesmo tempo mostrar o que a gente tem de comer por perto”, disse.

Neide Rigo lembrou que 90% do que se come hoje vem apenas de 20 espécies alimentícias, ao passo que existem pelo menos 12.500 espécies catalogadas e estima-se que 30 mil estejam esquecidas, entre espécies nativas e exóticas. “Há várias plantas sendo negligenciadas e cortadas da alimentação. Por isso eu acho muito válido a gente ter conhecimento de outras culturas quando se trata de fazer um melhor aproveitamento do que já está aqui no Brasil”, afirmou.

Assim como Bela Gil, defendeu a reforma agrária, outra lógica de produção de alimentos e o fortalecimento das empresas familiares. Ressaltou a importância das pessoas se informarem e deu como exemplo a moda dos superalimentos:  “será que a gente realmente precisa desses alimentos? Não há alimentos similares? O próprio cerrado tem uma biodiversidade incrível que a gente não conhece como óleo de licuri, babaçu...”

Foi ovacionada quando citou a sua experiência de colocar terra, de um terreno qualquer, num vaso e regá-lo diariamente: “Num vasinho onde nada foi plantado nasceram quatro espécies de alimentos e outra de medicamento”.  Para reforçar a importância do conhecimento para ter acesso à uma alimentação mais diversificada e barata, recomendou a leitura do livro Plantas alimentícias não convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, de Valdely Ferreira Kinupp, Harri Lorenzi


Perguntas da plateia

“Como trabalhar nesse limite entre resgate e apropriação cultural dos alimentos?

Bel Coelho afirma que a apropriação de receitas de outras regiões sempre aconteceu e que isso é possível, desde que se mantenha o respeito e o espaço de fala das pessoas que detém aquela tradição. Bela Gil é enfática: “Comida não tem propriedade e não pode ter. Não se pode apropriar e patentear pois a natureza não tem dono”. Neide Rigo diz que é necessário dar crédito e enfatizou que inspiração não é apropriação.


Como vocês enxergam a problemática do consumo da carne e seus efeitos no corpo humano?

Neide Rigo, nutricionista, onívora, diz que não precisamos de carne, mas sim do aporte de alguma proteína animal, inclusive pelo consumo de insetos. Disse que fermentados como o kombucha, e microorganismos lactofermentados oferecem a vitamina B12. “Quem quiser ser vegano tudo bem, quem quiser carne também tudo bem”, defende. Já a nutróloga Clara Brandão é enfática: “ não há necessidade de proteína de origem animal...em 1986 isso foi reforçado pela Organização Mundial de Saúde. Dra Clara afirma a importância de saber que cada parte da planta tem valor nutricional diferente. “Por exemplo, o coentro: raiz, caule, folha, tudo se consome”, esclarece. Bel Coelho, também onívora, recomenda o consumo mais consciente da carne. Diz que o consumo de cortes de segunda e outras partes (rabo, pé) contribui para o aproveitamento total do animal e a consequente redução de números de animais abatidos. A forma de consumir carne, como carne moída, em caldos, pós também ajuda a redução do consumo afirma Bel. Ela recomenda evitar grandes marcas e não incentivar a produção de forma nociva para o meio ambiente e ao animal. Bela Gil, onívora, é categórica quanto à necessidade de diminuição do consumo de carne. “A maneira que produzimos carne e o consumo são completamente insustentáveis. Comemos mais carne do que precisamos. Acho que parar de comer carne é um grande ato”. Foi ovacionada quando lembrou que São Paulo teve grave crise hídrica porque no cerrado se cortou árvores com raízes profundas para plantar soja para alimentar o gado.  Sobre o consumo de leite, defende que o da vaca é um alimento, mas não o que leite industrializado.


Opinião sobre vegetais biofortificados enriquecidos com microelementos como zinco.

Bel Coelho e Bela Gil acreditam a natureza é superior aos industrializados e por isso procuram uma dieta natural variada para ter acesso aos micronutrientes...Clara Brandão diz que, no Maranhão, a Monsanto está dando aos agricultores sementes de arroz dourado modificado para ter mais vitamina A, mas afirma que pequi, buriti e outros alimentos naturais  contém muito mais vitamina A que o arroz dourado “e não precisa tirar o agricultor da cultura tradicional para um transgênico”.


Relação do açúcar e dos agrotóxicos com câncer.

Bela Gil afirma os maiores indutores do câncer são os açúcares e os agrotóxicos. “Milhões de estudos mostram relação direta dos agrotóxicos e do açúcar com o câncer” constata Bel Coelho.


Como incentivar produtos agroecológicos na cosmética natural?

Bela Gil diz que faz muita coisa em casa, como desodorante e pasta de dente. Usa urucum como blush e batom, entre outros. “Precisamos nos perguntar e sair um pouco da caixa”, provoca.


Como incentivar o consumo de produtos regionais? Alguns inclusive estão em risco por não estarem sendo ofertados no mercado. Como proteger?

Bela Gil afirma que procura divulgar isso. “Fico muito feliz de fazer com que as pessoas voltem a ouvir falar de araruta, de jatobá”. Incentiva a procura pelos centros de distribuição de produtos regionais e outros pontos não convencionais.


Como cultivar nas crianças o gosto pela alimentação natural?

Bela Gil defende a inclusão de educação alimentar, gastronomia e alfabetização botânica nas escolas. “Todos deveriam achar bom as crianças consumirem vegetais” afirma, reforçando a mudança de comportamento cultural da sociedade. “Empoderar a criança”, responde Bel Coelho, que levou seu filho para a cozinha e a horta da sua casa. Foi ovacionada pelo público ao contar que matriculou seu filho na escola pública para militar sobre essa questão.

Notíciashttps://www.facebook.com/agroecologiadf/posts/853130448186004

Facilitação gráfica

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#AT10 – Ensinando sobre plantas medicinais na escola

Enseñanza sobre plantas medicinales en la escuela

Dia 12 | 14h00 – 16h30 | PAEPALANTUS | #Agroecologia2017

Responsável(is): Maria das Graças Lins Brandão

Arquivo: Apresentação 

Foto da atividade:

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#AT9 – Educação do campo e educação em agroecologia: diálogos e convergências

Educación del campo y educación en agroecología: diálogos y convergencias

Dia 12 | 14h00 – 16h00 | SERIEMA | #Agroecologia2017

Responsável(is): Monica Molina (UnB); Eugênio Ferrari (LPEC-UFV); Coordenador: Romier Paixão (ABA)

Arquivos: Apresentação Eugênio Ferrari 

Educação do Campo e Educação em Agroecologia: diálogos e convergências!Sobre o tema, a professora e diretora do Centro Transdisciplinar de Educação do Campo e Desenvolvimento Rural da UnB, Mônica Molina, aponta: “Nossa tarefa, nosso desafio é sair com uma agenda de luta com uma agenda de organização para que a gente possa construir resistência para esse período de tantos retrocessos para a classe trabalhadora". Vídeo: Adriana Gomes / Campo UnitárioTexto: Adilvane Spezia / Campo Unitário#Agroecologia2017#Agroecologia2017

Posted by Agroecologia 2017 on Thursday, September 14, 2017

Vídeo: Adriana Gomes / Campo Unitário

Relato:

Coordenador:

A ABA vem fazendo um esforço para garantir o espaço de discussão sobre proximidades e caminhos de educação do campo e agroecologia, ressaltando a importância de compartilhar este debate. Explica que os dois convidados começarão o debate e então a plenária fará um cochicho e continuará a conversa a partir das provocações que saírem da conversa em grupos menores. Apresenta os dois palestrantes, Mônica Molina e Eugenio Ferrari e fala sobre a relação de amizade com eles construída ao longo da caminhada tanto na educação do campo, quanto na Agroecologia. Mônica Molina, da UnB militante no tema da educação do campo e Eugênio Ferrari, militante na ONG CTA Zona da Mata, atuação esta, fundamental na construção da agroecologia no Brasil.

Mônica Molina:

Inicia falando da importância histórica do momento. Cita a frase do subcomandante Marcos: “a memória é uma vacina contra a morte” e complementa “que esse encontro possa nos alimentar e que a gente possa olhar para tudo que nós construímos nesse período tão significativo na história brasileira, onde várias políticas públicas foram forjadas com o protagonismo dos sujeitos coletivos e do campo e que essa memória nos alimente para a longa resistência que teremos pela frente”.

Mônica diz que as ações da educação do campo, da produção de conhecimento e da práxis dos educadores precisam estar articuladas com a questão agrária, agroecologia e soberania alimentar. Explica que estruturou a reflexão para esta plenária em três momentos: conceito, diálogos e convergências e agenda de luta.

Sobre conceitos, indaga: “a respeito do que estamos falando quando falamos de educação do campo?” Sobre diálogos e convergências ela afirma que é necessário tratar de diálogos convergentes entre os dois temas para refletir sobre os desafios e experimentar a troca e a escuta a cerca das experiências. Sobre o terceiro momento fala da construção de uma agenda de luta e resistência para o período de retrocessos, de assalto das classes dominantes aos fundos públicos, de extinção de diversas políticas públicas.

Explica que é necessário pensar sobre os conceitos a partir das práticas da educação do campo e da educação em agroecologia, especialmente sobre os processos de institucionalização que ambos os temas alcançaram no período do governo anterior. Ela reconhece as semelhanças nas trajetórias dos dois temas, partindo das experiências com grupos de estudos e estudantes, projetos de extensão, projetos de pesquisa, cursos do PRONERA até a institucionalização nos anos 2000. Com a institucionalização, aumentou o risco de subsumir o potencial revolucionário, transformador e contra hegemônico das ações dos dois temas.

Diz também que é importante reafirmar os conceitos em todos os espaços possíveis, pois há uma tentativa de captura e disputa do conceito tanto da educação do campo, quanto da educação em agroecologia, excluindo o principal componente nesse processo, o campo. Afirma que empresas do agronegócio dizem fazer educação do campo, formando professores para as escolas do campo. Para respaldar sua fala, cita uma tese que identifica a formação pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) nas escolas de Ribeirão Preto/SP, refletindo a nova estratégia de acumulação do capital no campo. Corroborando com Van Der Ploeg, a palestrante cita: “grandes conglomerados/impérios, cada vez com mais intensidade implantam no campo a lógica do alimento como mercadoria, como commodity, do alimento com preço nas bolsas de valores”.

Mônica diz ainda que o conceito em disputa está não somente no sentido figurado, mas na ação concreta do que significa a educação do campo. Sugere a leitura e uso do Dicionário da Educação do Campo, cujos 113 verbetes foram construídos coletivamente por pesquisadores, representantes do movimento social, entre outros atores sociais.

A palestrante identifica uma primeira contradição no contexto tratado: o modelo de campo do agronegócio versus o modelo de campo da agricultura camponesa. O modelo de campo do agronegócio pode ser traduzido pela lógica de obter mais lucro, concentração de terra, monocultura, utilização de agrotóxicos, padronização da natureza, das relações pela exploração do trabalho e dos recursos naturais. Fala de uma expressão do David Harvey que ajuda a compreender que vivemos o período da acumulação por espoliação, a máxima espoliação da natureza e da força do trabalho humano. Já a agricultura camponesa tem como essência características diversas daquelas do agronegócio: policultivo, cuidado com a natureza e ideia do alimento como um direito humano.

A segunda contradição continua Mônica é identificada pelo projeto de campo do agronegócio que traduz a educação do campo como formação de mão de obra para que os trabalhadores possam dar conta da intensa incorporação de novas tecnologias. Diferente da agricultura camponesa que traduz a educação do campo como formação do ser humano integralmente.

Existe de um lado, uma educação do campo voltada para o capital e de outro, uma educação do campo para a emancipação dos sujeitos do campo.

Por fim, a palestrante se refere à terceira contradição identificada ao se referir ao protagonismo na construção das políticas públicas, considerando que não existe política pública sem orçamento e que o Estado não pode agir sem recurso, indaga: “quem são os protagonistas da ação do Estado, quem vai dizer como vai agir, quais ações devem ser desenvolvidas, para onde devem ir os fundos e recursos públicos que foram gerados pela classe trabalhadora e que o Estado não está gerindo a serviço de quem o projeta?” Na educação do campo continua Mônica, os protagonistas foram os sujeitos coletivos formados pelos movimentos dos trabalhadores rurais sem-terra (MST), Contag, Unefab e vários grupos organizados que ajudaram a forjar, a partir do Estado, o PRONERA e outros exemplos como Saberes da Terra, Licenciatura em Educação do Campo (LEDUC), Residência Agrária e as várias políticas pensadas a partir da ação desses coletivos.

A palestrante diz ainda que o desafio agora é pensar como as contradições identificadas se relacionam especialmente nesse momento, em que a ação do governo golpista tem sido descontruir e até extinguir as políticas públicas; ação esta refletida nos cortes e até na extinção orçamentária para algumas políticas. A contradição neste momento continua Mônica, é que todos os fundos públicos estão sendo redirecionados para o agronegócio. Os parcos recursos das políticas que estão sendo extintas, estão agora sendo redirecionados e fortalecendo o MATOPIBA, a RENCA, ações que estão no sentido contrário do projeto de campo da educação do campo.

Mônica cita “uma ruralidade de espaços vazios, um campo sem sujeitos” para chamar à reflexão sobre a importância de pensar, a partir da agroecologia e da soberania alimentar, o campo como um espaço de produção da vida, com a natureza, e não como é o campo do agronegócio. E sobre as convergências entre os dois conceitos (educação do campo e agroecologia) ela identifica: a superação da lógica de orientação da sociedade capitalista; a realização da reforma agrária no país; e a transformação dos processos de produção de conhecimento, valorizando os saberes dos sujeitos camponeses, a exemplo dos cursos de residência agrária.

Em síntese a palestrante pontua as convergências entre a educação do campo e a agroecologia: 1. Crítica radical ao modelo de desenvolvimento hegemônico; 2. Cultura que contrapõem a ciência dominante; 3. Institucionalização da alternância como uma modalidade de oferta da educação superior, a partir da ciência produzida no território; 4. Formação de sujeitos auto-organizados para intervenção e transformação da realidade.

Cita Paulo Freire afirmando que o conhecimento se produz através de um contexto onde estão os sujeitos camponeses, espaço onde os processos de produção do conhecimento propostos pela educação do campo e pela agroecologia se materializam. Cita José Martí: “conhecer é transformar”; também fala sobre a ideia de uma escola diferente da escola capitalista tradicional inspirada no exército, na igreja, mas uma escola de formação de lutadores e construtores do futuro, essência do movimento da educação do campo.

A palestrante finaliza distinguindo desafios para continuidade da institucionalização da educação do campo e proteção do patrimônio social conquistado com as políticas públicas no período do governo anterior:

-enfrentamento da disputa do imaginário da sociedade brasileira com a propaganda do agronegócio, tentando convencer ininterruptamente que é o único modelo capaz de alimentara população;

-valorização dos sujeitos e protagonistas construtores dessas políticas, que são os camponeses e não os acadêmicos e intelectuais pensando para os camponeses;

-uso de estratégias de organização para mostrar à sociedade a diferença entre os dois modelos (agronegócio e agricultura camponesa);

-cursos institucionalizados e famílias como espaço de contra hegemonia;

-diálogo do ensino médio, graduação e pós-graduação com a educação básica;

-esforço teórico para consolidar um Dicionário da Educação do Campo e Agroecologia para proteger e reforçar o conceito dentro e fora da academia;

-valorização de temas considerados menores na academia, transformados em conteúdos científicos, pois estão vinculados a um projeto histórico, societário que tem como horizonte a superação da barbárie imposta pelo capitalismo.

Eugênio Ferrari

Inicia dizendo que ampliará o debate sobre diálogos e convergências entre educação do campo e agroecologia até chegar na questão pedagógica. Cita a construção da PNAPO e do Planapo, em 2010, como marcos histórico e fala do quanto essa construção foi descolada da reforma agrária, além de não considerar o espaço das escolas públicas como estratégico neste processo. Na construção do I Planapo as propostas foram incipientes, com exceção dos centros de formação por alternância; por sua vez, no II Planapo houve pouca interação com a educação do campo. Ainda em 2010, a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) buscou o diálogo com as redes e fóruns, na perspectiva de fortalecimento do campo democrático e popular da sociedade civil, através do “Encontro Nacional de Diálogos e Convergências: Agroecologia, Saúde e Justiça Ambiental, Soberania Alimentar e Economia Solidária”. Essa experiência foi enriquecedora e foi de onde surgiram iniciativas importantes como, por exemplo, a articulação com a Abrasco, cujo desdobramento foi o Dossiê contra os agrotóxicos.

Aponta algumas hipóteses para a falta de articulação entre os dois movimentos (educação do campo e agroecologia): (i) a visão de que o movimento agroecológico não articula a agroecologia com a reforma agrária, ou que esse tenha um enfoque apenas na tecnologia; (ii) que as escolas públicas no campo não são devidamente valorizadas como espaço estratégico de disputa, de construção da contra hegemonia; e (iii) a falta de conexão com as estratégias de reprodução socioeconômica da agricultura familiar camponesa e das populações tradicionais.

E na convergência, aponta a contribuição da educação do campo: na leitura/acúmulo sobre o processo de privatização da educação pública no país e contribuição na ação de colocar os sujeitos como protagonista, como ocorre na aplicação da metodologia campesino a campesino.

Ele aponta as contribuições do movimento agroecológico nas lutas do movimento pela educação do campo, como: a experiência na ação em redes; uso de metodologias que permitem centrar o debate político a partir das experiências concretas dos sujeitos do campo.

Em seguida o palestrante fez uma fala a respeito da avaliação dos Núcleos de Agroecologia, ressaltando como um marco na formação dos estudantes que participaram do edital 37.

Para exemplificar a convergência entre os dois movimentos, fala sobre o curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Ciências da Natureza e ênfase em Agroecologia, da Universidade Federal de Viçosa (LICENA/UFV) e apresenta a concepção teórica e as práticas pedagógicas: pedagogia da alternância com ênfase na agroecologia, sujeitos do campo ou tem algum vínculo com ele, professores e alunos vão ao campo para identificar as lutas e tratar isso dentro do processo formativo, eixos temáticos e temas geradores semestrais se articulam com os conteúdos disciplinares potencializando a abordagem interdisciplinar.

Ele segue expondo que o curso adota o conceito de agroecologia como ciência, prática e movimento, refletido nas experiências dos educandos; a partir da Pedagogia do Trabalho, teorizam sobre os processos sociais que envolvem o campo.

Afirma ainda que a agroecologia aparece como resultante das contradições do modo capitalista de fazer agricultura e da resistência histórica dos camponeses a se subordinar plenamente à sua lógica, o que foi tratado na palestra de Van Der Ploeg. Nesse sentido que a agricultura camponesa e a agroecologia, articuladas a partir do trabalho camponês e das experiências agroecológicas estabelecidas no âmbito dos territórios dos educandos, fornecem as bases para estruturação de processos educativos, tendo como objetivo maior a superação das contradições que compõe o campo brasileiro.

Finaliza citando Roseli Caldart: “é desafio firmar e dar mais densidade política à perspectiva epistemológica originária da agroecologia que é a conexão orgânica entre a elaboração e apropriação científica e as múltiplas formas de conhecimento produzido pelas famílias camponesas em sua prática social e histórica, de modo a fortalecê-las na capacidade de comando real do processo produtivo”.

Reafirma a importância de promover a aproximação dos profissionais dos dois movimentos tanto da educação do campo, quanto da agroecologia com a luta histórica dos povos camponeses. E finaliza dizendo que “as escolas tem entranhado em seu destino histórico o compromisso com a luta social pelo avanço da agricultura camponesa e do desenvolvimento das forças produtivas da agricultura desde a matriz da agroecologia”.


Coordenador: 

Afirma a importância da aproximação entre educação do campo e agroecologia e da reflexão sobre as convergências para superar os desafios em questão. Destaca alguns pontos do que foi dito nas duas palestras:

- debater sobre os conceitos para evitar o esverdeamento do capitalismo sobre a agroecologia;

- aplicar vigilância epistemológica de natureza político-científica;

- promover a relação entre a academia e o movimento social, na perspectiva do território, das camponesas e camponeses;

- valorizar o avanço histórico do movimento de institucionalização dos cursos de Agroecologia pelo Brasil, incluindo o avanço para outras áreas do conhecimento.

Romier afirma perceber como grande desafio pensar processos formativos nos dois temas juntos, articulados ao território e aos sujeitos que o constroem, dentro de um projeto de sociedade, historicamente construída. Ressalta o aumento do risco de institucionalização pela aplicação de legislações e regulamentos dentro das instituições, dificultando as inovações na construção do conhecimento. Cita o exemplo da pedagogia da alternância quando a universidade coloca em risco a prática pedagógica por falta de recurso. Afirma ainda que os camponeses foram alijados das instituições públicas de educação e, quando há um avanço na direção de ofertar educação superior ao povo do campo, a universidade se posiciona com ressalvas a um processo especifico para os camponeses alegando que fere o princípio da isonomia, da participação de todos.  Os desafios são de ordem política, de disputa dos espaços de direção da universidade.

O coordenador pergunta: “Como operacionalizar as ações no chão da escola ou da universidade?” Ele chama a operacionalização das ações na escola ou universidade de coreografia da formação em educação do campo com enfoque na agroecologia. Ele chama de coreografia por ser flexível e adaptada, e como uma dança, se faz a partir de cada realidade e cada território; dança essa baseada na tríade ecossistema, trabalho e cultura. O ecossistema a partir do território; o trabalho a partir da ontologia relacionado à natureza humana, pois o trabalho no campesinato é diferente do trabalho na fábrica. Na fábrica o trabalhador é subordinado a uma lógica de trabalho para ter sua remuneração e o fazem porque precisam sobreviver.  No campesinato, o trabalho tem natureza diferente; é coprodução chamada por Van Der Ploeg onde o sujeito trabalha a natureza e ao mesmo tempo a natureza transforma o campesinato.  Cita o exemplo da Amazônia onde os povos e comunidades tradicionais tem outra relação com o que vai para além da materialidade da transformação de recursos naturais em bens de uso ou em mercadorias: é uma relação cultural. Afirma que na perspectiva da coreografia da formação em educação do campo com enfoque na agroecologia, a cultura é um elemento fundamental, pois resgata a memória e o processo de formação dos sujeitos críticos para compreensão do papel de cada um no projeto de sociedade.


Finaliza articulando que é preciso avançar na compreensão sobre a agroecologia como um processo meramente eco técnico, ou da educação do campo como meramente promotora de metodologias inovadoras. “A nossa sala de aula é a realidade, tanto na educação do campo quanto na agroecologia”.


Plenária:

O coordenador propõe um cochicho de 15 minutos para debate em grupos menores e depois sugere um momento de partilha.

Partilha do cochicho

Grupo 1 - Eduardo – NEA GWATÀ (Universidade Estadual de Goiás):

- formação de professores

-formação continuada em agroecologia e educação do campo juntas;

-corte na liberação de bolsas do PRONERA pós-médio;

-quais estratégias que vão garantir as políticas públicas.

Grupo 2

- formação continuada de educadores que promova o reconhecimento e conhecimento a cerca dos sujeitos e territórios

- criação de um dicionário em educação no campo e agroecologia

- intercâmbio e troca de experiências, saberes e promoção do diálogo.

Grupo 3 - Magno – UFG

- corte e falta de recursos para políticas públicas;

- modificação da pedagogia da alternância quando aplicada na prática;

-formação dos professores com identidade com o movimento e a pedagogia;

-resgate de princípios inseridos na formação dos educadores.

Grupo 4 - Elenilson - IF Tabatinga/AM

- não há vivencia e confundem educação ambiental com educação do campo e agroecologia.

Grupo 5 - Chirlene – UEPB

- primeiro curso de Agroecologia do país e tem 10 anos;

-o NEA foi um marco na promoção e fortalecimento da Agroecologia;

- há conflitos e divergências por território, recurso e espaço político.

Grupo 6 - Cleide – Professora do Governo do Distrito Federal

- levar o conhecimento tradicional para dentro da sala de aula;

- oportunidade de superar o modelo de educação bancária;

-jovem se sente inferiorizado por realizar um curso como educação do campo e agroecologia.

Grupo 7 - Albertina – UFPB

- a educação do campo e a agroecologia não nasceu na academia, nem nas escolas;

- o movimento social se coloca a serviço do outro;

- desafios a enfrentar: currículo, fechamento de escolas e mobilização.

Foto da atividade:

Notícias:

A Educação do Campo e Agroecologia no centro do debate

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