#AT100 – Painel VI – Agroecologia e Resiliência às Mudanças Climáticas

Panel VI – Agroecología y Resiliencia a los Cambios Climáticos

Dia 15 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Eric Holt-Gimenez (Food First-USA); Luis Vazquez Moreno (Instituto de Investigaciones de Sanidad Vegetal – Cuba); Tomás León Sicard (Universidad Nacional de Colombia – Colômbia); Aldrin Pérez (INSA); Coordenadora: Clara Nicholls (SOCLA)

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Apresentação Aldrin Pérez

Apresentação Tomás León Sicard

Relato:

No dia 15 de Setembro de 2017 às 8:00, no Auditório Babaçu do Centro de Convenções Ulisses Guimarães foi realizado no âmbito do VI Congresso Latino-americano de Agroecologia, o X Congresso Brasileiro de Agroecologia o Painel - Agroecologia y Resiliência a los Câmbios Climáticos, promovido pela Sociedade Científica Latino Americana de Agroecologia - SOCLA, com a participação de: com a participação de Eric Holt-Gimenez, representando a Food First, organização Estado-Unidense; Tomás León Sicard da Universidad Nacional de Colômbia – Colômbia e  Aldrin Pérez, representando o Instituto Nacional do Semiárido - INSA do Brasil . O pesquisador Luis Vazquez Moreno do Instituto de Investigaciones de Sanidad Vegetal de Cuba não pode comparecer em função da passagem do furacão Irma, pelo Caribe.

Clara Nicholls, faz a abertura com uma breve apresentação dos participantes e do objetivo da mesa dentro do Congresso, focando na importância da discussão sobre o papel da agroecologia na construção da resiliência dos sistemas agrários no contexto das mudanças climáticas.

Aldrin Pérez - Instituto Nacional do Semiárido - INSA

Aldrin Perez inicia sua fala dizendo que a questão das terras secas no Nordeste Brasileiro tem relação com uma visão baseada um passado ruim, de um lado e, por outro lado, a uma perspectiva de futuro melhor. E completa “com as eleições de Lula e de Dilma se construiu uma perspectiva de futuro melhor em contraposição ao passado ruim e nesse momento essa perspectiva de futuro está em crise”.

Aldrin segue na sua apresentação, descrevendo como se deu a construção da proposta de pesquisa “Estratégias Agroecológicas e Sociais de adaptação a mudanças climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro” construída em parceria com a ASA.

Relata que construíram uma pesquisa popular com a ASA, para se estabelecer o estado da arte dentro das organizações de apoio aos agricultores para o desenvolvimento de estratégias de convivência com o semiárido. Identificaram uma série de indicadores estabelecidos com as famílias envolvidas na pesquisa. A partir da análise dos dados se construiu modelagens para entender as estratégias de convivência das famílias com o semiárido, incluindo as espécies mais utilizadas pelas famílias.

De acordo com Aldrin, a pesquisa identificou que as estratégias de captação e armazenamento de água permitiram a ampliação dos agro ecossistemas. Destaca que os sistemas de manejo de água no solo também se mostraram muito importantes, bem como a restauração das áreas de preservação permanente, reserva legal e arborização em geral de propriedades e o acesso a políticas públicas".

Aldrin ainda afirma que a pesquisa identificou também que todo o processo de desenvolvimento e disseminação de inovações para a convivência com o bioma tem uma profunda base cultural, associada ao funcionamento das organizações e ao fortalecimento das bases comunitárias de intercâmbio de conhecimentos e de aprendizagem. Por fim, diz que estão buscando identificar quais elementos devem ser potencializados para fortalecer esta perspectiva de construção de um futuro melhor.

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Eric Holt-Gimenez (Food First-USA)

Eric Holt-Gimenez inicia sua apresentação dizendo que a resiliência é uma questão em disputa e é uma prática social, que tanto pode contribuir para a ampliação das desigualdades, como para fundamentar processos emancipatórios. Fala ainda que gostaria de fazer uma propaganda de um livro chamado Terra fértil, que acabou de ser traduzido para o espanhol pela organização Food First, onde trabalha.

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Eric, retoma sua fala dizendo os intercâmbios são uma das práticas mais importantes do movimento campesino a campesino na América Central, por onde trabalhou durante mais de dez anos. Relata que começaram a perceber que as propriedades dos agricultores envolvidos no movimento, se recuperavam de forma muito mais rápida dos impactos de desastres climáticos como furacões, que são muito comuns na região da América Central, e estão se tornando cada vez mais intensos e recorrentes

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Em função dessas observações, Eric comenta que resolveram fazer um estudo envolvendo agricultores de quatro países da América Central sobre a resistência e resiliência dos sistemas de produção dos agricultores envolvidos no movimento. “Neste processo, percebemos uma relação profunda entre vulnerabilidade, resiliência e sustentabilidade. O estudo provocou um grande impacto, pois foi apresentado a governos e se buscou, a partir de seus resultados, estabelecer negociações para a construção de políticas públicas que fortalecessem as estratégias de reconstrução das propriedades em bases agroecológicas”, afirma.

O palestrante ressalta que, durante os processos de negociações, percebeu que há uma disputa com um conjunto de instituições que defendem uma visão capitalista de resiliência, que, de acordo com ele, tentam apagar todas as relações de poder e o aspecto político dos processos. “Essas organizações têm muito poder na definição das políticas públicas e muitas vezes propõem processos de reconstrução em que se nega o papel da agroecologia e de qualquer forma de agricultura, priorizando por exemplo estratégias de geração de emprego através da implantação de unidades industriais ao invés do fortalecimento dos processos de autonomia dos agricultores e suas famílias.

Eric comenta que, durante os processos de negociação, potencializados pela pesquisa, foram levantados os aspectos que podem diferenciar uma resiliência de uma resiliência industrial. “Dessa forma podem-se propor políticas que potencializam as estratégias de ampliação da organização e da autonomia dos agricultores e estratégias de reconstrução e desenvolvimento, assim como a ampliação da resiliência que reduzam as condições das famílias estabelecerem o sentido de suas trajetórias de vida” conclui.

Tomás León Sicard (Universidad Nacional de Colombia – Colômbia);

A apresentação do Prof. Tomás Sicard enfoca principalmente os aspectos teóricos que fundamentam as relações entre a agroecologia e o ambientalismo e sobre as mudanças climáticas e a agroecologia. “A partir do pensamento ambiental vamos fazer uma reflexão, resgatando o pensamento do Prof. Augusto Ángel Maya, que se perguntou se nós seres humanos ocupamos ou não um nicho nos ecossistemas da natureza?” questiona.

Prof. Tomás Sicard comenta que o Prof. Maya chegou à conclusão que não ocupamos um nicho, mas que, em todo o desenvolvimento da nossa espécie, a partir da linguagem e da inteligência, desenvolvemos um processo complexo de adaptação chamado de cultura. Constata que é um processo ambiental de adaptação da espécie humana aos ecossistemas e que todos os efeitos das interações entre cultura e natureza se dão de forma tal que produzem os impactos, as contaminações, as mudanças no clima, a deterioração dos ecossistemas, etc. Afirma que, dessa forma a agricultura também funciona como um processo de interação entre cultura e natureza.

Ainda em sua fala, o Prof. Sicard, comenta que na Colômbia se passa de inundações para secas todos os anos. Diz que, dependendo dos sistemas de medição, é possível identificar, de forma mais ou menos evidente, as mudanças de longo prazo dos ecossistemas. Diz que as mudanças e a variabilidade climática são dois aspectos do clima bem diferentes, mas que ambos são muito importantes para os camponeses. Afirma que se as mudanças de longo prazo são identificadas, é possível preparar-se, mas se não são identificadas, não é possível preparar-se para enfrentá-las. Ressalta que as mudanças de longo prazo são, em geral, associadas a processos profundos de mudanças culturais, que influenciam o desenvolvimento de sistemas de medição.

Sicard comenta que há muitos séculos se tem notícias de sistemas de manejo de água, como a construção de canais e sistemas de armazenamento. O povo Zenu, do oeste da Colômbia, chegou a manejar mais de 800 mil ha de áreas inundáveis, com terraços e canais. Este e outros, como as vilas em palafitas são sistemas de adaptação às condições ambientais das diferentes regiões, destaca o palestrante.

Ele afirma que, há algum tempo, as áreas ocupadas pelos povoados têm se tornado vulneráveis aos impactos das mudanças no clima. Apesar disso, ainda existem vários sistemas em desenvolvimento que retomam os conhecimentos tradicionais para a constituição de sistemas produção e ocupação adaptados a áreas críticas.

Por fim o prof. Sicard, pergunta para a plenária "O que é a resiliência?". E responde em seguida:  “Resiliência não é um conceito neutro, mas está enraizado em contextos políticos, culturais, técnicos e de poder”. E dá o exemplo de uma pesquisa no município da Colômbia, onde viviam los Panches, que identificou, entre outras coisas, que um aspecto muito importante da resiliência é o cultural.

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Clara Nicholls - Presidente da SOCLA / Coordenadora da mesa

Clara Nicholls faz uma apresentação síntese em que traz elementos globais sobre as questões das mudanças no clima. Diz para “não esquecermos quem são efetivamente os responsáveis pela emissão dos gases que provocam as mudanças e que a emissão destes gases tem relação direta com o modelo capitalista e de hiperconsumo que caracteriza nossa economia e sociedade”.

Alega que os "Trumpstas" ou negacionistas não creem e muito menos discutem as raízes dos processos de mudanças no clima. “Para se contrapor a esse tipo de atitude a pergunta que fazemos na Red Iberoamericana de Agroecologia para el Desarrollo de Sistemas Agrícolas Resilientes al Cambio Climatico - REDAGRES é se: podem as mudanças no clima afetar a produção de alimentos?  E a resposta a essa pergunta fica cada vez mais evidente que é sim”. A Prof. Nicholls apresenta um conjunto de exemplos que confiram a resposta, no México, em Bangladesh e na África.

Afirma que muitos agricultores ao redor do mundo passaram a desenvolver inovações para se adaptar às novas condições produzidas pelas mudanças no clima. Traz novos exemplos na Colômbia e dos que praticam a zai no sahel africano, que desenvolveram sofisticados sistemas de manejo da água no solo para garantir as suas colheitas.

A Prof. Nicholls, ainda faz uma nova pergunta chave: A tecnificação melhora a adaptação às mudanças climáticas? E comenta que, se não entendermos o viés militante das ciências e a sua parcialidade, não conseguiremos responder esta questão de forma correta.

Por fim em sua fala, a Prof. Nicholls afirma que há muitos caminhos para a construção da resiliência. Diz que esses caminhos podem ser emancipadores, ou apenas reformistas, de forma que não dialogam necessariamente com as raízes dos problemas que geram as vulnerabilidades dos sistemas de produção. Neste contexto, ela afirma que devemos estar atentos aos diferentes aspectos dos agro ecossistemas que contribuem para identificarmos sua resiliência, sua vulnerabilidade, a avaliação dos riscos a que estão submetidos e a sua capacidade de resposta.

Perguntas e comentários do público.

-“O termo resiliência não está desgastado? E quanto tempo durou a pesquisa realizada pelo INSA, apresentada por Aldrin? ”

- “Ano passado 600 mil ha de florestas foram consumidos pelo fogo e os bosques nativos protegeram as propriedades. As estratégias de restauração com bosques nativos não deveriam ser consideradas para a ampliação da resiliência dos sistemas de produção? ”

- “A Reforma Agrária na Colômbia não está estagnada após os processos de negociação de paz estabelecidos entre o governo e as FARC? ”

- “O termo resiliência não seria um campo em disputa e quem estaria ocupando os lugares nesta disputa? ”

- “Apesar de o capitalismo negar as mudanças climáticas, há um campo de oportunidades abertas em que as empresas tentam se posicionar, como por exemplo o mercado de carbono, e que teríamos que tomar cuidado com as falsas soluções”.

Respostas dos membros da mesa:

Aldrin, do INSA, diz que a pesquisa continua e que eles levaram três anos para a construção da proposta. Concorda com a questão do participante e afirma que o termo resiliência em grande parte é um conceito cooptado, e que no caso deles trabalham com o conceito de "convivência com o semiárido".

O Prof. Sicard, afirma que “para nós, toda a propriedade privada na América Latina é ilegal, pois há muitos questionamentos jurídicos colocando em cheque o Tratado de Tordesilhas. O acordo de paz com as FARC, que estabelece a perspectiva de destinação de 3 milhões de hectares a Reforma Agrária em 10 anos, não terá condições de promover uma verdadeira reforma agrária, mas sim uma estratégia de desenvolvimento rural integrada à indústria, como as próprias FARC já vem afirmando”.

Eric comenta sobre a questão da resiliência. Diz que, em uma reunião, uma representante de uma importante agência de cooperação foi questionada pelos agricultores porque ela não propunha projetos de ampliação da resiliência para as grandes empresas bananeiras multinacionais que atuam na América Central? “Ou seja, para os grandes capitalistas oferecem capital e para os pobres oferecem resiliência despolitizada” destaca. Ainda comenta que o capitalismo está lutando com todas as suas forças para sobreviver nas condições insustentáveis que criou: “A privatização das sementes e a privatização do carbono são falsas soluções para manter vivo este sistema que está acabando com a civilização”.

Por fim, a Prof. Clara Nicholls, afirma que é necessário deixar claro quais são as raízes e as causas por traz das mudanças do clima e que a resiliência tem relação com aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos e não apenas técnicos. Defende que os agricultores devem fazer suas opções por trilhar, caminhos que sejam reformistas, de transição ou transformadores.

E assim desfaz a mesa agradecendo aos participantes e aos palestrantes.

 

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