#AT105 – Construção Social de Mercados

Construcción de Mercados

Dia 15 | 10h00 – 12h00 | AUDITÓRIO JATOBÁ | #Agroecologia2017

Responsável(is): Sérgio Schneider (PGDR/UFRGS); Silvio Porto (ex diretor da CONAB – PAA); Andrea Zimmermann (CSA Brasil). Mediadora: Renata Navega

Arquivos:

Live de formas alternativas de comercialização dos produtos do seu SAF!!!! Construção social de mercados.Com Sérgio Schneider (PGDR/UFRGS) Silvio Porto (ex Diretor da CONAB -PAA)Andrea Zimmermann (CSA Brasília) e Renata Navega (CSA Brasília)#agroflorestadofuturo #congressoagroecologia2017 #xcongressobrasileirodeagroecologia #agroecologia2017 #agriculturasintrópica #CSA #CSABrasília

Posted by Agrofloresta do Futuro on Friday, September 15, 2017

Relato
A mediadora Renata Navega inicia a fala com a pergunta: O que te levou a estar na sala de construção social de mercados?

A atividade é discutida em dupla pelo público. Duas duplas comentam a resposta:

Alsimar e Daniela: destacam o encontro entre o agricultor de cabras e a vigilante sanitária; comentam as barreiras institucionais da pequena agricultura; sua expectativa é saber como o produto artesanal chega à mesa do consumidor.

Rodrigo e Fabiano: demonstram preocupação com a agricultura orgânica e a burocracia do selo de orgânico; têm expectativa de conhecer mais sobre o tema e compartilhar o que sabem.

Sergio Schneider: – Professor de pós-graduação em Desenvolvimento Rural da UFRGS

O palestrante inicia sua fala com uma exposição acerca dos diferentes conceitos de mercado:  mercado como espaço físico (espaço de compra); mercado como destino comercial (um lugar para o qual alguém envia um produto que será comercializado) e mercado no sentido abstrato (como aparece nos telejornais). Afirma que quando se fala em mercado, pensa-se em sociedades mercantilizadas (sociedades ocidentais com valores de uso e de troca, mercados impessoais) e não-mercantilizadas (sociedades indígenas, sociedades antigas, troca direta); Sérgio passa por esses conceitos para chegar à definição de mercados (no plural) e trazer clareza de que existem diversas formas de troca (mercados) e que o capitalismo é apenas uma forma.  Ressalta que o capitalismo é baseado no individualismo, livre compra e venda e concorrência enquanto as trocas podem também ser centradas na reciprocidade (igualdade, comunitarismo, solidariedade, parentesco, cooperação) e na redistribuição (centralidade, hierarquia, etc.). Traz então a definição de mercado como: “Relação social entre dois agentes cujo sentido é satisfazer os interesses econômicos ou outro através da troca”. Passa rapidamente pelas definições de mercado das teorias clássicas para chegar ao mercado como construção social que tem a seguinte origem: resistência e/ou oposição aos mercados hegemônicos; exclusão – social/econômica; luta social e luta por autonomia. Aponta as seguintes características dos mercados imersos “socialmente construídos”: as interações – com Sociedade/Mercado e com o Estado funcionam com distintividade – por produto, por processo, por lugar produzido; há atuação em redes – relações com consumidores; baseados na territorialidade e identidade social dos atores; atuam em forma de cadeias curtas; formalidade e informalidade andam juntas. Em seguida, o palestrante dá exemplos de mercados imersos (os socialmente construídos) e segue para uma classificação (dele mesmo) com cinco tipos de mercado: 1-O personalizado; 2- Personificados - face-a-face, fair trade; 3-Proximidade- feiras, sacolão; Institucionais- licitação, leilão, edital; 4-Centralizados -integradoras, cooperativas; e os 5-Convencionais - atravessador, comércio.

Ele finaliza colocando algumas questões e perigos para o debate atual:

- Forte insistência e tendência nos canais locais de comercialização dos produtos agroecológicos. “Por que eles devem estar inseridos somente nos mercados locais”?

- Restrições e tentativas de evitar canais tradicionais como o supermercado. “Será que não”?

- Tendência geral de feiras diretas (porta a porta) ou pela internet como principais canais de venda de produtos agroecológicos.

- Localismo: ele afirma que o sujeito cria o local e os novos entrantes são barrados sugerindo localismo defensivo e não democrático. “O local tem limites, sobretudo o tamanho da demanda. Se eu discutir a produção orgânica somente para os mercados locais impeço o crescimento dos produtores...não espraia os produtos para além do local, não se discute o alcance da agroecologia. Existe uma questão entre aumentar a oferta e crescer a dependência: crescer ou ficar como está”?

- Como fugir dos nichos – elitização do consumo via renda.

- Interfaces dos mercados agroecológicos. “Com os outros mercados pode haver coexistência”?

Sílvio Porto – Consultor Internacional em Segurança Alimentar

O palestrante inicia a fala afirmando que as relações de mercado são relações de poder que estão conectadas a um sistema agroalimentar, diferenciando assim mercado capitalista de regime capitalista. Explica o Codex Alimentarius, código que determina o padrão de alimentação e consumo que foi aderido por 187 países e que embora, a adesão seja voluntária, é obrigação dos países signatários adotarem as medidas no interior das suas respectivas legislações.  Em seguida, mostra alguns dados sobre o lucro de supermercados no Brasil. De acordo com os dados apresentados por Sílvio, esse setor movimenta R$ 315 bilhões de reais por ano (dessa soma, 2/3 pertencem a três empresas – Carrefour, Wallmart e Pão de Açúcar). Ressalta que um dos princípios do mercado neoliberal é a autorregulação: “talvez isso sirva para o capitalismo, mas, não para os mercados sociais”. Afirma que pela autorregulação cada um deveria ter as possibilidades de escolha para permitir que se constituíssem os códigos, os padrões; traz a Rede Ecovida como exemplo. É particularmente crítico à inserção da produção agroecológica e de orgânicos nos supermercados. Acredita que deixa de ser uma construção agroecológica e passa a ser uma relação mercantil. “É importante avaliar o nível de subordinação que as organização e associações se colocam” ressalta. Questiona quais são essas relações e qual é o contrato que o supermercado está estabelecendo com esses produtores. Enfatiza que se três grandes redes representam o que circulam no mercado alimentar (entre outros produtos) há um poder muito grande no sentido de formar hábitos e desestruturar economias regionais. “Como são então as relações com uma pequena cooperativa de leite, ou quem fornece frutas e hortaliças?”, pondera. Acredita na descentralização como um elemento para construir novas dinâmicas, na aproximação entre atores (produção e consumo), nas relações de confiança e de reciprocidade, na relação de proximidade (saber de onde vem e quem produz o alimento), mesmo que ele seja consumido à distância e, por último, na autonomia.

Andreia Zimmerman: agricultora e membro da CSA (Comunidade que sustenta a agricultura) Toca da Coruja, Lago Oeste, DF:

A palestrante narra um pouco da sua trajetória pessoal e de forma bem didática (a partir de charges e outras imagens) coloca como a escassez de recursos pode levar à construção de uma rede de pessoas que buscam se orientar de forma diferente par solucionar problemas. Define o CSA como uma comunidade que reestabalece a conexão em uma lógica da abundância pelos princípios da cooperação, solidariedade, empoderamento, respeito, confiança e satisfação mútua de necessidades. Traz um pouco da história dos CSAs no mundo dizendo que não necessariamente os CSAs fortalecem a agricultura familiar e a produção orgânica: “isso é algo que acontece no Brasil”, afirma. Explica o funcionamento de um CSA na prática: procura por um agricultor que levanta o custo de produção; o agricultor ganha o quanto ele acha justo e o quanto o grupo acorda contribuir; ele apresenta tudo que pode organizar e plantar e se compromete com um prazo; o termo de compromisso é firmado entre 6 meses e 1 ano; é necessário aceitar os produtos de alimentos da época; é pactuado entre o grupo arcar com um custo compartilhado dos riscos; o valor é definido antecipadamente  o valor é negociado na cota. Ela ressalta que são definidas também as cotas sociais – quem pode pagar mais e quem não pode pagar esse valor. Enfatiza que é uma comunidade que se estabelece em cooperação. Há um trabalho voluntário para organizar as atividades da comunidade como colheitas semanais e entrega de uma cesta com cerca de dez itens em um ponto de convivência. Aponta que a proximidade da terra e das relações que se estabelecem também influencia na formação da comunidade. “Cada comunidade cria sua escultura social”, afirma. Por fim, Andrea levanta os desafios dos CSAs:

- Formar comunidade, que requer vínculo, dedicação e tempo do estabelecimento do vínculo, para as pessoas descobrirem o que as aproximam.

- Compromisso e rotina de longo prazo. “Às vezes esse formato não se adequa à rotina da pessoa. Se ela não cozinha em casa, quando e como vai cuidar dos produtos? Assim, a rotatividade na comunidade se torna um desafio”, pondera.

- Produzir com a variedade necessária 12 meses por ano: sazonalidade x expectativas.

- Internalizar a cultura do apreço. “As pessoas ainda estão na transição e têm dificuldade de sair da relação de consumidor para co-agricultor.

- CSA não é a solução para todos os agricultores e para toda a produção. “Às vezes o agricultor vai estar na feira, produzindo... tem outros fornecedores para abastecer”.

- CSA não se adequa a todas as pessoas. Há diversas formas de comércio justo e solidário.

Foto da atividade:

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT104 – Diálogos entre Agroecologia e as Economias Críticas

Diálogos entre la Agroecología y las Economías Críticas

Dia 15 | 10h00 – 12h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Walter Pengue (The Economics of Ecosystems and Biodiversity –TEEB / Intergov); Guilherme Delgado (IPEA); Isabelle Hillenkamp (IRD -França); Coordenadora: Emma Siliprandi (GT Mujeres, Agroecologia y Economia Solidária de CLACSO – Espanha)

Arquivo: Apresentação Isabelle Hillenkamp 

Relato:

Mesa para diálogo entre Agroecologia e Economias Críticas. Os convidados que compõem a mesa atuam e/ou realizam pesquisa na área de economia e trouxeram informação importante para conectar Economia e Agroecologia. O diálogo levantou questões que ainda caminham para um processo de solução, mas evidenciou o momento de ampliar o olhar para uma necessidade urgente de mudança para uma economia integral e ecológica. Inspirações em uma escala macro e micro, para repensar um sistema econômico de depreciação dos recursos naturais e reestabelecer uma cosmovisão das relações econômicas e sociais.

Guilherme Delgado:

Economista do IPEA, acompanha o movimento desde a luta pela reforma agrária e dos movimentos camponeses do Brasil. Delgado afirmou que, de fato, a corrente principal da economia convencional não dialoga com agroecologia. Explica que, para as correntes convencionais da economia, os progressos técnicos são molas propulsoras do desenvolvimento econômico, e cria-se o mito de que estes progressos técnicos sejam a solução da proposta civilizatória, do capital e do dinheiro. Essa visão possui muitas críticas ao longo do Século XX, sendo que algumas dessas críticas dialogam com a agroecologia. O palestrante apresenta quatro vertentes dessas críticas: a) economia política do capital com crítica aos fundamentos do capitalismo e à desigualdade da repartição dos rendimentos sociais; b) teoria do subdesenvolvimento: coloca a questão dos custos invisíveis do processo de desenvolvimento e a forte ligação com a exploração das vantagens comparativas naturais; c) privação de capacidades humanas e de suas liberdades; e d) vício estrutural do progresso técnico de alta entropia.

A economia ecológica, fundado nos anos 1970, possui princípios que são válidos como crítica à modernidade. O vicio estrutural de alta entropia, traduzido de forma simples, diz respeito à forte dissipação de energia útil que se materializa em poluição ambiental, diferentemente do foco na ideia livre que dialoga com a visão integral da agroecologia. Uma economia de cosmovisão pode ser considerada como uma revolução científica. O diálogo tem que ser com um conjunto de saberes, deve ser compatível com a vida em sociedade. O diálogo é pertinente para construção de um novo caminho, possui forte relação também, com a teologia abordado pelo atual Papa Francisco, que se preocupa com tema e é uma estrutura de poder.

Isabelle Hillenkamp:

Economista que trabalha com economia feminista, expôs a visão para uma escala micro em que as relações econômicas-sociais podem ser construídas. Afirma a importância do diálogo com o campo, e que a leitura feminista é um aprofundamento da história dentro da história. Iniciou nos anos 1970, juntamente com a reforma agraria, críticas à agricultura convencional e posicionou-se em prol da pluralidade existente. Isabelle citou que na década de 1990 atuou na inserção da visão agroecológica e do desenvolvimento sustentável, e em 2003, com foco em políticas públicas. A principal necessidade para o reconhecimento feminino da agroecologia é a valorização do trabalho dos conhecimentos agroecológicos, afirmou. Continuou, do ponto de vista do fluxo econômico, a busca por autonomia das mulheres mostra diferentes relações tanto monetárias como não monetárias. Essas relações merecem qualificação no sentido de buscar critérios. Hillenkamp disse que as práticas mercantis podem ou não trazer visão capitalista. Afirmou ainda que práticas não monetárias muitas vezes possuem propósito de comércio justo e solidário, como as trocas de sementes e mudas e as doações de alimentos, mas podem também, vir de uma situação impositiva e gerarem exploração e desigualdade. Por fim, informou que a economia feminista na agroecologia busca por sustentabilidade de vida com uma cultura de afeto, práticas de interdependência, reciprocidade, redistribuição, partilha doméstica e mercado.

Walter A. Pengue
 
Walter A. Pengue é professor e pesquisador na Argentina, com experiência das questões agrárias da América Latina. Expôs uma visão macro, da real necessidade de brutal transformação para o período pelo qual a humanidade passa. Afirma que agroecologia possui uma visão sustentável. Afirmou: precisamos entender que todos os modelos econômicos, sejam de esquerda ou direita, precisam olhar a questão ambiental, o solo, os recursos naturais, e seus impactos precisam ser tratados, para uma visão global e de necessidade da humanidade.

As estruturas de poder precisam tratar dos quesitos econômicos e recursos naturais em conjunto. Não é uma temática somente para América Latina. Precisamos considerar a economia e a ecologia, em uma situação de reparação para uma nova situação, uma mudança paradigmática, mudança civilizatória para a sociedade não desaparecer. Tem sido comum adicionarem adjetivos à economia, como exemplo, economia verde, circular, solidária e ecológica. Mas não tem sido efetivada uma mudança de fato. A economia ecológica nos traz uma visão abundante, avançar de forma mais rápida e socioecológica com transformação cultural.
 
Walter firmou que a América Latina precisa se restabelecer. Que possui muitos recursos naturais, que são explorados e aproveitados por países “mais desenvolvidos”. A China, por exemplo, tem criado uma mudança de demando sobre seus recursos no mundo. O planeta, de forma geral, comete um genocídio de seus recursos naturais. Perguntou: Como consertar essa realidade? Não será possível mudar somente a partir dos conhecimentos científicos, as mudanças veem dos movimentos sociais para uma economia ecológica e sustentável. Pengue afirmou ainda que será necessário aliar a visão macro e o nível micro, das organizações de tarefas familiares, passando pelas práticas de ocupação do mercado, até a proposição de um modelo mais geral.

Contribuições do público:

O público fez contribuições com questionamentos e com relatos de suas experiências e entendimentos na temática. Entre os questionamentos levantados, destacamos: a importância da valoração dos serviços ambientais; refletir sobre processos sem discriminação e igualitários; inserção da economia ecológica no currículo da graduação de economia de forma mais profunda, visto seu perfil marginal atualmente; mudança para um paradigma da abundância e economia do bem viver.

Ainda foi levantado que a economia feminista urbana trouxe contribuições importantes, mas sempre ficou atrelada em incluir as mulheres no sistema de mercado acelerado convencional. A participação das mulheres rurais traz uma possibilidade de renovação. Visão da natureza não como objeto, e sim como um sujeito do sistema. Discutir o direito à propriedade da terra, pois sem território não há agroecologia, construir como categoria no mercado de trabalho, agregar multidisciplinaridade de profissionais e incluir economia solidaria e feminista, e ecológica com respeito as relações sociais.

 

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT100 – Painel VI – Agroecologia e Resiliência às Mudanças Climáticas

Panel VI – Agroecología y Resiliencia a los Cambios Climáticos

Dia 15 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Eric Holt-Gimenez (Food First-USA); Luis Vazquez Moreno (Instituto de Investigaciones de Sanidad Vegetal – Cuba); Tomás León Sicard (Universidad Nacional de Colombia – Colômbia); Aldrin Pérez (INSA); Coordenadora: Clara Nicholls (SOCLA)

Arquivos:

Apresentação Aldrin Pérez

Apresentação Tomás León Sicard

Relato:

No dia 15 de Setembro de 2017 às 8:00, no Auditório Babaçu do Centro de Convenções Ulisses Guimarães foi realizado no âmbito do VI Congresso Latino-americano de Agroecologia, o X Congresso Brasileiro de Agroecologia o Painel - Agroecologia y Resiliência a los Câmbios Climáticos, promovido pela Sociedade Científica Latino Americana de Agroecologia - SOCLA, com a participação de: com a participação de Eric Holt-Gimenez, representando a Food First, organização Estado-Unidense; Tomás León Sicard da Universidad Nacional de Colômbia – Colômbia e  Aldrin Pérez, representando o Instituto Nacional do Semiárido - INSA do Brasil . O pesquisador Luis Vazquez Moreno do Instituto de Investigaciones de Sanidad Vegetal de Cuba não pode comparecer em função da passagem do furacão Irma, pelo Caribe.

Clara Nicholls, faz a abertura com uma breve apresentação dos participantes e do objetivo da mesa dentro do Congresso, focando na importância da discussão sobre o papel da agroecologia na construção da resiliência dos sistemas agrários no contexto das mudanças climáticas.

Aldrin Pérez - Instituto Nacional do Semiárido - INSA

Aldrin Perez inicia sua fala dizendo que a questão das terras secas no Nordeste Brasileiro tem relação com uma visão baseada um passado ruim, de um lado e, por outro lado, a uma perspectiva de futuro melhor. E completa “com as eleições de Lula e de Dilma se construiu uma perspectiva de futuro melhor em contraposição ao passado ruim e nesse momento essa perspectiva de futuro está em crise”.

Aldrin segue na sua apresentação, descrevendo como se deu a construção da proposta de pesquisa “Estratégias Agroecológicas e Sociais de adaptação a mudanças climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro” construída em parceria com a ASA.

Relata que construíram uma pesquisa popular com a ASA, para se estabelecer o estado da arte dentro das organizações de apoio aos agricultores para o desenvolvimento de estratégias de convivência com o semiárido. Identificaram uma série de indicadores estabelecidos com as famílias envolvidas na pesquisa. A partir da análise dos dados se construiu modelagens para entender as estratégias de convivência das famílias com o semiárido, incluindo as espécies mais utilizadas pelas famílias.

De acordo com Aldrin, a pesquisa identificou que as estratégias de captação e armazenamento de água permitiram a ampliação dos agro ecossistemas. Destaca que os sistemas de manejo de água no solo também se mostraram muito importantes, bem como a restauração das áreas de preservação permanente, reserva legal e arborização em geral de propriedades e o acesso a políticas públicas".

Aldrin ainda afirma que a pesquisa identificou também que todo o processo de desenvolvimento e disseminação de inovações para a convivência com o bioma tem uma profunda base cultural, associada ao funcionamento das organizações e ao fortalecimento das bases comunitárias de intercâmbio de conhecimentos e de aprendizagem. Por fim, diz que estão buscando identificar quais elementos devem ser potencializados para fortalecer esta perspectiva de construção de um futuro melhor.

Acesse aqui o livro Futureo em PDF


Eric Holt-Gimenez (Food First-USA)

Eric Holt-Gimenez inicia sua apresentação dizendo que a resiliência é uma questão em disputa e é uma prática social, que tanto pode contribuir para a ampliação das desigualdades, como para fundamentar processos emancipatórios. Fala ainda que gostaria de fazer uma propaganda de um livro chamado Terra fértil, que acabou de ser traduzido para o espanhol pela organização Food First, onde trabalha.

Neste link, você pode adquirir o livro Tierra Fértil: Desarrollando la Agroecología de Abajo hacia Arriba


Eric, retoma sua fala dizendo os intercâmbios são uma das práticas mais importantes do movimento campesino a campesino na América Central, por onde trabalhou durante mais de dez anos. Relata que começaram a perceber que as propriedades dos agricultores envolvidos no movimento, se recuperavam de forma muito mais rápida dos impactos de desastres climáticos como furacões, que são muito comuns na região da América Central, e estão se tornando cada vez mais intensos e recorrentes

Neste link você pode baixar o livro Campesino a Campesino, escrito pelo palestrante

Em função dessas observações, Eric comenta que resolveram fazer um estudo envolvendo agricultores de quatro países da América Central sobre a resistência e resiliência dos sistemas de produção dos agricultores envolvidos no movimento. “Neste processo, percebemos uma relação profunda entre vulnerabilidade, resiliência e sustentabilidade. O estudo provocou um grande impacto, pois foi apresentado a governos e se buscou, a partir de seus resultados, estabelecer negociações para a construção de políticas públicas que fortalecessem as estratégias de reconstrução das propriedades em bases agroecológicas”, afirma.

O palestrante ressalta que, durante os processos de negociações, percebeu que há uma disputa com um conjunto de instituições que defendem uma visão capitalista de resiliência, que, de acordo com ele, tentam apagar todas as relações de poder e o aspecto político dos processos. “Essas organizações têm muito poder na definição das políticas públicas e muitas vezes propõem processos de reconstrução em que se nega o papel da agroecologia e de qualquer forma de agricultura, priorizando por exemplo estratégias de geração de emprego através da implantação de unidades industriais ao invés do fortalecimento dos processos de autonomia dos agricultores e suas famílias.

Eric comenta que, durante os processos de negociação, potencializados pela pesquisa, foram levantados os aspectos que podem diferenciar uma resiliência de uma resiliência industrial. “Dessa forma podem-se propor políticas que potencializam as estratégias de ampliação da organização e da autonomia dos agricultores e estratégias de reconstrução e desenvolvimento, assim como a ampliação da resiliência que reduzam as condições das famílias estabelecerem o sentido de suas trajetórias de vida” conclui.

Tomás León Sicard (Universidad Nacional de Colombia – Colômbia);

A apresentação do Prof. Tomás Sicard enfoca principalmente os aspectos teóricos que fundamentam as relações entre a agroecologia e o ambientalismo e sobre as mudanças climáticas e a agroecologia. “A partir do pensamento ambiental vamos fazer uma reflexão, resgatando o pensamento do Prof. Augusto Ángel Maya, que se perguntou se nós seres humanos ocupamos ou não um nicho nos ecossistemas da natureza?” questiona.

Prof. Tomás Sicard comenta que o Prof. Maya chegou à conclusão que não ocupamos um nicho, mas que, em todo o desenvolvimento da nossa espécie, a partir da linguagem e da inteligência, desenvolvemos um processo complexo de adaptação chamado de cultura. Constata que é um processo ambiental de adaptação da espécie humana aos ecossistemas e que todos os efeitos das interações entre cultura e natureza se dão de forma tal que produzem os impactos, as contaminações, as mudanças no clima, a deterioração dos ecossistemas, etc. Afirma que, dessa forma a agricultura também funciona como um processo de interação entre cultura e natureza.

Ainda em sua fala, o Prof. Sicard, comenta que na Colômbia se passa de inundações para secas todos os anos. Diz que, dependendo dos sistemas de medição, é possível identificar, de forma mais ou menos evidente, as mudanças de longo prazo dos ecossistemas. Diz que as mudanças e a variabilidade climática são dois aspectos do clima bem diferentes, mas que ambos são muito importantes para os camponeses. Afirma que se as mudanças de longo prazo são identificadas, é possível preparar-se, mas se não são identificadas, não é possível preparar-se para enfrentá-las. Ressalta que as mudanças de longo prazo são, em geral, associadas a processos profundos de mudanças culturais, que influenciam o desenvolvimento de sistemas de medição.

Sicard comenta que há muitos séculos se tem notícias de sistemas de manejo de água, como a construção de canais e sistemas de armazenamento. O povo Zenu, do oeste da Colômbia, chegou a manejar mais de 800 mil ha de áreas inundáveis, com terraços e canais. Este e outros, como as vilas em palafitas são sistemas de adaptação às condições ambientais das diferentes regiões, destaca o palestrante.

Ele afirma que, há algum tempo, as áreas ocupadas pelos povoados têm se tornado vulneráveis aos impactos das mudanças no clima. Apesar disso, ainda existem vários sistemas em desenvolvimento que retomam os conhecimentos tradicionais para a constituição de sistemas produção e ocupação adaptados a áreas críticas.

Por fim o prof. Sicard, pergunta para a plenária "O que é a resiliência?". E responde em seguida:  “Resiliência não é um conceito neutro, mas está enraizado em contextos políticos, culturais, técnicos e de poder”. E dá o exemplo de uma pesquisa no município da Colômbia, onde viviam los Panches, que identificou, entre outras coisas, que um aspecto muito importante da resiliência é o cultural.

Acesse aqui o livro Perspectiva Ambiental de la Agroecologia em PDF

Clara Nicholls - Presidente da SOCLA / Coordenadora da mesa

Clara Nicholls faz uma apresentação síntese em que traz elementos globais sobre as questões das mudanças no clima. Diz para “não esquecermos quem são efetivamente os responsáveis pela emissão dos gases que provocam as mudanças e que a emissão destes gases tem relação direta com o modelo capitalista e de hiperconsumo que caracteriza nossa economia e sociedade”.

Alega que os "Trumpstas" ou negacionistas não creem e muito menos discutem as raízes dos processos de mudanças no clima. “Para se contrapor a esse tipo de atitude a pergunta que fazemos na Red Iberoamericana de Agroecologia para el Desarrollo de Sistemas Agrícolas Resilientes al Cambio Climatico - REDAGRES é se: podem as mudanças no clima afetar a produção de alimentos?  E a resposta a essa pergunta fica cada vez mais evidente que é sim”. A Prof. Nicholls apresenta um conjunto de exemplos que confiram a resposta, no México, em Bangladesh e na África.

Afirma que muitos agricultores ao redor do mundo passaram a desenvolver inovações para se adaptar às novas condições produzidas pelas mudanças no clima. Traz novos exemplos na Colômbia e dos que praticam a zai no sahel africano, que desenvolveram sofisticados sistemas de manejo da água no solo para garantir as suas colheitas.

A Prof. Nicholls, ainda faz uma nova pergunta chave: A tecnificação melhora a adaptação às mudanças climáticas? E comenta que, se não entendermos o viés militante das ciências e a sua parcialidade, não conseguiremos responder esta questão de forma correta.

Por fim em sua fala, a Prof. Nicholls afirma que há muitos caminhos para a construção da resiliência. Diz que esses caminhos podem ser emancipadores, ou apenas reformistas, de forma que não dialogam necessariamente com as raízes dos problemas que geram as vulnerabilidades dos sistemas de produção. Neste contexto, ela afirma que devemos estar atentos aos diferentes aspectos dos agro ecossistemas que contribuem para identificarmos sua resiliência, sua vulnerabilidade, a avaliação dos riscos a que estão submetidos e a sua capacidade de resposta.

Perguntas e comentários do público.

-“O termo resiliência não está desgastado? E quanto tempo durou a pesquisa realizada pelo INSA, apresentada por Aldrin? ”

- “Ano passado 600 mil ha de florestas foram consumidos pelo fogo e os bosques nativos protegeram as propriedades. As estratégias de restauração com bosques nativos não deveriam ser consideradas para a ampliação da resiliência dos sistemas de produção? ”

- “A Reforma Agrária na Colômbia não está estagnada após os processos de negociação de paz estabelecidos entre o governo e as FARC? ”

- “O termo resiliência não seria um campo em disputa e quem estaria ocupando os lugares nesta disputa? ”

- “Apesar de o capitalismo negar as mudanças climáticas, há um campo de oportunidades abertas em que as empresas tentam se posicionar, como por exemplo o mercado de carbono, e que teríamos que tomar cuidado com as falsas soluções”.

Respostas dos membros da mesa:

Aldrin, do INSA, diz que a pesquisa continua e que eles levaram três anos para a construção da proposta. Concorda com a questão do participante e afirma que o termo resiliência em grande parte é um conceito cooptado, e que no caso deles trabalham com o conceito de "convivência com o semiárido".

O Prof. Sicard, afirma que “para nós, toda a propriedade privada na América Latina é ilegal, pois há muitos questionamentos jurídicos colocando em cheque o Tratado de Tordesilhas. O acordo de paz com as FARC, que estabelece a perspectiva de destinação de 3 milhões de hectares a Reforma Agrária em 10 anos, não terá condições de promover uma verdadeira reforma agrária, mas sim uma estratégia de desenvolvimento rural integrada à indústria, como as próprias FARC já vem afirmando”.

Eric comenta sobre a questão da resiliência. Diz que, em uma reunião, uma representante de uma importante agência de cooperação foi questionada pelos agricultores porque ela não propunha projetos de ampliação da resiliência para as grandes empresas bananeiras multinacionais que atuam na América Central? “Ou seja, para os grandes capitalistas oferecem capital e para os pobres oferecem resiliência despolitizada” destaca. Ainda comenta que o capitalismo está lutando com todas as suas forças para sobreviver nas condições insustentáveis que criou: “A privatização das sementes e a privatização do carbono são falsas soluções para manter vivo este sistema que está acabando com a civilização”.

Por fim, a Prof. Clara Nicholls, afirma que é necessário deixar claro quais são as raízes e as causas por traz das mudanças do clima e que a resiliência tem relação com aspectos sociais, econômicos, culturais e políticos e não apenas técnicos. Defende que os agricultores devem fazer suas opções por trilhar, caminhos que sejam reformistas, de transição ou transformadores.

E assim desfaz a mesa agradecendo aos participantes e aos palestrantes.

 

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT89 – Avanços e limites da institucionalização na Agroecologia

Avances y límites de la institucionalización en la Agroecología

Dia 14 | 14h00 – 18h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Eric Holt-Gimenez (Food First-USA); Manuel González de Molina (Universidad Pablo de Olavide – Espanha); Cláudia Schmitt (ABA); Coordenador: Paulo Petersen (ABA)

Relato:

Relato elaborado por Marcos Lima e Luisa Correa


O objetivo da atividade foi refletir sobre os desafios, avanços e limites da institucionalização da Agroeocologia de forma a captar e analisar o que Paulo Petersen (ABA), coordenador da mesa, chamou de ciclo de institucionalização: um processo de coprodução das políticas públicas que envolve o Estado, a academia/pesquisa e a sociedade civil. A mesa, portanto, visou um debate não exatamente sobre os instrumentos de políticas, mas sim uma reflexão em torno da interação entre a esfera da prática da Agroecologia, o Estado e a ciência/academia. A atividade abarcou a exposição de cada um dos palestrantes e a interação com o público em formato de perguntas.

Eric Holt-Gimenez é integrante do centro de investigação Food First, que compõe o que Instituto de Políticas Públicas para Alimentação e Desenvolvimento, cujo objetivo é gerar informações e análises acerca de políticas públicas. Ele iniciou sua fala questionando para quem se constrói as políticas de Agroecologia e chamou atenção para o fato da Agroecologia não ser apenas um método, mas uma forma social. Frisou, ainda, que as políticas públicas delineiam questões de poder e que a esfera pública envolve diferentes decisões advindas de diferentes grupos, redes, sindicatos, camponeses, etc.

No atual contexto, Holt-Gimenez diz que há um avanço da governança do regime neoliberal corporativo que estrutura o sistema alimentar, o que implica no aprofundamento da dependência do Sul global em um cenário de complexificação das cadeias alimentares comparativamente aos regimes alimentares anteriores (Colonial e Imperial). Agora, há uma tendência de retirada constante do Estado da vida pública, de privatização das empresas estatais e da intensificação da sobreposição da ideologia de mercado em relação à ideologia social paralelamente a menor governança do Estado, destaca.

Isto posto, a questão central colocada por Holt-Gimenez, e considerada por ele o problema mais difícil no momento, foi como avançar com políticas públicas se há diminuição da esfera pública e um contexto de reacionarismo? Com quem vai se dialogar e fazer demandas se não o Estado? Se antes os partidos e instâncias/organizações populares demandavam políticas do Estado, hoje se torna cada vez mais difícil essa dinâmica devido à redução do espaço público onde se podem colocar as demandas da sociedade, constata.

Assim, Holt-Gimenez afirmou que é fundamental, nesse momento, defender a esfera pública, desde o Estado à própria sociedade, inclusive mediante ações autônomas como, por exemplo, criação de mercados autônomos e solidários. Eric frisou a relevância desse tipo de articulação e afirmou que “a Soberania Alimentar e a Agroeocologia são duas bandeiras importantíssimas” frente o atual contexto político, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, seu país de origem, onde considera que tenha ocorrido o avanço de uma construção de caráter fascista nos espaços públicos.

Já Cláudia Schmitt (CPDA/UFRRJ), embasou sua fala em experiências de pesquisa e na perspectiva da Ecologia Política em torno da transição para a sustentabilidade. Pontuou que a discussão da questão ambiental hoje generaliza em dois pontos centrais: de um lado, para as mudanças climáticas e para questões relacionadas ao uso do solo como grandes problemas globais e, de outro, para um conjunto de soluções e novas tecnologias projetadas e criadas por um grupo de cientistas.

“Nessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que deve haver uma adaptação às mudanças climáticas, em especial da agricultura, colocando a própria mudança climática como elemento externo e a-histórico. Trata-se, portanto, de uma visão gerencialista da transição para uma sociedade sustentável, onde se deve traçar um conjunto de ações, políticas e tecnologias que possibilitem a condições de sustentabilidade. Contudo, essa visão não engloba questões fundamentais como os processos de colonização, as distintas naturezas e culturas em questão, os modos de vida, as assimetrias entre Norte e Sul global, dentre outros elementos. Assim, a tecnologia é colocada como elemento suficiente e central de solução dos problemas ambientais.

Dentro desse contexto, a Ecologia Política contribui trazendo um olhar para as relações de poder e chama a atenção para os diversos modos de vida e para a construção de outro tipo de problematização. Dessa forma a Agroeocologia se torna um elo fundamental como contraponto ao discurso que a coloca com insuficiente ou ineficiente frente às necessidades futuras de oferta de alimentos. Essa mesma visão, que diminui a Agroecologia, coloca como central a capacidade de oferta em detrimento de um olhar voltado para o funcionamento do sistema como um todo e para as contradições do sistema agroalimentar”, afirma Cláudia.

Isto posto, Schmitt enfatizou a importância de se situar a Agroecologia como uma perspectiva que disputa a possibilidade de pensar a transição do sistema agroalimentar dentro de um conjunto maior de abordagens que apresenta diversas nuances. Esse conjunto englobaria, dentre outras concepções:

- intensificação sustentável da agricultura;

- agricultura climaticamente inteligente;

- intensificação ecológica da agricultura;

- agroecologia.

Nesse contexto macro, as contradições em torno da institucionalização da Agroecologia se tornam bastante relevantes. Um exemplo dado por Schmitt foi o Cadastro Ambiental Rural, um instrumento relacionado à institucionalização da Agroecologia que contraditoriamente serve como instrumento de grilagem e apropriação de terras no Brasil, acredita.

Schmitt também afirmou que a Agroecologia atua em vários campos/espaços onde sua institucionalização se dá, como a política pública, os modos de vida, os movimentos sociais, a pesquisa/campo do conhecimento, dentre outros: “Esses vários campos interagem e se conflitam: um exemplo é a criação de políticas públicas voltadas a nicho de mercados e que estão embasadas no campo do conhecimento. Assim, os movimentos sociais se chocam com a institucionalização da Agroecologia, por exemplo, nesse caso, devido à criação de regras e normas, significados, valores, definição de atores, atribuição de identidades, parâmetros de aferição e uma série de outros elementos”.

Schmitt frisou, ainda, a queda de recursos disponibilizados tanto para a Agricultura Familiar como para a Agroecologia no atual cenário (como PAA, ATER, reconhecimento e indenização de territórios quilombolas, etc).

Nessa perspectiva Schmitt afirmou que é importante um olhar para as dinâmicas de institucionalização desde a perspectiva dos territórios e da história das redes de Agroecologia nos territórios, a exemplo da rede Zona da Mata (MG). A palestrante fez um apanhado histórico e panorâmico da criação de articulações e arranjos feita pela rede desde a década de 1970/1980, pontuando que o tecido de arranjos foi se tornando cada vez mais complexo e que é importante compreender isso no atual cenário, chamando atenção para o fato de que a desconstrução de políticas não significa necessariamente a desestruturação da Agroecologia.

“Como refletir sobre a Agroecologia, portanto, em um contexto que envolve, de forma geral, dois grandes movimentos: a disputa de narrativas e a abordagem institucional que estreita mercados, cria certificações e exclui agricultores mediante regras e normas do modelo dominante e, ainda, um forte movimento de desinstitucionalização”. Schmitt finalizou sua fala dizendo que o caminho é uma leitura crítica e uma visão estratégica sobre os processos de institucionalização e sobre a violência e perda de direito aliadas a uma dinâmica de articulações dentro da Agroecologia em defesa dos bens comuns e das lutas emancipatórias.

O palestrante Manuel González de Molina, vinculado ao Laboratório de História dos Agroecossistemas da Universidade Pablo de Olavide, começa sua palestra destacando que o regime alimentar industrial se encontra numa situação de colapso devido aos impactos sobre os recursos naturais. Essa situação foi constatada por diversos organismos internacionais, afirma. Para Molina é consenso que este modelo não pode se manter no médio e longo prazo. A partir dessa constatação, questiona: Se existe essa necessidade de mudar, por que isso não acontece?

Molina aponta a existência de vários fatores que criam obstáculos à mudança. Dentre eles, destaca: a) Marco institucional desfavorável ; b) A ação dos lobbies e oligopólios (Bayer, Monsanto, Dupont, Syngenta e BASF); c) As limitações das alternativas agroecológicas. Sobre esse último obstáculo o palestrante ressaltou alguns aspectos como a fragmentação (múltiplas pequenas experiências de produção e consumo), os custos comparativos mais altos, a ausência de estruturas de distribuição e as estruturas de distribuição que existem são hostis a esse tipo de produção/produtores. Além disso, o consumo de produtos orgânicos ainda é reduzido e apresenta grandes dificuldades para generalizar os preços, constata. Contudo, o elemento central dentre esses obstáculos é o Marco Institucional, ressalta.

O Marco Institucional foi definido, segundo Molina, como um conjunto de regras e normas que regula as relações. É quem estabelece a regra do jogo e o seu funcionamento. Essas regras podem ser escritas ou não. Contudo elas regem as relações sociais. No caso da agricultura, orienta a produção, o intercâmbio, a distribuição, o consumo de produtos agrícolas, dentre outros aspectos. O palestrante também ressaltou que esse Marco também condiciona a alocação de bens e serviços por meio de uma hegemonia. Nesse sentido, Molina chamou atenção para três aspectos: a) A autoregulamentação do mercado (relação de poder); b) Linguagem de valorização monetária que não considera as externalidades da produção; e c) Função baseada na concorrência e não na cooperação (raiz do lucro).

Molina explica que “o Estado detém o monopólio de regular dessa atividade porque tem a competência de fazer essas regras e normas. Assim, a produção agroecológica sofre obstruções devido ao conjunto de regras estabelecidas no âmbito do Estado. Isto pode ser involuntário e envolve toda a propriedade devido as normas que determinam a forma, o modo de produzir e a comercializar. Essas normas operam e pressionam a dependência do mercado. Além disso, abrange todos os processos de produção, distribuição e consumo. Assim, o Marco Institucional cumpre duas tarefas. Ele tanto estabelece as regras do jogo da dieta dominante como facilita sua operação. Com isto, ocorre o bloqueio que impede ou dificulta que os regimes alternativos ganhem escala”.

Molina destacou o processo de “convencionalização”. Segundo o palestrante, este é definido como o processo pelo qual a produção não comercial (de camponeses, produção familiar ou produção orgânica não comercial, etc.) acaba subordinada e dependendo do mercado para a sua reprodução. Nesse sentido, o caso da produção orgânica (certificada ou não, dos agricultores familiares ou não) foi utilizado como exemplo. Para Molina o fenômeno refere-se à proliferação de um modelo de produção que reitera as características da agricultura e dos alimentos convencionais.

O palestrante frisou que a prática agroecológica é única alternativa sustentável à crise. Ele destacou que é necessário construir um sistema agroalimentar que possibilite a produção, distribuição e consumo com critérios agroecológicos. “Contudo, isto requer a generalização ou massificação da Agroecologia, mas como alcançar? ” Para Molina é necessário politizar o consumo. Além de estabelecer alianças dentro do movimento agroecológico. Outro aspecto relevante destacado é o desenvolvimento de experiências de inovação social. Ele compreende que sem movimentos sociais agroecológicos que inovem, não há progresso na transição agroecológica. Em seu lugar avançará a convencionalização.

Também ressaltou a importância de elaboração e avaliação de políticas públicas agroecológicas: “Estas tratarão do ganho de escala e da proteção de experiências criando e impondo uma nova institucionalidade. Para isso é preciso combinar políticas públicas e experiências locais”. Nesse sentido, Molina apontou algumas tarefas para a agroecologia. Dentre elas, destacam-se: a)Trabalhar no design institucional mais apropriado para esta nova institucionalidade, protegendo o regime de alimentos agroecológicos da convencionalização; b) Trabalhar no projeto de políticas públicas que possibilitem e consolidem essa fase; e c) Uma nova política de alianças: politização do consumo para produzir maiorias sociais de mudança (contra alimentos orgânicos para os ricos).

Para Molina é necessário que desenvolva cientificamente a Agroecologia Política como um campo de estudo: “ela deve ser desenvolvida em duas direções: a) como campo disciplinar que trata do projeto e produção de ações, instituições e normas voltadas para a conquista da sustentabilidade agrícola; e b) Como uma ideologia que, em concorrência com os outros, se dedica a espalhar e tornar-se hegemônica uma nova maneira de organizar agroecossistemas com base no paradigma ecológico e na sustentabilidade”.

Sobre as Políticas Públicas, Molina ressaltou que o quadro institucional atual regula os mercados agroalimentares em favor da produção convencional, dos interesses da indústria de insumos, das empresas agroindustriais e da grande distribuição em detrimento dos consumidores, dos agricultores e do meio ambiente e saúde. Para o palestrante isto pode ser revertido com a proposição de planos ou medidas para mudar o sistema de incentivos monetários e fiscais que a produção e o consumo convencionais agora usufruem. Também sinalizou que na avaliação das políticas públicas é importante a utilização de critérios agroecológicos/ambientais:  “Estes critérios compreendem -  a) o encerramento de ciclos de nutrientes em nível local, autonomia máxima; b) uso de energias renováveis; c) resgate e reutilização de material genético; e d) inovação tecnológica (tecnologias apropriadas + pesquisa). Eles possuem objetivos e econômicos e sociais. Dentre os objetivos econômicos encontram-se a avaliação econômica de serviços ambientais; a eliminação de intermediários (canais curtos ou híbridos) e a desmercantilização ou desengate do mercado (insumos). Já os objetivos sociais, destacam-se a igual distribuição de renda agrícola, comida saudável para todos, acesso à terra e a outros recursos naturais”.

Um panorama do debate

Algumas das ideias trazidas pelo público se debruçaram na inserção da agroecologia no interior dos movimentos sociais e demais lutas emancipatórias da classe trabalhadora, incluindo processos maiores contra-hegemônicos.

Outra questão trazida pelo público se voltou para uma reflexão em torno da amplitude de ação e de criação de diálogo e interação da agroecologia com as sociedades urbanas e rurais.  “A abertura de cursos de agroecologia seria uma forma de institucionalização da agroecologia? A PLANAPO foi de fato uma construção que abarcou a população rural e os movimentos? ” Outra questão foi se a Agroecologia dá conta de geração de renda a nível local ou no município em um país assentado na produção de commodities, o que evidencia que a institucionalização da agroecologia se distancia de um real e concreto projeto de desenvolvimento rural/agrário.

Schmitt, em uma de suas respostas, afirmou que o atual processo é denso e que é preocupante desconsiderar sua magnitude, muito maior do que algo momentâneo. Afirmou, ainda, que é importante olhar para além das políticas e ver como os diversos atores se organizam para buscar e demandar essas políticas de forma a ter uma escuta mais ampla e fazer uma avaliação mais justa do que se foi construído ao longo dos últimos governos, muito embora não tenha sido elaborada uma estratégia articulada entre a construção de um sistema agroalimentar alternativo e o desenvolvimento agrário. Claudia pontuou, ainda, que o PLANAPO envolveu, de fato, uma construção ampla e com participação de múltiplos atores, dando como exemplo o movimento de mulheres e movimentos sociais que chamaram para si a construção da agroecologia, destacando a multiplicidade de construção da agroecologia no interior dos movimentos. Assim, a desinstitucionalização da agroecologia envolve mais do que a diminuição de recursos e programas, mas gera impactos diversos sobre os arranjos construídos até aqui pelos diversos atores que compõem o campo da Agroecologia, afirma.

Molina, respondendo a uma das perguntas acerca do porquê de se utilizar o termo “Agroecologia Política”, já que a agroecologia em si já é política, afirmou que a importância do conceito consiste no fato de Agroecologia ser uma teoria da prática e que envolve o campo ideológico, o que é especialmente importante dentro do contexto acadêmico e de pesquisa. 


AT89
AT89

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT73 – A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica no Brasil

La Política Nacional de Agroecología y Producción Orgánica en Brasil

Dia 14 | 10h00 – 12h00 | LOBO GUARÁ | #Agroecologia2017

Responsável(is): Iracema Moura (Ministério da Saúde); Denis Monteiro (ANA); Mário Ávila (UnB); Regina Sambuichi (IPEA); Emma Siliprandi (GT Mujeres, Agroecologia y Economia Solidária de CLACSO – Espanha); Paulo Petersen (ABA); Coordenador: Rogério Neuwald (Secretaria Executiva da CNAPO)

Arquivo:

Apresentacao_Avaliacao Planaplo

Livro A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica no Brasil

Relato:

O coordenador da atividade, Rogério Neuwald, abriu a roda de dialogo dando boas-vindas aos participantes. A atividade foi organizada da seguinte forma, cada palestrante faz uma apresentação de 10 minutos, para posteriormente abrir para manifestações e perguntas.

A atividade consistiu na avaliação da Política e do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, instituídas pelo Estado brasileiro, seus antecedentes e principais resultados gerados. Foram apresentados os dados do estudo conduzido pelo IPEA, publicados no livro "A Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica no Brasil: uma trajetória de luta pelo desenvolvimento rural sustentável".

 Denis Monteiro (ANA)

Começou sua fala ressaltando que o objetivo dessa roda de diálogo é avaliar o presente, pensar o futuro e analisar os desafios que teremos pela frente. A instituição da PNAPO, em agosto de 2012, é um ato histórico importante para o movimento agroecológico brasileiro, fruto de uma ação coletiva. Construir a PNAPO e o PLANAPO foi um desafio, já que o ambiente político brasileiro sempre foi difícil, dada a hegemonia do agronegócio nos territórios.

Ao olhar  trajetória do movimento agroecológico, é possível identificar várias pequenas vitórias, alcançadas mesmo com poucos recursos. Um exemplo disso são os núcleos de agroecologia, criados em diversas universidades brasileiras e o resultado disso está aqui no congresso, com a presença massiva dos estudantes.

Fazendo um resgate histórico, a trajetória do movimento agroecológico  no Brasil, a partir de meados da década de 80, ganha expressão com a redemocratização do país. Nesse momento as iniciativas agroecológicas e de desenvolvimento rural se ampliam, tendo como inspiração as metodologias participativas e de desenvolvimento rural abordadas no Projeto Tecnologias Alternativas - PTA da FASE. É nesse momento que o conceito da agroecologia ganha força.

A década de 90 foi marcada pela forte mobilização camponesa de luta pela terra. Além disso, no semiárido acontece uma grande mobilização em torno do conceito da convivência com o semiárido, o que culmina com a criação da Articulação do Semiárido -ASA.

No final dos anos 90 e início dos anos 2000, acontecem os primeiros Encontros Nacionais de Agroecologia – ENAs, que culmina com a constituição da Articulação Nacional de Agroecologia, em 2002. A necessidade de avaliação crítica do papel das mulheres na agroecologia emergiu no primeiro ENA.

No período que se segue, de 2003 à 2012, nos governos do Partido dos Trabalhadores, permanece a crítica aos impactos do agronegócio nos territórios, a luta pela reforma agrária e contra os agrotóxicos e transgênicos. No período, há também uma forte ascensão do debate da agroecologia nos movimentos sociais do campo, águas e florestas, como a CONTAG, Via Campesina, CNS. É um período de maior identificação dos movimentos de povos indígenas e povos e comunidades tradicionais ao movimento agroecológico. Foi uma fase também marcada pela participação intensa da sociedade na construção de políticas públicas dentro do CONSEA, CONDRAF e CNAPO. As redes agroecológicas existentes nos estados e territórios se fortalece e incorpora novos atores. Há um crescimento expressivo e reconhecido da agroecologia, uma explosão das feiras agroecológicas em diversos municípios.

Em 2011 acontece a Marcha das Margaridas, um marco no movimento sindical, quando as mulheres firmam seu compromisso com a agroecologia enquanto estratégia de desenvolvimento rural. O movimento agroecológico começa a dialogar com outros movimentos sociais, promovendo diálogos de convergência com o movimento da saúde coletiva e outros movimentos urbanos.

Iracema Moura (Ministério da Saúde)

Começou sua apresentação relatando o processo de organização do livro “Avaliação do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica”. Para a elaboração do texto sobre os antecedentes e aspectos fundantes da agroecologia no Brasil, foi elaborado o seguinte questionamento: como um tema como a agroecologia entra para a agenda de governo e vira política pública? Para responder a essa questão foi feito um levantamento dos diversos programas, projetos e ações que foram desenvolvidos pelo governo brasileiro ao longo dos anos e que foram precursores disso.

Nesse contexto, ela ressalta os programas que foram fundamentais para o acúmulo de experiências e o desenho de políticas públicas: O Sub-Programa Projetos Demonstrativos – PDA, executado pelo Ministério do Meio Ambiente – MMA e o projeto Lumiar, do INCRA, criado em 1997 e que tinha a agroecologia como enfoque. Essas experiências foram embriões de políticas públicas, ainda desarticuladas.

A partir de 2003, com a criação do Programa Fome Zero e a centralidade da temática da Segurança Alimentar e Nutricional – SAN na política de governo, o CONSEA é reconstituído e reestruturado para permitir assim a ampla participação social na construção e acompanhamento de políticas públicas. São estruturados diversos programas, como o PAA, o PNAE e a PGPM-Bio, assim como a ATER, o crédito e o seguro safra são fortalecidos.

Em 2006, o termo agroecologia aparece expressamente na Lei Orgânica de Segurança Alimentar – LOSAN. Em 2010, o Direito Humano à alimentação adequada e saudável é inserido na constituição por meio de emenda.

Com a agroecologia entrando na pauta de agendas estruturantes, se questionaram sobre a necessidade de integrar essas iniciativas por meio da elaboração de um plano. Em 2012, todos esses programas e ações que vinham sendo desenvolvidas foram agregados à Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

Mário Ávila (UnB)

Para começar a apresentar os resultados da avaliação do PLANAPO, Mario Ávila contextualizou como foi feito o estudo, considerando o diferencial dessa política, que previa integrar diversas políticas, planos e ações de diferentes Ministérios.

Os objetivos da pesquisa, que originou o livro, eram analisar a fase de construção da política, por meio de análise de textos e entrevistas qualitativas, e também de avaliar o processo de execução da primeira edição do PLANAPO, com uma análise qualitativa e quantitativa de sua implementação.

Sobre a análise do primeiro PLANAPO (2013-2015), identificaram que foi investido R$1,8 bilhão, distribuídos em seus 6 grandes objetivos, 14 metas e 125 iniciativas. Nesse cenário é importante compreender qual foi a eficiência e a capacidade do Estado em implementar essas ações e dar sinergia aos diversos ministérios e órgãos públicos envolvidos.

Regina Sambuichi (IPEA)

Regina Sanbuichi apresentou brevemente os resultados do estudo, dada a limitação de tempo. Foram feitos alguns destaques, listados a seguir.

1 - Sobre a análise da concepção da política, a metodologia utilizada foi a realização de entrevistas semi-estruturadas com os atores chave, no caso os participantes da CNAPO e CIAPO. Foi identificado o seguinte:

- aspectos positivos: a existência da política, a construção participativa e o desenho de gestão do plano;

- aspectos negativos: baixa prioridade da agroecologia no governo (grandes investimentos ao agronegócio)

2- Sobre a análise da concepção do plano:

- aspectos positivos - articulação de iniciativas dispersas, inserção de temas importantes, fomentou a articulação dos movimentos sociais;

- aspectos negativos: apanhado de políticas existentes, com pouca inovação, falta de integração entre as iniciativas, limitação de recursos, falta de inovação dos instrumentos de implementação

Sobre a execução do PLANAPO, ao analisar cada meta colocada no plano, é possível identificar muitas iniciativas que foram bem realizadas e outras que tiveram dificuldades de execução. Destacou que a meta 1, que teve a maior parte das iniciativas executadas, não atingiu seu objetivo final, pois o recurso destinado ao crédito não foi aplicado. Além disso, cabe ressaltar que os objetivos não foram dimensionados para o período do plano (2013-2015), mas visando uma estratégia de ação a longo prazo.

Em relação ao objetivo 2 – fortalecimento das mulheres rurais, a maior parte das ações planejadas foi executada, com destaque para a diretoria de mulheres do MDA, que foi a grande responsável pela boa execução da meta.


 Emma Siliprandi (GT Mujeres, Agroecologia y Economia Solidária de CLACSO – Espanha)

Para Emma, um dos principais resultados desse processo de concepção e execução PLANAPO é o reconhecimento e o protagonismo das mulheres em todas as etapas de sua construção.

Em seu artigo sobre mulheres do livro (capítulo 9), ela destaca as dificuldades que as mulheres encontram de passar de uma reivindicação, para depois partir para a construção e o acompanhamento de políticas públicas. A participação das mulheres na discussão de políticas públicas agroecológicas é bastante antiga e não começa com a PLANAPO. A participação começou na década de 80, quando as mulheres começaram a se organizar nos sindicatos, até culminar com a Marcha das Margaridas

A PLANAPO tem uma marca forte de ser uma resposta aos movimentos de mulheres. É a política que mais atendeu as mulheres rurais, de forma transversal. Isso aconteceu, pois sociologicamente houve uma janela de oportunidades. Havia sensibilidade pelo tema, grande organização dos movimentos de mulheres articulados (rurais e urbanos),  havia uma estrutura no governo e um diálogo com o governo.

Destacou o acordo feito entre os movimentos de mulheres e a CNAPO para que, um dia antes de todas as reuniões das comissões nacionais, houvesse uma reunião de mulheres. Isso implica em recursos e o governo conseguiu garantir isso. Conseguiram também que as suplentes viessem para as reuniões, já que em muitos movimentos as mulheres ainda estavam na suplência, e o governo viabilizou isto também.

Por fim, ressaltou que tudo o que foi alcançado foi fruto da luta das mulheres que estavam no governo e das mulheres de movimentos sociais.

Paulo Peterson

Para fechar a análise, Paulo Peterson fez uma análise política da PNAPO. Para isso, utilizou algumas palavras chaves para reflexão, como nichos, resistência, heterogeneidade.

A primeira delas é “nichos de inovação” ou “trincheiras”. Fez um resgate que no período da ditadura militar, período mais feroz da relação da sociedade com o Estado, as Comunidades Eclesiais de Base, que são as raízes profundas da agroecologia, funcionaram como esses nichos. No período da modernização agrícola, as pessoas do campo estavam resistindo, de diferentes formas (heterogeneidade).

Se o Brasil cumprisse sua constituição, o mundo rural seria outro. Qual deveria ser o objetivo de uma política de agroecologia? Deveria ser a função social da terra, a reforma agrária.

Quando a agricultura familiar é reconhecida, e isso é institucionalizado em lei, se abre uma oportunidade política. A categoria é então reconhecida, mesmo com as suas limitações iniciais de integrar povos indígenas e povos e comunidades tradicionais. A partir daí, são criadas políticas para a Agricultura familiar.

As conquistas dos atores sociais que foram envolvidos no processo precisa se fazer visível. Ao falar de nichos, nesse contexto político atual, significa reconhecer o papel de pessoas que estão dentro da estrutura de Estado e que são aliadas. Por exemplo, o MAPA já estava com um programa nacional da produção orgânica elaborado e suspenderam isso, para então construir junto com os demais atores a PNAPO

Onde estão os focos de resistência? Na sociedade e no estado? É necessário articular os nichos.

Outro conceito chave é o de território. Essa é uma grande fragilidade da PNAPO, pois não há política no geral, é necessário fazer a interface com os atores do território. Precisa de atores que conheçam e manejam o território. Os Núcleos de Agroecologia, estão fazendo isso no território, e contribuindo para esse diálogo entre as universidades e os agricultores e agricultoras familiares do território.

No momento político atual a janela fechou e é necessário forçar para manter essa janela aberta. Os nichos continuam, é preciso saber reconhecê-los.

Vamos seguir existindo como nicho. Precisamos manter nossa articulação.


 DEBATE E MANIFESTAÇÕES DA PLENÁRIA

1 – Rodrigo, INCRA, veio trazer um pouco da angústia de seu trabalho de campo  e sobre o alcance das políticas públicas, pois a política não chega a ponta.

2 - Lucimar - Embrapa Meio Ambiente - Chamou atenção a dificuldade dos agricultores em acessar recursos financeiros concretos para alavancar a produção. Quais são os problemas identificados no acesso ao Pronaf?

Regina -. Já tinham um diagnóstico dos problemas antes do plano e o crédito sempre foi difícil. É preciso repensar o financiamento da transição agroecológica, para buscar alternativas.

3 - Sebastião – citou que vê um conflito entre duas narrativas. No Norte de MG, onde atua,

os produtores lamentam a perda do poder de mobilização social nos governos PT. Aqui se falou o contrário, de fortalecimento da mobilização social. Gostaria de ouvir a opinião dos palestrantes.

Denis – a questão é importante nesse momento político. Na década de 80 as lideranças foram se afastando das bases, para poderem atuar e influenciar esferas políticas maiores. Os ciclos vão acontecendo. Nos anos 2000 muita energia foi colocada na construção de políticas públicas. Isso se deu em sinergia com a organização social de base ou em detrimento disso? Como atualizamos o contexto?

4 - Mariana – gostaria de esclarecer qual o conceito de território, enquanto categoria de análise. Como é trabalhado esse conceito na política de agroecológica? Nos estados, as comissões de produção orgânica estão acontecendo?

Paulo Peterson - A questão é boa, pois é recorrente. De fato, durante um período o governo trabalhou com essa abordagem territorial. A ideia não foi comprada pelos ministérios. Território é uma construção social, assim como a agroecologia. Agroecologia é específica, diferente do agronegócio. No território é que se constrói poder.

5 - Patrícia – para dialogar com a fala da Emma, relatou que ela também fez uma análise do material. Identificou que na segunda versão do plano as mulheres não estão em tantos espaços. O processo de construção do plano tem o protagonismo das organizações feministas. Houve um grande empenho da diretoria de mulheres rurais do MDA. Pergunta: a Emma teve a oportunidade de conversar com alguém da diretoria do MDA para contribuir com a narrativa?

Emma - a diretoria é apontada por todos como protagonista. Nas entrevistas abarcou as pessoas que estavam no governo na época do estudo e alguns que já haviam saído.  O segundo Planapo foi um momento de resistência, de manter as conquistas, mas com dificuldade de ampliar.

6 - Como fazer a política acontecer na base? Tem alguém acompanhando a criação de políticas estaduais e ou municipais?

Rogerio -Florianópolis, que está avançando na lei municipal de agroecologia.

8 - Flavio, Casa Civil-BA – Em sua experiência profissional identifica que existe uma dificuldade de integrar políticas no estado. Sabendo que o PLANAPO previa tanta integração, como eles lidaram com isso? O que foi executado e que contribuiu para gerar construção social nos territórios? O que isso contribuiu efetivamente na mudança da realidade? As políticas passam, mas o que fica dinamizado no território?

Miguel - é um desafio pensar em fazer políticas diferentes.

9 - Eduardo  - estudante de geografia - Sobre o acesso ao crédito. Para ter acesso ao crédito, é preciso alienar a terra e comprar o pacote do agronegócio. Nesse sentido, como está a alienação da terra para o Pronaf agroecologia, alienam a terra?

Iracema – Isto toca uma questão de fundo, que não conseguimos responder aqui. O crédito precisa de profundas alterações.

7 - Flávia - UFRS – sobre a questão dos nichos e espaços protegidos - temos que voltar para as bases. Como falado pelo Paulo, um instrumento de fortalecimento desses espaços está nos mercados, nas feiras. Mas falar da resistência (mercado crescente, consciência do consumidor), pode começar a deixar o movimento preso a uma discussão meramente mercantil. Temos que pensar em espaços de existência e não de resistência.

10 – Kátia - pesquisadora Embrapa – fez uma manifestação sobre os nichos de resistência. Precisamos ter clareza das reais ameaças e do potencial de nos tirarem conquistas. Algumas instituições públicas estão passando por um processo silencioso de privatização, passando antes por restrições de recursos. Precisamos ter clareza disso que está acontecendo.


Paulo - Esse tipo de reflexão é essencial. Não podemos ficar presos ao debate instrumental das políticas, mas precisamos usar isso para mudar o fluxo de poder. A Contag apresenta todo ano uma pauta de mais crédito, mas para cobrir as dívidas do crédito anterior. Estão presos no sistema financeiro. Como saímos disso?A agroecologia responde um pouco a questão, já que busca desmercantilizar a agricultura, com redução na compra de sementes e fertilizantes. Estamos num ambiente de cooptação. Não podemos perder a origem dessa discussão, por isso a importância da memória.

 

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT72 – Metodologias para análise econômica na Agroecologia

Metodologías para el análisis económico en la Agroecología

Dia 14 | 10h00 – 12h00 | SERIEMA | #Agroecologia2017

Responsável(is): Luciano Silveira (ASPTA); Elisabeth Cardoso (CTA-ZM e GT de Mulheres da ANA); Luiz Octavio Ramos Filho (Embrapa Meio Ambiente); Coordenadora: Cinara Sanches (SASOP)

Notícia: https://www.facebook.com/agroecologiadf/posts/853155264850189

 Responsáveis pela atividade: estamos ansiosos para publicar seus materiais aqui, mas precisamos de sua permissão. Basta enviar para o endereço eletrônico  relatosagroecologia2017@itbio3.org a mensagem:

Concordo com a disponibilização do(s) material(is) apresentado(s) por mim na atividade #AT72 – Metodologias para análise econômica na agroecologia no blog https://relatosagroecologia2017.itbio3.org/atividades/   e concordo  com o termo de uso do blog relatosagroecologia2017.itbio3.org/atividades/termo-de-uso/”.

 Materiais adicionais (fotos, relatos vídeos etc.) são muito bem-vindos na mensagem.

 

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT65 – Painel IV – Campesinato e Soberania Alimentar na América Latina

Panel IV – Campesinato y Soberanía Alimentaria en América Latina

Dia 14 | 8h00 – 10h00 | AUDITÓRIO BABAÇU | #Agroecologia2017

Responsável(is): Peter Rosset (ECOSUR – México); Frei Sérgio Görgen (MPA); Iridiani Seibert do Movimento do Mulheres Camponesas (MMC); Glaicon José Sell (agricultor). Coordenadora: Islândia Bezerra (ABA)

Relato:

Atividade de diálogo sobre Campesinato e Soberania Alimentar na América Latina. Composição da mesa: Peter Rosset da Via Campesina Internacional, Frei Sérgio Sérgio Görgen, do Movimento dos Pequenos agricultores,  Iridiani Seibert do Movimento do Mulheres Camponesas (MMC),Glaicon José Sell (agricultor litoral catarinense). Metodologia do debate: exposição de ideias dos palestrantes e abertura ao público para contribuições por escritos ou com microfone.

O diálogo trouxe contribuições importantes para o contexto histórico e político que o Brasil vive, evidenciando o papel transformador da juventude e mulheres na luta da classe do campesinato pela soberania nos territórios. Traz também a reflexão sobre o fortalecimento das relações entre o campo e a cidade para o enfrentamento das alianças do agronegócio com as forças políticas e internacionais que mudaram o contexto dos latifúndios.  Debateram também sobre as estratégias que são fundamentais para a massificação da agroecologia.

 Contribuição de Peter Rosset:

Peter, representante da Ecosur no México, apresentou de forma sistematizada sete teses para agroecologia e soberania alimentar, descritas abaixo:
1. Avanço do capitalismo e dos regimes de direita:  A nova conjuntura política enfrenta uma guerra pela terra, ampliando as alianças com a mineração, a construção e as grandes empresas que investem e buscam minimizar a força da agroecologia. O agronegócio, possui seus aliados dentro dos partidos políticos e são alinhados com o capital internacional, tais como os EUA, China e Canadá. Desta forma, controlam a mineração com forças repressivas e difícil enfrentamento. Autonomia e massificação da agroecologia é um elemento chave, pois ajuda a construir a conjuntura que enfrentamos. O crescimento da participação e do papel dos jovens e das mulheres é muito forte e fundamental.
2. Implicações para reforma agrária e para aliança campo-cidade: Uma chamada por uma nova reforma agrária popular, baseada em uma política de conciliação é necessária, pois o latifúndio atrapalha a aliança entre a classe camponesa do campo e a burguesia da cidade. A mineração e o agronegócio que destroem o meio ambiente são sistemas produtivos. O argumento de dizer que os latifúndios não produzem foi derrubado. Apelar por uma reforma de conciliação de classes é uma estratégia fraca por causa do novo poder do capital. 
3. Luta pela terra e pelo território: O capital passa por todas as terras: indígenas, de pequenos povos, pescadores e ribeirinhos. Precisamos ter uma visão territorialista para defender os territórios.
4. Hora de massificar a agroecologia: Do discurso para a prática. É necessário construir uma agroecologia mais intensificada e levá-la para uma larga escala.
5.Nova agroecologia de disputa: Qual agroecologia vamos massificar? Disputa real com o agronegócio, pois acabam com o solo, contribuem para as mudanças climáticas e realizam campanha de um agronegócio verde. 
6.Autonomia para as famílias campesinas: É o elemento chave. Permite melhorar a gestão e a produção com recursos agroecológicos.   
7. Forças às diversidades – Mulheres, Juventudes: Fenômeno muito forte está sendo o movimento das juventudes e o movimento feminista das camponesas populares. Estão lutando pelo fim de qualquer tipo de violência contra as mulheres, por reconhecimento e por autonomia nos espaços.

 Frei Sérgio Görgen (MPA)

Frei Sergio possui visão religiosa cristã, ex-deputado, agricultor e integrante do Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA. Afirmou, em sua exposição, que o agronegócio não é somente uma nova tecnologia de produção. O agronegócio vai além disso. É um novo pacto de poder e controle do capital pelo governo internacional e pelas empresas multinacionais

Por isso, traz um desafio novo para o campesinato: a luta pelo território. Este não enfrenta o latifúndio somente regional e sim uma dimensão internacional. Por isso, é necessário criarmos uma nova visão de mundo e diversas alianças. A disputa da agroecologia nas universidades é fundamental. Não pode se olhar somente com a visão urbana. A agroecologia não se faz somente com técnicos agrícolas, é necessário que envolva todas as profissões que se relacionam com esta temática.

O campesinato precisa estar organizado. É uma ciência de um novo paradigma, uma nova cosmovisão. Para isto é necessário inverter os olhares para transformar a realidade. Para fazer essa transição em massa é importante ver a agroecologia como uma nova visão de nação e de mundo. É importante impulsionar um projeto revolucionário alternativo, como a reforma agrária popular, que seja capaz de mudar as relações entre o campo e a cidade. A transformação é importante na sucessão rural, também, porque há o registro de patriarcalismo no campo. O novo camponês precisa da visão sistêmica e holística, sem moralismo religioso. A nova geração camponesa precisa ser revolucionária!!

 Islândia Bezerra:

Islândia é feminista com atuação no campesinato e acredita em sua atuação como sujeito histórico, que segue resistindo ao poder hegemônico. A palestrante afirma a necessidade de eliminar a desigualdade na classe do campesinato. Os povos (negros, indígenas e ribeirinhos) vieram resistindo e mostrando um pouco do olhar ecológico. Além da diversidade de etnias e povos, existe uma identidade comum da classe camponesa, que é a relação com a terra, a natureza e o alimento. No processo histórico, esses povos foram capazes de realizar o melhoramento e a domesticação dos cultivos, produzindo conhecimento antes mesmo dos laboratórios e as pesquisas científicas. Transmitiram conhecimento de geração a geração e isso caracteriza-se como agroecologia: um processo real e cotidiano dos camponeses. Aos poucos esses conhecimentos foram trazidos para os estudos e as pesquisas, contribuindo assim para a valorização das práticas.

A força do movimento social e sua articulação é fundamental. É claro a impossibilidade de convivência entre agroecologia e o modelo capitalista, pois são antagônicos. Agroecologia não é um negócio, não pode ser vista como uma forma de ter lucros e ser apropriada nas mãos de poucos.

A agroecologia possui visão de abundância e partilha do conhecimento. Não pode fechar os olhos para o massacre que os camponeses e indígenas enfrentam com conflitos no campo nessa conjuntura política. Não é uma luta só pelos recursos naturais, mas também pelas relações sociais de forma democrática.

 Glaicon José Sell

Glaicon é agricultor e presidente do Instituto Eco. Discursou sobre o exemplo claro da soberania alimentar como uma política pública capaz de realizar uma transformação para área rural, contribuindo para os benefícios do crédito ao agricultor. Hoje é possível ver no país inúmeras pessoas dispostas a contribuir e a construir esse movimento. Relata sua experiência como agricultor, com a venda dos seus produtos em uma feira com mais 21 anos em Florianópolis, onde há clientes fiéis e periódicos que conseguem contribuir muito mais do que a simples compra do produto.

A agroecologia possui um empoderamento que o agronegócio não é capaz. Em um litro de terra viva há uma quantidade de vida incontáveis e que são transferidas para o alimento de origem ecológica. É possível ter uma transformação!  A culpa das sementes geneticamente modificadas e dos inseticidas é de quem consome. Hoje o poder da juventude está se levantando com uma força tão grande, potencial de revolução, jovens que retornam para o campo sem vergonha. Não precisa ter medo, pois cabe a todos nós! A sociedade é capaz e deseja essa mudança, esse congresso é um exemplo disso.

“Viva como se fosse morrer amanhã e faça agricultura como se fosse viver para sempre”. Josan Clay – WWF

Contribuições do público participante:

-      Jovem diz que a produção orgânica não usa agroquímicos, mas também, muitas vezes não respeita princípios de conservação ambiental. Afirma a necessidade de fortalecimento da agricultura familiar e da agroecologia.

-    É claro que o estado burguês não quer reconstruir a soberania alimentar. O poder hegemônico constrói uma cortina de fumaça e agrega os dois termos: segurança alimentar e soberania, sendo que há grande diferença nos conceitos, não podem se apropriar da palavra.

-   Um estudo do Pronaf tinha a missão de inserir o campesinato no agronegócio e essa não é a saída!

-      O Frei Sérgio ao ser questionado sobre ideologias de gênero, diz seguir sua visão religiosa. Acredita no princípio do evangelho de amar uns aos outros, independente das definições de gênero. A sociedade como um todo, independente dos posicionamentos de ideologia, precisa de um novo encantamento com a natureza.

-       O camponês precisa se apropriar do campo, precisar revalorizar e mudar a ótica do campo. O que o capitalismo fez foi desvalorizar essa visão para ter massa trabalhadora a baixo custo nas indústrias urbanas e periurbanas. Dessa forma, ganhou espaço no campo para o latifúndio.

-  Na luta contra o golpe a juventude e as mulheres foram as maiores expressões com protagonismo em defesa da ocupação pública. Assim, diversidade sexual não pode ser discutida sem também discutir o perfil das mulheres e das relações raciais.

-    O preço mais alto dos produtos orgânicos considera as dimensões sociais e ambientais, que não são consideradas nos custos dos produtos convencionais.

 

Facilitação Gráfica:

Notícias:

http://agroecologia2017.com/campesinato-e-soberania-alimentar-na-america-latina-e-tema-de-debate-no-x-congresso-de-agroecologia

http://www.cloc-viacampesina.net/portugues/brasil-campesinato-e-soberania-alimentar-na-america-latina-e-tema-de-debate-no-x-congresso

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT48 – Políticas públicas na construção da segurança e soberania alimentar e agroecologia

Políticas públicas en la construcción de la seguridad y soberanía alimentaria y la agroecología

Dia 13 | 14h00 – 17h00 | AUDITÓRIO IPÊ AMARELO | #Agroecologia2017

Responsável(is): Eric Sabourin (PP-AL); Gabriel Fernandes (Proyecto Alianza por la Agroecología); Emilio Ramirez Ricardo (ANAP – Cuba); Coordenador: Luiz Zarref (MST)

Arquivos:

Apresentação Eric Sabourin  [Português]

Apresentação  Eric Sabourin  [Español]

Apresentação Gabriel Fernandes

Luiz Zarref do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), fala sobre o painel de Políticas Públicas na construção da Soberania Alimentar e Agroecologia na América Latina, realizado na tarde dessa quarta-feira, 13 de setembro, durante o X Congresso de Agroecologia. Segundo ele, neste painel foi abordado um estudo desenvolvido pelos pesquisadores, Eric Sabourin (PP-AL), Gabriel Fernandes (Projeto Aliança pela Agroecologia) e Cláudia Schmidt ao longo dos dois últimos anos sobre o que significou esse período do Ciclo Progressista para a consolidação de Políticas Públicas para a América Latina. Um estudo muito importante que permiti visualizar as contradições desse processo do Ciclo Progressista. .Confira o vídeo na integra.Texto e Vídeos: Adilvane Spezia / Campo Unitário #Agroecologia2017

Posted by Agroecologia 2017 on Thursday, September 14, 2017

Vídeo: Adilvane Spezia / Campo Unitário

 

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT33 – Agroecologia, agrobiodiversidade e valoração das funções ecossistêmicas

Agroecología, agrobiodiversidad y valoración de las funciones ecosistémicas

Dia 13 | 10h00 – 12h00 | AUDITÓRIO JATOBÁ | #Agroecologia2017

Responsável(is): Gloria Guzman Casado (Universidad Pablo de Olavide – Espanha); Santiago Sarandón (Universidad Nacional de La Plata – Argentina); Georgina Catacora (SOCLA – Bolivia); Coordenador: Walter Pengue (The Economics of Ecosystems and Biodiversity –TEEB / Intergov

Arquivos:

Apresentação de Gloria Guzman Casado

Apresentação de Santiago Sarandón

Relato:

Esta atividade contou com apresentações orais dos quatro convidados. Ao final, foi aberta a participação da plateia para comentários e perguntas. Abaixo, destacamos os principais pontos de cada etapa da atividade.

1ª apresentação, de Walter Pengue, com o tema "Agroecologia, agrobiodiversidade e valoração das funções ecossistêmicas":

- Afirma que a humanidade precisa dos recursos naturais para obter todos os bens que consome, os quais têm sua origem a partir do solo, água, biodiversidade e serviços ambientais.

- Problematiza os impactos negativos da agricultura industrial, como a expressiva perda de biodiversidade, mudanças climáticas e danos aos ciclos hidrológicos e de nutrientes, entre outros.

- Ressalta o drástico aumento populacional nos últimos séculos, com estimativas de alto crescimento para as próximas décadas, especialmente a parcela urbana.

- Constata que enquanto o modelo da economia marrom desconsidera os limites ambientais para o crescimento econômico, o da economia verde propõe um desacoplamento entre o aumento do bem-estar humano com a demanda de recursos e impactos ambientais (ver arquivo da apresentação).

- Afirma que a obesidade causa mais danos do que o cigarro e os conflitos armados.

- Afirma que os efeitos dos agroquímicos custam 167 bilhões de dólares por ano.

- Ressalta a importância de se pensar metabolicamente.

- Diz que há alta demanda por recursos de base.

- Aponta que os intangíveis ambientais - solo e água virtual - não são valorados economicamente.

- Diz que há terra arável disponível somente nos países em desenvolvimento.

- Defende a necessidade de se mudar a visão para reparar os danos ambientais.

- Aponta os fluxos visíveis e invisíveis da produção agrícola entre sistemas humanos, agroalimentares e ecossistêmicos.

- Defende o papel da Economia Ecológica para dar visibilidade e valoração aos serviços ecossistêmicos e da biodiversidade, negligenciados em outras abordagens econômicas tradicionais.

- Destaca a importância da participação dos campesinos e populações tradicionais

- Finaliza dizendo que é hora de agir para resolver os problemas socioambientais.


 


2ª Apresentação, de Gloria Guzman Casado, com o tema "Aplicação do Metabolismo Social Agrário à valoração das funções ecossistêmicas das variedades tradicionais".

- Diz que a investigação é muito útil para compreender, recuperar e manter os serviços ecossistêmicos que as propriedades podem prestar.

- Afirma que o metabolismo social agrário estuda fluxos de energia e materiais que constituem o funcionamento do agroecossistema. Estes fluxos devem satisfazer as necessidades da sociedade e também manter a qualidade dos elementos de fundo, como biodiversidade, solos e outros. Isso requer diminuir os insumos de origem fóssil e fortalecer os fluxos internos - leguminosas e reciclagem de resíduos.

- Destaca que o escopo do estudo é a comparação entre uma variedade tradicional e outra moderna de trigo em diferentes sistemas de manejo - tradicional (agroecológico) e moderno.

- Esclarece que variedades são consideradas componentes estruturais dos agroecossistemas pois modificam seu funcionamento, afetando os elementos fundo e consequentemente os serviços ecossistêmicos associados.

- Afirma que a variedade tradicional sob manejo tradicional apresentou produtividade de biomassa (palha, grãos e raiz) 53% maior. Mais palha permite incorporar mais biomassa ao solo, interessante em especial para regiões semiáridas.

- Aponta os serviços ecossistêmicos e benefícios da variedade tradicional de trigo sob manejo agroecológico em regiões semiáridas: maior aporte de proteína à sociedade; aumento do sequestro de carbono; melhora da fertilidade do solo com menores perdas de nitrogênio por lixiviação; levam à diminuição da biomassa de plantas espontâneas e ao aumento de sua diversidade.

3ª apresentação, de Santiago Sarandón, com o tema "Agrobiodiversidade, Agroecologia e Agricultura Sustentável. Valoração e importância em sistemas extensivos"

- Afirma que a agrobiodiversidade presta diversos serviços ecossistêmicos.

- "Sou engenheiro agrônomo e na faculdade nunca me contaram nada sobre biodiversidade", disse Santiago Sarandón.

- Mostra imagens de quando se busca na internet o termo 'biodiversidade' aparecem animais selvagens, plantas, insetos e flores. Logo em seguida, mostra imagens de quando se busca o termo 'sistemas agrícolas' aparecem grandes áreas de monoculturas (ver arquivo da apresentação).

- Afirma que há três níveis de biodiversidade: genética, de espécies e de ecossistemas.

- Considera a biodiversidade fundamental para a agricultura como provedora de recursos biológicos (genes) e serviços ecológicos.

- Resssalta que na conservação ex-situ de agrobiodiversidade (como os silos de sementes no Ártico), apenas genes são protegidos - ou seja, apenas um dos três níveis de biodiversidade.

- Constata que a agricultura é a atividade que mais impacta ecossistemas, já que metade dos ecossistemas terrestres são agroecossistemas.

- Diz que 90% da demanda por calorias no mundo é obtida pelo cultivo de 15 plantas.

- Aponta que dois terços da alimentação humana atual é provido por apenas três espécies: arroz, milho e trigo.

- Diz que há forte redução do número de variedades cultivadas. Grande quantidade de variedades de milho foram perdidas em apenas um século. Monocultivos simbolizam a uniformidade da agricultura moderna.

- Indica os níveis de agrobiodiversidade: espécies, lotes, propriedades e regiões.

- Apresenta os componentes da diversidade biológica agrícola ou agrobiodiversidade:
a. recursos genéticos para alimentação e agricultura
b. serviços ecológicos proporcionados
c. fatores abióticos
d. dimensões socioeconômicas e culturais.

- Constata que a biodiversidade parece ser a base ecológica de outro modelo de agricultura menos baseada em insumos.

- Afirma que apesar de seu conhecimento poder ser comum, científico ou teórico, sua aplicação é local, situada e empírica.

- Apresenta os serviços ecológicos que a agrobiodiversidade proporciona: ciclagem de nutrientes, regulação de pragas e doenças, polinização, manutenção e melhora da fauna e flora silvestres e os habitats locais em suas paisagens; manutenção do ciclo hidrológico; controle de erosão; regulação do clima e absorção do carbono. "Quantos engenheiros se preocupam com isso?", questionou Santiago Sarandón.

- Destaca as dimensões da diversidade biológica em um agroecossistema: genética, espécies, vertical, horizontal, estrutural, funcional, temporal - ressalta a relevância da diversidade funcional.

- Diz que há diferentes escalas para avaliar se um agroecossistema tem boa biodiversidade.

- Aponta as práticas para aumentar a biodiversidade na propriedade: manejo da biodiversidade cultivada (consórcios); ambientes seminaturais (reservas de biodiversidade).

- “Ao se analisar indicadores de agrobiodiversidade, não devemos nos prender aos números em si e sim à ideia, já que cada bioma e ecossistema apresenta um grau diferente de riqueza de espécies” afirma Santiago Sarandón.

- Afirma que o 'valor' da biodiversidade é intrínseco, utilitário, de opção, e funcional. Exemplo citado por Sarandón: um estudo sobre a relação entre a proporção de terreno sem cultivo de colza e rentabilidade mostrou que 32,7% do terreno deve ficar sem plantio pois a colza precisa de inseto para polinizar e dar semente. Logo, não vale a pena plantar em toda a área disponível.

- Defende que a biodiversidade tem que ser conservada in-situ para que mantenha suas funções ecológicas, diferentemente do que papel desempenhado por bancos de germoplasma.

- Conclui que: a biodiversidade é essencial para agricultura; a agricultura moderna gera um impacto negativo sobre a agrobiodiversidade e biodiversidade; é necessário detectar os principais componentes da agrobiodiversidade responsáveis pelas funções ecológicas e compreender os impactos que os diversos usos da terra têm sobre estes componentes; compreender que o valor da biodiversidade supera amplamente o preço de alguns de seus elementos.


 


4ª apresentação, de Georgina Catacora, com o tema "Agrobiodiversidade e sua valoração desde o aporte alimentar - análises de resultados e aspectos metodológicos":

- Aborda a dimensão mais social da agrobiodiversidade.

- Compreende que agrobiodiversidade é a diversidade biológica silvestre e domesticada relevantes para a alimentação e agricultura.

- Diz que há múltiplas funções da agrobiodiversidade.

- Aponta que a caracterização da agrobiodiversidade em diferentes sistemas de cultivo mostra que o agroecológico é o mais biodiverso nos parâmetros analisados.

- Estudo demonstra que quanto maior a agrobiodiversidade, maior a produtividade e a colheita de nutrientes (quantidade e diversidade).

- Resgata as definições de segurança alimentar ao longo do tempo: disponibilidade (década de 70); acesso físico e econômico (década de 80); acesso físico, social e econômico (década de 90).

- Destaca os componentes da segurança alimentar: disponibilidade, acesso, estabilidade e utilização.

- Afirma que o foco no 'acesso' das primeiras concepções de segurança alimentar levou à busca pela produtividade e especialização agrícola.

- Conclui que: os sistemas agrobiodiversos são mais eficientes em termos de produtividade e aporte de nutrientes; produtividade de cultivos é insuficiente para valoração adequada de sistemas produtivos a partir da perspectiva alimentar; o atual enfoque de segurança alimentar é limitado para valorar o aporte real dos sistemas agroecológicos.


 


Participação do público gerou as seguintes questões e comentários:

- Santiago Sarandón acrescenta que a agrobiodiversidade está muito ligada à cultura - e não somente ao físico e biológico. Destaca o conhecimento dos agricultores. Diz que quando os agricultores são perguntados sobre quais plantas possuem na propriedade, eles não mencionam as espécies que não são comercializadas.

- Plateia pergunta para Gloria Casado: como considerar escala temporal nas pesquisas? R: "Três anos é pouco para avaliar o fator tempo (...) mas agora fico motivada em buscar registros históricos para realizar este tipo de análise."

- Plateia pergunta para Santiago Sarandón: quais medidas de agrobiodiversidade são mais robustas? R: "É difícil agregar muitos indicadores e citou o PRB (potencial de regulación biótica), formado por 15 indicadores."

- Membro da plateia ressaltou a importância da defesa do território frente a modelos degradantes e destacou que boa parte de seu país está tomado pela mineração.

- Plateia pergunta para Georgina Catacora-Vargas: além da quantidade, foi estudada a qualidade nutricional dos alimentos na sua pesquisa? R: "Em segurança alimentar e nutricional há os seguintes aspectos: quantidade, diversidade e qualidade. Eles caminham juntos”. Cita um estudo sobre análise composicional de tomates agroecológicos e convencionais no qual constatou-se que os primeiros eram mais nutritivos. “Qualidade não é só nutriente, há também a questão dos resíduos, questões esotéricas e espirituais. Aprendi de uma chef de cozinha que a relação sentimental com o alimento e sua memória se dá pelo olfato. Ainda não estamos considerando os aromas e possíveis relações com valores culturais e emocionais. Sempre nos sentimos felizes ao sentir o cheiro e comer comida de vó. Há que se considerar o que está por trás do prato e como aquele alimento foi produzido." (Aplausos da plateia).

 -Giordano Viola, membro da plateia, pergunta para Gloria Casado: Como a variedade tradicional de trigo consegue colocar mais nutrientes no grão? Houve uma abordagem genética? Estudou-se qual enzima faz isso? R: "Não entramos no nível genético não por falta de relevância, mas por não ser prioridade da nossa pesquisa." O membro da plateia replica levantando a possibilidade da menor concentração de nutrientes no grão de trigo da variedade moderna ser proposital, como uma estratégia do mercado para obrigar as pessoas a consumirem mais. Ressalta ainda a importância da agroecologia em estudar isto mais a fundo.

Foto da atividade:

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***

#AT14 – Intercâmbio de experiências territoriais para a conquista da soberania alimentar na AL

Intercambio de experiencias territoriales para la conquista de la soberanía alimentaria en AL

Dia 12 | 14h00 – 17h00 | TAMANDUÁ BANDEIRA | #Agroecologia2017

Responsável(is): Eric Holt-Gimenez (Food First – USA); Maria Emília Pacheco (FASE); Coordenador: Marcos Figueiredo (UFPE)

 

Facilitação Gráfica:

Responsáveis pela atividade: estamos ansiosos para publicar seus materiais aqui, mas precisamos de sua permissão. Basta enviar para o endereço eletrônico  relatosagroecologia2017@itbio3.org a mensagem:

Concordo com a disponibilização do(s) material(is) apresentado(s) por mim na atividade #AT14 – Intercâmbio de experiências territoriais para a conquista da soberania alimentar na AL no blog https://relatosagroecologia2017.itbio3.org/atividades/   e concordo  com o termo de uso do blog relatosagroecologia2017.itbio3.org/atividades/termo-de-uso/”.

 Materiais adicionais (fotos, relatos vídeos etc.) são muito bem-vindos na mensagem.

 

*** Participe da construção da memória do congresso! Registre suas impressões e sugestões no campo de comentários abaixo. ***